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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

OS NOVOS PAÍSES INDUSTRIALIZADOS

Os espaços da industrialização clássica no mundo, aquela que despontou no século XVIII e se consolidou no século XIX, são a Europa Ocidental, a América anglo-saxônica, a Rússia e o Japão. Os demais países que hoje possuem industrialização forte podem ser chamados de “países de industrialização tardia”. Uma outra forma, que se tornou bastante comum nos últimos anos, é denominá-los “Novos Países Industrializados” (NPI’s), ou em inglês, “New Industrialized Countries” (NIC’s).

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O contexto e o processo de industrialização

A industrialização desses países decorre, em alguns casos, de iniciativas públicas e privadas internas, e, de maneira mais geral, do deslocamento espacial de grandes empresas transnacionais da Europa, dos Estados Unidos e do Japão para países do mundo subdesenvolvido, essencialmente da América Latina e do sul e sudeste da Ásia.

As multinacionais, especialmente no contexto do pós-guerra, aproveitaram-se dos avanços técnicos nas áreas de transportes e comunicações e transferiram fábricas para o terceiro mundo em busca de vantagens comparativas, tais como mão de obra barata, sindicatos fracos, ofertas atrativas de incentivos fiscais, menor pressão ambiental, matéria-prima abundante e mercados consumidores crescentes.

Os Novos Países Industrializados. Fonte: Wikipedia

Países como Brasil, México, Turquia, China, Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura, Índia, África do Sul e o território de Hong Kong receberam pesados investimentos industriais que mudaram o perfil de ocupação da população economicamente ativa, impulsionaram migrações do campo para as cidades e aceleraram o crescimento urbano que, em muitos casos, foi marcado pela desordem e pelas péssimas condições de vida oferecidas aos mais pobres.

Como o crescimento industrial desses países se dá em pleno contexto de guerra fria, a imposição da influência política e econômica do bloco capitalista e o combate à expansão do socialismo contribuíram para que a maioria desses países vivesse experiências políticas ditatoriais até o fim dos anos 80 ou início dos anos 90, quando a guerra fria acabou. As ditaduras ajudaram a garantir a segurança contra possíveis estatizações dos investimentos produtivos feitos pelas transnacionais nesses países.

As transformações na base produtiva das economias emergentes que constituem os Novos Países Industrializados foram capazes de substituir a velha divisão internacional do trabalho – onde os países subdesenvolvidos eram meros exportadores de bens primários e os países desenvolvidos eram exportadores de bens industrializados – por uma nova divisão internacional do trabalho, que conta não mais com dois grupos, mas com três grupos de países: os desenvolvidos com industrialização de ponta; os emergentes com industrialização de baixa tecnologia e alguns setores de ponta; e os subdesenvolvidos de baixa industrialização.

Diferenças importantes entre dois modelos

No entanto, apesar das muitas semelhanças entre os Novos Países Industrializados, existem diferenças significativas entre os modelos de desenvolvimento aplicados em cada região e em cada caso. Vejamos algumas situações.

Na América Latina, o modelo geral de desenvolvimento industrial ficou conhecido como substituição de importações, isso porque a orientação dos governos foi para a instalação de indústrias de bens de consumo e de indústrias de base que reduzissem ou eliminassem a necessidade de importação de bens industriais para abastecer o mercado interno. Os trabalhadores obtiveram conquistas de direitos trabalhistas de modo geral, como no Brasil de Vargas. No entanto, os investimentos em educação e qualificação profissional foram baixos ou insuficientes.

Já nos chamados “Tigres Asiáticos”, a industrialização se dá sob o modelo que ficou conhecido como “plataforma de exportação”, pois os governos orientaram a industrialização para o atendimento ao mercado externo. Os trabalhadores não receberam os mesmos tipos de proteção trabalhista que a América Latina conheceu, sendo submetidos à elevada exploração, com jornadas longas, em ambientes insalubres e vasto uso de trabalho infantil. Contudo, os investimentos em educação e qualificação profissional foram mais consistentes que os observados na América Latina, atraindo mais indústrias de produtos de tecnologia e alto valor agregado.

Alguns casos em destaque

Entre os tigres asiáticos, a Coréia do Sul destaca-se por não ter recebido tantas indústrias estrangeiras e por ter vivido o desenvolvimento de grandes indústrias nacionais, verdadeiros conglomerados formados por diversas empresas pertencentes a um mesmo grupo e que atuam em diversos setores da economia. Esses conglomerados são chamados de Chaebol, entre os quais se incluem empresas transnacionais como Hyundai, LG, Samsung, Daewoo e Ssangyong.

A China também pertence ao grupo dos Novos Países Industrializados embora tenha vivido trajetória bem diferente. O país é comunista e viveu sob um regime (maoísta) economicamente fechado até o final dos anos 70. A abertura econômica do país e a criação das chamadas Zonas Econômicas Especiais, onde o Estado chinês permitiu a instalação de indústrias estrangeiras, atraiu centenas de companhias transnacionais interessadas em explorar as vantagens competitivas do território.

A China, que nos últimos 30 anos foi o país que mais cresceu economicamente e hoje é a segunda maior economia do planeta, atraiu investimentos oferecendo mão de obra extremamente barata, legislação autoritária que impede a atuação sindical, proximidade com os países do eixo pacífico-índico, matéria-prima abundante e um mercado consumidor crescente, que hoje conta com uma classe média composta por mais de 300 milhões de pessoas.

Taiwan forma-se em 1949, quando a revolução chinesa conduzida por Mao Tsé-Tung perseguiu e expulsou do país os membros e seguidores do grupo derrotado, o partido Kuomintang. Eles fugiram para a ilha de Formosa, onde declararam sua independência, que ainda não foi reconhecida pela China, que considera Taiwan uma província rebelde. Os Estados Unidos apoiaram o governo de Taiwan fazendo pesados investimentos como forma de evitar a expansão do socialismo chinês sobre a ilha. Hoje o país possui diversas indústrias atuando em vários setores de tecnologia.

Hong Kong é um território chinês que esteve sob o controle do Reino Unido a partir de 1842 . Os chineses perderam o controle sobre o arquipélago como resultado da derrota sofrida na guerra do ópio. Um acordo devolveu o território aos chineses em 1997. No entanto, ao longo da guerra fria, Hong Kong serviu aos interesses capitalistas como uma espécie de “vitrine do capitalismo”, ou seja, uma maneira de mostrar ao povo chinês como o capitalismo seria melhor que o socialismo, e com isso atraí-lo. Nesse contexto, Hong Kong recebeu pesados investimentos financeiros e hoje tem uma bolsa de valores muito importante. A China, sabendo que receberia de volta esse território, propagou o slogan: “China: um país, dois sistemas”, que pode-se traduzir por um sistema político comunista fechado e um sistema econômico capitalista relativamente aberto.

Também a partir dos anos 80, na esteira do desenvolvimento dos tigres asiáticos, outros países, que ficaram conhecidos como “Novos Tigres Asiáticos”, também passaram a receber investimentos estrangeiros e a reproduzir o mesmo modelo de desenvolvimento. Nesse grupo estão Malásia, Indonésia, Tailândia e Filipinas. Um pouco depois, despontou o desenvolvimento industrial do Vietnã, com características muito semelhantes aos “Novos Tigres”. Alguns autores classificam esse país como “Novíssimo Tigre Asiático”.

A Índia alcançou a independência apenas em 1947 e viveu um franco desenvolvimento industrial a partir dos anos 50, com controle sobre as importações e os investimentos estrangeiros. A parcela da população que desfruta das melhores condições sociais possui um grau de instrução médio bastante elevado que permitiu ao país o domínio de tecnologias tradicionais e o destaque no controle de vários setores de tecnologia sofisticada, notadamente nos setores de informática, eletrônica, energia nuclear, satélites artificiais e medicamentos.

Recebeu o domínio da língua inglesa como herança colonial, o que favoreceu a instalação de empresas de telemarketing interessadas no custo médio reduzido da mão de obra do país. A Índia conta ainda com um moderno setor financeiro, liberalizou as importações e os investimentos externos no início dos anos 90 e possui uma das melhores projeções de crescimento econômico para as próximas décadas.
A Turquia desenvolveu-se industrialmente após a independência, em 1923, com forte atuação estatal, planejamento rigoroso e forte controle sobre o setor privado, o comércio exterior, e os investimentos externos diretos. A liberalização da economia do país ocorreu, como no caso de vários países, nos anos 80 e foi sucedida tanto de crescimento econômico quanto de crises financeiras nos anos 90 e 2000. O país têm forte indústria naval, setor automobilístico crescente e tem um forte setor petroquímico, constituindo um importante elo entre a Europa e as regiões do Oriente Médio e, agora, também com o Mar Cáspio, com a construção do oleoduto BTC.

A África do Sul, que é o país mais industrializado do continente africano, sofreu até o início dos anos 90 com sanções aplicadas contra o país por conta da vigência do regime de apartheid (segregação racial) que foi extinto em 1994. O governo pós-apartheid, de Nelson Mandela, herdou uma economia com graves problemas mas conseguiu controlar a inflação e atrair investimentos externos. O país é um exportador de produtos primários e depende muito da importação de maquinário e de bens industriais. Apesar disso, sua economia faz parte do grupo de países emergentes mais promissores conhecido com BRICS.

No México, a industrialização, dada no modelo de substituição de importações, foi marcada por investimentos privados e estatais. No entanto, o fato do país ser vizinho dos Estados Unidos influenciou muito sua industrialização. A maior parte das indústrias instaladas no país encontra-se na porção norte do território, perto da fronteira com os Estados Unidos. Para atrair mais investimentos estadunidenses, o México criou, junto à fronteira, uma zona franca que oferece inúmeros incentivos fiscais. Essa medida intensificou a instalação de indústrias intensivas em mão-de-obra conhecidas como “maquilladoras”, que são indústrias de montagem e finalização de produtos industriais, altamente empregadoras, que exploram a baixa remuneração dos trabalhadores mexicanos.

O prestígio dos países emergentes

Os Novos Países Industrializados têm apresentado crescente prestígio político internacional, além do crescimento econômico invejável, que inclui a internacionalização da atuação de várias empresas nacionais, inclusive estatais. A maioria dos NPI’s compõe o G-20, que reúne os países de maior relevância econômica num palco de discussões onde são tomadas algumas das principais decisões sobre os rumos da economia global.

Esses países emergentes também participam de blocos econômicos e políticos formando mercados multilaterais regionalizados que intensificam sua atividade comercial de exportação e importação e as relações políticas e diplomáticas. Brasil é o principal membro do MERCOSUL; o México integra o NAFTA; a China, o tigres e os novos tigres asiáticos integram a APEC (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico) e/ou a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático); a Índia participa da SAARC (Associação Sul-Asiática para Cooperação Regional); e a África do Sul integra a UAAA (União Aduaneira da África Austral).

Outra evidência do atual prestígio desses países na nova ordem mundial é o fato deles estarem sediando alguns dos principais eventos esportivos internacionais, como a Copa do Mundo de 2002, sediada pela Coréia do Sul junto com o Japão; os jogos olímpicos de 2008, sediados pela China; a Copa do Mundo de 2010, sediada pela África do Sul; e o grande destaque do Brasil nessa década, quando receberá a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

RECONSTRUÇÃO JAPONESA OU O “MILAGRE JAPONÊS”

O Japão, no auge do seu processo de expansionismo territorial, que começou ainda no final do século XIX, na Era Meiji, envolveu-se na segunda guerra mundial e sofreu uma derrota marcante, que culminou com os ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. O país ficou arrasado.

Era razoável considerar que tamanha destruição condenaria o país ao subdesenvolvimento por muitas décadas. Mas não foi assim que aconteceu. Em menos de 30 anos o país já tinha a segunda maior economia do planeta. Como isso aconteceu? É o que pretendemos explicar aqui.

Bandeira Imperial Japonesa

A reconstrução japonesa, ou o “milagre japonês”, contou com o acerto de políticas públicas, com o empenho e empreendedorismo do setor produtivo e com uma decisiva participação da sociedade. Era preciso organizar as finanças – ganhar mais e gastar menos – organizar a produção no campo, na indústria e no comércio e pensar no futuro.

Muitos fatores contribuíram relevantemente para a reconstrução do país destruído pela guerra. Apresentamos, na sequência, uma lista com os principais fatores, cada um acompanhado de uma breve explicação sobre sua importância para a realização do “milagre japonês”.

Plano Colombo

Criado em 1951 como um grupo de ajuda econômica para o desenvolvimento social dos países do sul e sudeste da Ásia, foi através do Plano Colombo que os japoneses receberam uma grande ajuda financeira dos Estados Unidos, que serviu aos trabalhos de reconstrução como a recuperação da infra-estrutura de energia, de transportes e de comunicações além da própria organização das finanças do Estado no pós-guerra. Os recursos eram menos volumosos que os destinados ao Plano Marshall, para reconstrução da Europa Ocidental, e foram contraídos e utilizados com cautela pois representavam um elevado endividamento para o país.

Reforma agrária

Após a guerra, o Japão ficou sob ocupação militar dos Estados Unidos, comandada pelo General Douglas Mac Arthur. Era necessário organizar e estimular a produção de alimentos além de gerar trabalho e renda para a população que sobreviveu ao conflito. A terra teve a sua propriedade parcelada, seu acesso facilitado, e a política agrícola implantada estimulou a produção, especialmente na porção norte do país, na ilha de Hokkaido, a parte menos urbanizada do Japão. O processo de reforma agrária, ocorrido em 1946, foi conduzido ainda sob o comando do General Douglas Mac Arthur. Todavia, com a modernização das técnicas agrícolas, a população se urbanizava cada vez mais, reduzindo a população economicamente ativa no campo e ampliando sua participação na indústria.

Reforma política democrática e liberalizante

Os americanos pretendiam conduzir uma reforma política que anulasse o expansionismo territorial japonês. Dessa reforma nasceu, em 1947, uma nova constituição que orientava a política nacional para rumos democráticos e liberais. Foi imposto o limite de 1% do PIB para gastos militares. A economia gerada pela redução dos gastos militares foi investida na área industrial.

Medidas protecionistas

Os Zaibatsu, poderosos grupos industriais e financeiros que tinham capitalizado o militarismo expansionista, foram dissolvidos legalmente após a segunda guerra mundial. No entanto, eles ressurgiram com novas personalidades jurídicas e valeram-se da tradicional coesão entre o Estado, as grandes indústrias e os bancos para crescer novamente, cercados de estímulos e proteções do governo, que combatia a concorrência com indústrias estrangeiras na disputa pelo mercado consumidor interno do país.

Sub-valorização cambial do iene

O Estado japonês desvalorizou, artificialmente, a sua moeda. Com essa medida ele tinha por objetivo forçar a obtenção de balanças comerciais favoráveis. Com o iene desvalorizado, os produtos japoneses tornam-se baratos fora do Japão e os produtos importados tornam-se caros dentro do Japão. Assim, o resultado é um alto volume de exportações e um baixo volume de importações, produzindo a balança comercial positiva. Como isso funciona?

Comparemos o iene com o dólar. Se um iene for igual a um dólar, um produto americano de 100 dólares custará, no Japão, 100 ienes. Do mesmo modo, um produto japonês de 100 ienes custará, nos Estados Unidos, 100 dólares. Vamos, agora, desvalorizar o iene. Ele não pode, portanto, continuar valendo um dólar. Tem que valer menos. Vamos supor que um dólar seja igual a dez ienes. Repare que o iene se desvalorizou. Antes, com apenas um iene era possível comprar um dólar. Agora são necessários dez ienes. A moeda se desvalorizou dez vezes.

Sendo assim, retomemos a comparação. Agora, aquele mesmo produto japonês que custava 100 ienes não custará 100 dólares mas apenas dez dólares. Ficou fácil exportar produtos do Japão para o mundo. Por outro lado, aquele mesmo produto que custava 100 dólares não custa mais apenas 100 ienes. Ele passou a custar 1000 ienes. Ficou muito mais caro! Por isso, ficou mais difícil importar produtos americanos no Japão. Exportando mais e importando menos, o Japão atingiu seu objetivo: formar uma balança comercial positiva e, com isso, a economia do país cresceu bastante.

Estímulo à produção em massa

Com condições econômicas capazes de estimular a exportação de forma agressiva, o Japão estimulou a produção em massa a fim de ampliar os mercados alcançados por seus produtos e incrementar os ganhos das atividades de produção para exportação.

Elevada poupança interna

O sistema previdenciário japonês enfrentava sérias dificuldades. Não era possível confiar nele. O acentuado déficit habitacional e a necessidade de economizar para arcar com os custos de moradia completam o quadro que estimulou a compressão do consumo e a elevação da poupança interna. Os investimentos financeiros da população na poupança eram convertidos pelos bancos em capitais para financiamento da inovação industrial nas empresas cujos bancos possuíam participação nas ações, ou seja, em seus ativos financeiros. A poupança do povo financiou a inovação.

Investimentos em educação, ciência e tecnologia

Olhando para o futuro, os japoneses viam que um posicionamento superior na Divisão Internacional do Trabalho (DIT) dependia do grau de ciência e tecnologia aplicado aos seus produtos. Isso porque, na transição da segunda para a terceira revolução industrial, a inovação tecnológica torna-se ainda mais importante para as indústrias na busca competitiva pelos mercados. E para isso era necessário investir em educação para a formação de mão-de-obra qualificada, e em ciência e tecnologia, para estimular a inovação.

Para isso, além do produto da poupança interna, conforme mencionamos acima, o Estado japonês investiu um significativo percentual do PIB do país nesses setores estratégicos. E o patronato japonês soube aproveitar a competência tecnológica de seus empregados. O resultado foi a transição do perfil do parque industrial de baixa tecnologia (têxtil, siderurgia, indústria naval) para um parque industrial de alta tecnologia (eletrônica de consumo, microeletrônica, informática e robótica) além da conquista de um mercado global por suas principais indústrias automobilísticas.

Exploração dos trabalhadores

A sociedade japonesa participou, decisivamente, da reconstrução do país. O alto contingente disponível de mão-de-obra gerou salários baixos. Mas o nacionalismo e a ética confucionista, que no dizer de Rosana Pinheiro-Machado "prima pelo trabalho árduo, poupança e perspicácia, família, harmonia e equilíbrio, frugalidade, autocontrole e a evitação de excessos", e valoriza a disciplina e o respeito à hierarquia, somaram-se ao quadro de exploração do trabalhador. Os operários recebiam pouco, tinham jornadas longas sem descanso, eventualmente não recebiam seus salários ou pelas horas extras trabalhadas e ainda assim eram muito assíduos e produtivos. Não faziam greves, não protestavam. Seus sindicatos eram fracos e sem importância política. Entendiam que esse era um esforço necessário para a reconstrução soberana do país.

Tiveram, durante muito tempo, em contrapartida, a garantia de emprego vitalício aos trabalhadores do sexo masculino até a aposentadoria, aos 55 anos. Esse direito foi instituído entre as duas grandes guerras e permitiu que os empregados não temessem inovar nos processos de trabalho e recebessem investimentos em sua qualificação por parte das empresas.

Mercado interno fortalecido

Com o tempo, esse modelo de exploração se esgotou, na medida em que o país crescia e se fortalecia. O poder aquisitivo cresceu e o povo japonês torna-se voraz consumidor das inovações produzidas no país, estimulando a continuidade do crescimento econômico japonês.

Toyotismo: um novo modelo industrial

É indispensável considerar que foi durante o processo da reconstrução japonesa que nasceu, como fruto da busca pela competitividade da produção industrial no Japão, o modelo toyotista de produção. Ele é marcado pela flexibilidade da produção; pelo rigoroso controle de qualidade sobre os produtos; pela busca da alta performance industrial (zero erro, prazo zero, zero enguiço etc.); pelo uso de trabalhadores qualificados e em menor quantitativo; pelo uso da robótica na produção para a automação de processos; pela produção sob demanda (“just in time”); pela polivalência dos operários com valorização do trabalho coletivo; e pela produção globalizada, ou seja, com etapas dispersas pelo mundo, com cada parte da produção implantada na área onde se encontram as maiores vantagens produtivas a cada etapa.

Por que esse modelo não funciona em qualquer país?

O “milagre japonês” possui características muito próprias. Ele estabeleceu após uma guerra. Os trabalhadores, com garantia de emprego vitalício, se submeteram temporariamente a níveis muito elevados de exploração de forma resignada e disciplinada. Possuíam forte racionalidade e competência tecnológicas. E desenvolveram um novo sistema de produção com elevada capacidade competitiva.

Ou seja, se o milagre é produto dessas e de outras condições que procuramos explicitar aqui, seria necessário aplicar todas essas condições em um outro país para que o “milagre japonês” pudesse ser reproduzido, o que seria praticamente impossível de se realizar.

Esse é o exemplo do Japão: organizar a economia e a produção com alguma ajuda estrangeira; reestruturar a política interna e externa; investir em educação, ciência e tecnologia; criar um novo modelo de produção; tudo isso contando com os valores nacionalistas, a disciplina, o respeito à hierarquia, a qualificação profissional e a competência tecnológica de sua população, foram passos decisivos para a recuperação do país.

Pois foi essencialmente com essas características que o Japão deixou a condição de país arrasado pela guerra e pelos ataques nucleares para se consolidar, em pouquíssimo tempo, como uma das maiores economias do mundo e uma das principais potências tecnológicas do planeta.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

O MUNDO SEGUNDO A MONSANTO

A maior corporação entre as dedicadas à produção de trangênicos e insumos para a agropecuária não tem uma relação saudável com as pessoas, o meio ambiente, os animais e com a verdade.

Com 90% do mercado mundial, A Monsanto, indústria química e de engenharia genética estadunidense, é denunciada no filme de Marie-Monique Robin por praticar absurdos como:

Propaganda enganosa sobre a biodegradabilidade de produtos; exploração de tráfico de influência no alto-escalão do governo americano; despejo de resíduos químicos letais em áreas habitadas e nos ecossistemas de suas plantas industriais; entre outras atrocidades.

A melhor forma de entender como tudo isso é feito pela Monsanto é ver o filme "O Mundo Segundo a Monsanto", que você pode ver agora.

sábado, 6 de agosto de 2011

MECANISMOS DA GUERRA CAMBIAL E A CILADA DO EURO

Mecanismos da Guerra Cambial

Uma das principais formas de se garantir o crescimento de uma economia e a manutenção de suas finanças em níveis saudáveis é ganhar mais e gastar menos, uma receita muito popular. Contudo existem diversas maneiras de produzir esse efeito, entre as quais destaco as seguintes:

- Arrecadar mais impostos e reduzir despesas internas.
- Exportar mais e importar menos.

Quanto ao primeiro grupo de medidas, fica evidente que a parte mais prejudicada nesse tipo de ajuste é a população, que pagará impostos mais altos e verá seu governo reduzir os gastos com educação, saúde, habitação, transportes e outros setores importantes para a sociedade.

O segundo grupo de medidas encontra obstáculos diferentes afinal não se muda o padrão de exportações e importações da noite para o dia.

Para exportar mais é preciso gerar um ambiente propício à exportação e isso depende de infraestrutura de transporte, de armazenagem de produtos e de comunicações. Depende também da carga tributária, dos custos espaciais (aluguel ou compra de terrenos, preservação ambiental etc.) e dos custos de mão-de-obra.


Fonte: http://migre.me/5pQw2

Essas condições não são criadas em pouco tempo mas às custas de investimentos de longo prazo ou de pressões sobre os trabalhadores, que veem sua legislação flexibilizada e seus sindicatos incapazes de defendê-los, e sobre o meio ambiente, quase sempre prejudicado sem proteção ou reparação de danos.

Reduzir as importações seria uma opção mais rápida com a possibilidade de se realizarem bloqueios às importações por decreto. No entanto, essa prática foge aos princípios que regulam o mercado internacional atual, configurando forte protecionismo, podendo, inclusive, ser impedida aos membros da Organização Mundial do Comércio através de sanções do organismo.

Nesse contexto, a subvalorização cambial, ou seja, a desvalorização da moeda, se apresenta como um mecanismo que cria artificialmente as condições para elevar as exportações e reduzir as importações. Para entender como isso é possível, tomaremos dois cenários de comparação entre o Real (moeda brasileira) e o Dólar (moeda estadunidense).

Cenário 1: Um dólar equivale a 2 reais, ou seja, o real está valorizado.

Cenário 2: Um dólar equivale a 4 reais, ou seja, o real está desvalorizado.

Observe que o Brasil já viveu essas duas situações em momentos diferentes nos últimos 10 anos. E tomemos, primeiramente, o ponto de vista de um exportador brasileiro.

Se o produto de um exportador brasileiro tem custo final de 20 mil reais, no cenário 1, sua produção vale 10 mil dólares. Já no cenário 2, sua produção valeria apenas 5 mil dólares, ou seja, um valor menor e muito mais competitivo. Conclusão: a moeda desvalorizada facilita as exportações.

Tomemos, agora, o ponto de vista de um importador brasileiro. Se o produto importado custa 20 mil dólares, no cenário 1 ele custaria 40 mil reais. Já no cenário 2, com real desvalorizado, o mesmo produto custaria 80 mil reais, ou seja, um preço bem menos competitivo. Conclusão: a moeda desvalorizada dificulta a importação.

Diante da crise financeira que se arrasta desde 2008, a China, os Estados Unidos e alguns países europeus de fora da Zona do Euro adotaram mecanismos que criam e recriam a subvalrização cambial de suas respectivas moedas. O objetivo desses países é claro: elevar a balança comercial ganhando mercados e reduzindo importações.


Fonte: http://migre.me/5pQ7Q

O governo brasileiro já acusou diversas vezes esses países de praticarem uma "Guerra Cambial", que afeta diretamente a economia brasileira, especialmente os seus setores exportadres. Esse ambiente "corrosivo" (ver link de "Guerra Cambial") levou o governo brasileiro a lançar uma política industrial apresentada como uma "cruzada" contra o ambiente comercial predatório.

Segundo matéria publicada no G1, a política industrial lançada pelo governo "inclui a devolução de impostos e financiamento a exportadores, desoneração de folha de pagamento para setores intensivos em mão de obra e uma política tributária especial para montadoras. O programa é anunciado num momento em que vários países desvalorizam suas moedas na ânsia por aumentar sua competitividade em uma economia enfraquecida, sobretudo nos países mais ricos".

Cabe ressaltar que em economias e em setores muito dependentes da importação, a subvalorização cambial pode ser desastrosa ao encarecer produtos essenciais como alimentos ou medicamentos importados, por exemplo, ou restringir a importação de maquinário industrial determinando desaceleração da produção industrial e desemprego, consequentemente.


A Cilada do Euro

O mecanismo da subvalrização cambial não está à disposição dos países que compõem a Zona do Euro. Como a moeda é comunitária, não cabe a um país ou outro resolver suas crises financeiras internas manipulando o valor do Euro. Quem controla a moeda comum da União Europeia é o Banco Central Europeu, em Frankfurt.

Nesse caso as alternativas que tem se apresentado aos países em crise como a Grécia, a Irlanda, a Espanha, a Itália e Portugal tem sido:

1 - recorrer à ajuda interna de outros membros do bloco com economias mais sólidas, como a Alemanha, a França e o Reino Unido. Uma situação que cria a desconfortável sensação para alemães franceses e britânico de estarem "sustentando" economias pobres.

2 - Recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que foi criado justamente para oferecer créditos de curto prazo para fins de recuperação econômica.


Fonte: http://migre.me/5pQhH

No entanto, a receita tradicional do FMI baseia-se na aplicação do primeiro grupo de medidas que mencionamos aqui, ou seja, aumentar impostos e cortar gastos. As populações desses países já sabem que vão viver em recessão por muito tempo com efeitos sociais muito fortes. Desemprego, dificuldade de acesso à educação, saúde, moradia estão entre os principais problemas a serem o enfrentados por eles.

Não é em vão que estão nas ruas a protestar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A CRISE ECONÔMICA DOS ESTADOS UNIDOS

A situação econômica dos Estados Unidos inspira muitos cuidados. Como desdobramento da crise financeira que se arrasta desde 2008, quando bancos quebraram, empresas de grande porte faliram ou tiveram sua falência evitada pelo governo, a dívida que o país ostenta atingiu seu limite.

A solução imediata proposta pelo governo de Barack Obama para evitar o default, ou seja, o calote aos seus credores, foi aumentar o teto do endividamento do governo de 14,3 trilhões de dólares para até 16,7 trilhões. Contrair mais empréstimos para pagar no futuro as dívidas que estão vencendo agora.

Pinto&Chinto. La Voz de Galícia. 02/08/2011


Mas a oposição republicana fez desse processo o seu momento político. Impôs a Obama o compromisso de redução dos gastos domésticos em aproximadamente 1 trilhão de dólares e, numa batalha de nervos, fez com que esse aumento do teto da dívida fosse aprovado somente no último dia antes do calote.

Certamente a situação atingiu esse limite pois "o crescimento da dívida ultrapassou a expansão econômica geral e a arrecadação fiscal" do país, como explicou a agência chinesa de avaliação de risco Dagong Global, ao rebaixar a nota dos Estados Unidos de A+ para A.

O ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, ironizou a decisão da agência chinesa e apresentou uma visão diferente daquela da Dagong Global quanto à solidez da economia estadunidense, de acordo com a reportagem no site da Folha de São Paulo:

"Eles deviam tomar cuidado, porque o principal credor dos Estados Unidos é a China e eles estão rebaixando os títulos que eles possuem. Não é o caso de rebaixamento dos Estados Unidos, porque do ponto de vista financeiro, (o país) vai continuar sólido e cumprindo suas obrigações".

Contudo, a questão que deve ser posta para reflexão é: será que tais medidas aprovadas serão eficientes e suficientes para sanar as deficiências da economia americana, incluindo efeitos de longo prazo, ou tornarão o problema do endividamento um desafio ainda maior para as contas do país?

segunda-feira, 2 de março de 2009

CONSENSO DE WASHINGTON: BASES E DESDOBRAMENTOS NO MUNDO SUBDESENVOLVIDO

Em 1990, o Fundo Monetário Internacional (FMI) passou a recomendar oficialmente a adoção de um conjunto formado por dez medidas econômicas voltadas para promover o ajustamento econômico de países subdesenvolvidos que passavam por dificuldades. Esse conjunto de medidas, formulado por economistas de instituições situadas em Washington (EUA) como o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, foi fundamentado em um texto do economista John Williamson, do International Institute for Economy, e por ele denominado de Consenso de Washington.


Segundo o CID-Harvard University, quando cunhou a expressão, Willamson assinalou que o Consenso de Washington deveria representar "o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas que estavam sendo cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989". Ou seja, a "receita" para a retomada do crescimento depois das crises dos anos 1970 e 1980.

As dez recomendações do Consenso de Washington eram as seguintes:

Abertura Comercial - com a redução de tarifas alfandegárias liberalizando o comércio internacional.

Privatização de Estatais - reduzindo o papel dos Estados como empresários nas economias nacionais.

Redução dos Gastos Públicos - que, entre outras possibilidades, viabilizariam maior superávit primário, ou seja, uma maior economia para pagamento de dívidas externas.

Disciplina Fiscal - estabelecendo um rígido controle sobre os gastos públicos para favorecer o controle inflácionário, evitar o aumento do déficit público e, preferencialmente, sustentar uma política fiscal expansionista.

Reforma Tributária - reduzindo e otimizando a cobrança de impostos sobre a produção e a circulação de mercadorias e serviços.

Desregulamentação - baseada no afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas a fim de favorecer a livre iniciativa.

Estímulo aos Investimentos Estrangeiros Diretos - reduzindo ou eliminando restrições para o investimento de capitais na instalação de filiais de determinadas empresas fora de seus países-sede.

Juros de Mercado - permitindo a adaptação às conjunturas momentâneas a partir de taxas flutuantes.

Câmbio de Mercado - viabilizando a realização de ajustes nos balanços de pagamentos e associando seu comportamento às intervenções das autoridades monetárias, ou seja, dos bancos centrais.

Direito à Propriedade Intelectual - protegendo principalmente o que se refere a patentes, marcas, desenho industrial, indicação geográfica e cultivares.

À revelia do próprio Williamson, a expressão Consenso de Washington passou a ser usada para justificar a adoção de políticas neoliberais defendidas principalmente pelos economistas da Escola de Chicago.

A experiência neoliberal surge em 1970, no Chile de Augusto Pinochet, com os Chicago Boys, economistas formados na Universidade de Chicago e influenciados pelas idéias de Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de economia em 1976. Os chilenos anteciparam em quase dez anos a adoção do neoliberalismo por Tatcher - Tatcherismo inglês - e por Reagan - Reaganismo norteamericano.

O Neoliberalismo é uma doutrina econômica que preconiza a restrição à intervenção estatal na economia e o fundamentalismo de livre-mercado que, segundo George Soros, criador dessa expressão, "coloca o capital financeiro ao volante" da economia. Retoma a clássica metáfora liberal de Adam Smith de que a "mão invisível" conduziria o capitalismo ao equilíbrio econômico. Bastaria, para isso, o controle inflacionário e do déficit público, segundo os neoliberais da Escola de Chicago.

Nesse contexto, o Neoliberalismo se opõe diretamente ao Keynesianismo vigente até então, que preconizava a atuação direta do Estado na economia e que essa atuação deveria preocupar-se com a geração do estado de bem-estar social. Ou seja, o Neoliberalismo faz ressurgir a defesa da minarquia - teoria política onde estão entre as funções do Estado apenas a promoção da segurança, da justiça e do poder de polícia, além da criação de legislação necessária para assegurar o cumprimento destas funções. E representa uma retomada do Laissez-faire (do francês, deixai fazer), chavão do liberalismo smithiano defendendo a redução do protecionismo nas trocas internacionais.

O Consenso de Washington acabou por traduzir os preceitos neoliberais num contexto de crise das economias de planejamento central do mundo socialista e da queda do muro de Berlim. A implantação sem questionamentos do receituário "infalível" do FMI para o desenvolvimento econômico do mundo subdesenvolvido trouxe consequências diversas, em muitos casos, bastante negativas, reveladas pela crise asiática de 1997, pela crise da Rússia em 1998 e pela "quebra" da Argentina em 2002.

As crises, com diversas características específicas, possuem pelo menos uma razão em comum: o Consenso de Washington acreditava que a liberalização dos mercados determinaria um fluxo de capital dos países mais ricos para os mais pobres, no entanto foi exatamente o contrário que aconteceu. Em vez de ocorrerem melhorias na distribuição de renda pelo mundo, a situação piorou, de acordo com dados estatísticos da ONU publicados no livro "Flat Wolrd, Big Gaps" (Um mundo plano, grandes disparidades - tradução livre).

Vários princípios do Consenso de Washington, que sustentam a ideologia neoliberal, podem se considerados "globalizantes" por estimularem a integração econômica internacional, principalmente através da abertura de mercados, das privatizações e do estímulo aos investimentos externos diretos. Entende-se, portanto, que o processo recente de globalização da economia mundial, de certa maneira, contribuiu para agravar as desigualdades sociais e econômicas que erguem um fosso entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido.

Nesse contexto, despontaram diversas manifestações antiglobalização em todo o mundo. O grande marco desse movimento foi o encontro de manifestantes em Seattle (EUA), no dia 30 de novembro de 1999, em protesto contra a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) naquela cidade. Ali uniram-se partidários de diversas ideologias: anarquistas, marxistas, ecologistas, católicos progressistas, pacifistas, sindicalistas, antimilitaristas, movimentos camponeses, organizações não-governamentais generalistas e de direitos humanos, entre outros grupos. Todos protestando contra os rumos atuais do processo de globalização. Por essa razão fale-se em "o movimento dos movimentos". Mais tarde surge o termo "Altermundialismo" cunhado por Ignácio Ramonet, editor do jornal francês Le Monde Diplomatique.


Nessa linha de contestação, surgiram no mundo periférico os Fóruns Sociais Mundiais, cujo primeiro aconteceu no Brasil, em Porto Alegre, no ano de 2001. Eles ocorrem nos mesmos dias em que ocorrem em Davos, na Suíça, os Fóruns Econômicos Mundiais, onde predominam as idéias defendidas pelas grandes corporações transnacionais que se beneficiam do processo de globalização e se esforçam pelo seu avanço.

As cartas estão na mesa e descortina-se um mundo de possibilidades para o futuro diante da realidade concreta do aprofundamento das desigualdades entre ricos e pobres. O que parece claro é que o Consenso de Washington não é mais um consenso. Talvez, como na hipótese de Dani Rodrik, professor de política econômica da Universidade de Harvard, o Consenso de Washington tenha tornado-se a Confusão de Washington.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O HORÁRIO DE VERÃO

Polêmico e controverso, o horário de verão tem sido implantado regularmente pelo governo brasileiro nos últimos anos dividindo opiniões na sociedade, pois há aqueles que são favoráveis e aqueles que são contrários à mudança de horário que começa, em geral, no mês de outubro e termina em fevereiro do ano seguinte.

O horário não é implantado em todo o país. Apenas dez estados e o Distrito Federal alteram os ponteiros de seus relógios adiantando-os em uma hora. Os dez estados são: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná (Região Sul); São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo (Região Sudeste) e Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (Região Centro-Oeste).

Os estados das regiões Norte e Nordeste não adotam o horário de verão pois neles não há mudança significativa no tempo de iluminação solar durante os dias dessa estação. Já nos estados mais distantes da linha do equador esse tempo de iluminação varia significativamente, com o Sol nascendo mais cedo e pondo-se mais tarde. Essa diferença no tempo de iluminação é provocada pela inclinação do eixo da terra associada aos movimentos de translação e rotação. Observe o esquema:


Note que em função da inclinação do eixo da terra o hemisfério sul está mais voltado para a direção de origem dos raios solares do que o hemisfério norte. Isso gera um tempo maior de exposição aos raios solares no hemisfério sul fazendo o sol nascer mais cedo e pôr-se mais tarde.

Perceba também que o pólo sul é iluminado quase constantemente e que, portanto, quanto mais distante da linha do equador maior é a diferença no tempo de iluminação. É por isso que os estados brasileiros mais próximos ao paralelo 0º não percebem variações significativas no tempo de iluminação e não adotam o horário de verão.

O Brasil é o único país equatorial que adota o horário de verão. No entanto isso só ocorre em função da grande extensão latitudinal (norte-sul) do país pois nenhum estado muito próximo ou cortado pela linha do equador adota o horário especial. Observe o mapa que mostra os países que adotam, já adotaram ou nunca adotaram o horário de verão.

Como se vê, em quase todo o mundo não-equatorial o horário de verão é ou já foi adotado. Isso ocorre porque ele possibilita uma economia de energia significativa nesse período do ano pois com o adiantamento de uma hora o dia escurece mais tarde retardando o acender das luzes.

Nos últimos anos o Brasil tem economizado de 5% a 6% de energia no período do horário especial. Parece pouco. No entanto trata-se de uma economia que se manifesta nas regiões de maior concentração populacional (Sudeste, Sul e Centro-Oeste) com mais de 120 milhões de habitantes, o que aumenta a importância dessa economia.

Porém, a mudança de horário altera o modo de vida da população que, primeiramente, precisa se adaptar ao novo horário. Uns conseguem uma adaptação mais rápida mas para outros o processo é lento. Há quem saia muito cedo de casa e a escuridão provocada no início do dia incomoda. Mas há quem goste da sensação de chegar em casa com o céu claro ou aproveitar a praia e o pôr do sol até mais tarde. Há várias outras razões para gostar ou não da mudança.

E você, leitor? Gosta ou não do horário de verão?

Abraços!


P.S.: Em 2011, o estado da Bahia também adotou o horário de verão.

domingo, 31 de agosto de 2008

TERCIARIZAÇÃO E INFORMALIDADE

O mundo contemporâneo, inserido num contexto de difusão dos componentes do meio tecnocientífico-informacional, é palco de transformações criadoras de uma relação simbiôntica entre tecnologia, produção e trabalho. A distribuição setorial da população economicamente ativa nos países centrais e semiperiféricos manifesta-se, em meio a outros efeitos, como reflexo dessa simbiose entre os elementos aludidos.

Os incrementos tecnológicos da economia moderna caracterizam novas formas de produção onde se implementam máquinas e robôs no processo produtivo, tanto no setor primário, que cuida da produção de matérias-primas, quanto no setor secundário, que cuida da produção industrial. A mecanização das lavouras e criadouros responde pela liberação de um enorme contingente ocupado no setor primário. Substituída por tratores, máquinas de ordenha entre outros equipamentos, a mão-de-obra perde seus postos de trabalho sendo obrigada a buscar ocupação na indústria ou no setor terciário, que cuida do comércio e dos serviços em geral.

No entanto, o setor secundário também vivencia um processo de liberação de mão-de-obra associado à automação das atividades produtivas, com a introdução de robôs de alta precisão nas linhas de montagem. A indústria, que empregava um grande volume de trabalhadores portadores de baixa qualificação, agora demanda poucos operários e exige maior qualificação para a manipulação dessas máquinas complexas. Aos trabalhadores que perdem seus postos de trabalho, no campo e na indústria, resta o setor terciário como alternativa de sobrevivência. E é nesse contexto que se manifesta o processo de terciarização da economia.

As economias consideradas periféricas não participam ainda desse processo pois a maioria de sua população economicamente ativa (PEA) está ocupada no setor primário. Falo aqui de países como as “Repúblicas das Bananas”, na América Central, e países africanos em geral, exceto a África do Sul. Todavia as economias semiperiféricas e centrais estão totalmente inseridas nesse processo de terciarização, pois já experimentaram ou continuam a experimentar o processo de transferência setorial da PEA.

Estados Unidos, Canadá, Austrália, Grã-Bretanha, França, Bélgica e economias semelhantes formam um conjunto de países centrais onde o setor terciário já emprega mais de 70% da PEA. Alemanha e Japão, que ainda guardam mais empregos na indústria, já possuem mais de 60% da PEA no terciário. Estes espaços configuram “Economias pós-industriais”. E mesmo com essa alta concentração o nível de desemprego não é muito alto, embora haja desempregados, elemento essencial para a sobrevivência do capitalismo.

Isso se justifica pelo fato de a população possuir maior poder aquisitivo, o que alimenta a multiplicação dos serviços nesses países. As bolsas de valores, engenharia genética, laboratórios de pesquisas, empregam muitas pessoas. Serviços extremamente supérfluos geram renda para muita gente. Explico. Uma das novas manias do Central Park, em Nova Iorque, é a prática de Yoga para cães. Alguém ganha dinheiro dando aulas de Yoga para Cães! Investigando o assunto descobri que psicólogos (?) fazem terapia em animais... Esses são serviços que não encontram espaço nos mercados dos países semiperiféricos.

Brasil, Argentina, México, África do Sul e outras economias similares formam um conjunto de países onde mais de 50% da mão-de-obra está ocupada no setor terciário. No entanto, o poder aquisitivo bem mais restrito nesses países, gera uma demanda menor por serviços fazendo com que haja menor oferta de empregos neste setor, que se apresenta, portanto, hipertrofiado. Com o setor terciário formal inchado, resta a opção da informalidade para a produção da subsistência da população.

Em 1979, o geógrafo brasileiro Milton Santos, tido por muitos como “Filósofo da Geografia” pela profundidade das suas idéias, lança o livro “O Espaço Dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos”. Esta obra, rapidamente, se tornou um clássico da geografia mundial. Nela, Milton apresenta uma análise onde a engrenagem da economia urbana dos países subdesenvolvidos caracteriza-se por ser dotada de um circuito superior, de caráter formal, e um circuito inferior, de caráter informal, que reflete esse quadro de hipertrofia do terciário. É notável a expansão do setor terciário informal, esse circuito inferior da economia urbana, nos países semiperiféricos.

O Brasil serve como exemplo clássico desse processo. As grandes metrópoles, superlotadas, concentram um enorme contingente de mão-de-obra disponível e o excesso engrossa as fileiras de ambulantes e biscateiros de todos os tipos. Cada um faz o que sabe ou o que pode fazer. Quem tem conhecimentos de mecânica, conserta carros. Quem tem habilidades com manutenção, trabalha em obras, mexe com hidráulica, eletricidade, gás... Quem não sabe fazer esses serviços, vende o que aparecer pela frente. Água, cerveja, biscoito, pipoca, chocolates, balas. Vi, certa vez, um sujeito vender Novalgina no trem, em meio a dezenas de produtos. Multiplicam-se os camelôs nas ruas e nos meios de transporte. Manifestações artísticas nos sinais, desde os meninos equilibrando limões até os mais elaborados manuseios de malabares em chamas, também entram como modo informal de obtenção de renda.

Minha reflexão final é inspirada em Milton, que em sua obra “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, entre outras abordagens, escancara “o mundo como é: a globalização como perversidade”. “(...) O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos progressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a corrupção. A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização“.

Um abraço solidário!

Referências: Santos, Milton; Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro. Record. 2001.