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quinta-feira, 7 de junho de 2012

SOBRE A XENOFOBIA NOS PAÍSES CENTRAIS

Xenofobia é um termo que se aplica a diversas situações que remetem a uma visão negativa que os nativos de um lugar têm acerca dos estrangeiros que com eles convivem. Pode ser uma doença mental que se manifesta através do medo irracional que o doente sente diante de um estrangeiro ou do desconhecido, que os estrangeiros representam. No entanto, na maioria dos casos o termo se refere a um conjunto de sentimentos contra o estrangeiro tais como antipatia, aversão, ódio e suspeita, quase sempre alimentados por componentes sociais como o racismo e o receio da ocorrência de possíveis mudanças culturais e religiosas no seio de seu povo.

Nos países centrais, a presença estrangeira é um produto evidente de intensos movimentos migratórios ocorridos em momentos diversos, porém intensificados no contexto do pós-guerra. No Japão e especialmente na Europa, os trabalhos de reconstrução somados ao declínio populacional gerado pelas mortes na guerra e pela redução nas taxas de fecundidade formaram um ambiente atrativo. Nos Estados Unidos, o clima positivo foi propagado através do “american way of life”. Na maioria desses casos havia intervenção do Estado nas economias para gerar empregos e renda favorecendo o bem estar social. Era necessário ao capitalismo, num ambiente de guerra fria, provar que era melhor que o socialismo, oferecendo direitos sociais e liberdade individual às pessoas.

Na outra ponta do movimento migratório, diversos fatores de repulsão impulsionaram a saída de africanos, asiáticos e latino-americanos de seus países. Milhares de pessoas fugiram do desemprego; dos reflexos de movimentos violentos de descolonização, marcados pela proliferação de conflitos étnicos na disputa pelo poder; dos vários tipos de regimes autoritários que se espalham por todo o mundo subdesenvolvido; e dos efeitos perversos da urbanização acelerada e da modernização produtiva, de notável caráter conservador e excludente, que marcaram esse momento da história dos países pobres.

O Japão recebeu alguns grupos asiáticos e descendentes de japoneses espalhados pelo mundo, inclusive nipo-brasileiros, migrantes lá conhecidos como “dekasseguis”. A Europa recebeu muitos africanos e asiáticos, com destaque para o fato de que na maioria dos casos as pessoas saíam das colônias (ou ex-colônias) para as respectivas metrópoles. Ou seja, da Índia para a Inglaterra; da Argélia para a França etc. Já os Estados Unidos receberam migrantes de todo o mundo subdesenvolvido, porém com grande destaque para latino-americanos, de diversas origens, especialmente os mexicanos, porém incluindo muitos brasileiros, que formam um grupo importante de estrangeiros naquele país.

No período que se estende do final da segunda guerra mundial até o final dos anos 1970, a presença do imigrante gerava um incômodo menor, ou ao menos um volume bem menos significativo de manifestações xenofóbicas nos países centrais. Muitos desses países tinham situação de pleno emprego e os imigrantes, assim, não eram tão mal vistos. No entanto, no final dos anos 1970, diversos países do mundo desenvolvido promoveram uma redução da intervenção do Estado na economia para fins de proteção social. Trata-se da adoção de práticas neoliberais que permitiram a dinamização do comércio e a modernização da produção porém elevaram o nível de desemprego e de pressão sobre as conquistas sociais das populações.

Nesse contexto, o trabalhador imigrante passou a ser responsabilizado pelo desemprego crescente. Fortaleceram-se a xenofobia e os partidos de extrema direita que condenam a presença dos estrangeiros nos seus países. Movimentos Neo-nazistas pregavam a violência contra imigrantes e responsabilizavam estrangeiros pelo aumento dos níveis de violência. Contudo, o argumento xenófobo é notavelmente falso, pois os imigrantes, em geral, ocupam postos de trabalho de baixo prestígio social, que admitem baixa qualificação e oferecem salários menores. São empregos sistematicamente rejeitados pelos nativos, como os trabalhos de faxineiro, coveiro, operador de caixa, empacotador, entregador, auxiliar de cozinha, agente de segurança, entre outros.


Cartaz do partido suíço SVP (em alemão) e UDC (em francês) sugerindo a expulsão de imigrantes do país "por mais segurança".

Mesmo assim ergueram-se barreiras migratórias, tanto políticas quanto físicas, para controlar esses fluxos migratórios. No campo político, aumentou o nível de exigências para a concessão de vistos de entrada além das exigências para o período de permanência, como a apresentação da passagem de retorno, de quantias em dinheiro para os gastos diários e até dos comprovantes de reservas em hotéis. A construção de muros em fronteiras altamente policiadas, como o de Tijuana, na fronteira dos Estados Unidos com o México, e os de Ceuta e Melilla, enclaves espanhóis no norte da África, simbolizam a imposição de um limite físico ao direito humano de migrar.

A crise financeira que se estende desde 2008 vem criando paradoxos interessantes nas políticas migratórias desses países. Estando eles em crise, os capitais deixados em seus territórios pelos turistas com origem em países com Brasil, Índia, China, África do Sul, México e Argentina, adquirem maior importância. Prova disso está nas mudanças que estão sendo implantadas nos consulados dos Estados Unidos aqui no Brasil com intuito de acelerar o processo de emissão de vistos. Anos atrás, os brasileiros quase “imploravam” pelo direito de gastar suas economias nos parques, lojas e hotéis estadunidenses. Hoje, o clamor parece vir de lá para cá.

Mas essa abertura não se faz sem o receio de que isso estimule as tentativas de migração permanente. Assim, na União Europeia, onde vários países como Grécia, Itália, Irlanda, Portugal e Espanha estão em crise, o rigor com o controle migratório cresce e a comunidade questiona a estrutura dos acordos que criaram o Espaço Schengen de livre-circulação interna, cuja revisão dos termos é proposta por alguns membros do bloco, como a Dinamarca, que anunciou, em maio de 2011, que voltaria a controlar suas fronteiras com a Suécia e a Alemanha. A França, quando ainda sob o controle de Sarkozy, reclamava da concessão de vistos pela Itália aos tunisianos em 2011, povo do país africano que foi o epicentro do movimento conhecido como “Primavera Árabe”, pois eles estariam migrando, via Itália, para a França.

Um vídeo institucional produzido pela União Europeia e que gerou muitos protestos por ter sido interpretado como racista e xenofóbico, tendo sua veiculação proibida é esse que você pode assistir clicando aqui.

No entanto, a despeito do medo, desconfiança, preconceito ou receio de mudanças culturais e religiosas, uma questão que se apresenta e exige resposta é: será que os europeus poderão, diante da evolução do seu perfil demográfico, evitar a chegada e a legalização de trabalhadores imigrantes? Pois o número de idosos cresce enquanto diminui o de jovens. É necessário repor a população economicamente ativa. Campanhas natalistas, se forem atendidas pela população, tendem a minimizar o problema, mas em longo prazo, de 25 a 30 anos. Contudo, o quê fazer para solucionar o problema que se exibe agora? Não se torna indispensável reconhecer a importância dos trabalhadores imigrantes nesse quadro? Sobre isso, as sociedades precisarão refletir e produzir uma resposta, que será dada, fundamentalmente, nas urnas, nas eleições de cada país.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

RECONSTRUÇÃO JAPONESA OU O “MILAGRE JAPONÊS”

O Japão, no auge do seu processo de expansionismo territorial, que começou ainda no final do século XIX, na Era Meiji, envolveu-se na segunda guerra mundial e sofreu uma derrota marcante, que culminou com os ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. O país ficou arrasado.

Era razoável considerar que tamanha destruição condenaria o país ao subdesenvolvimento por muitas décadas. Mas não foi assim que aconteceu. Em menos de 30 anos o país já tinha a segunda maior economia do planeta. Como isso aconteceu? É o que pretendemos explicar aqui.

Bandeira Imperial Japonesa

A reconstrução japonesa, ou o “milagre japonês”, contou com o acerto de políticas públicas, com o empenho e empreendedorismo do setor produtivo e com uma decisiva participação da sociedade. Era preciso organizar as finanças – ganhar mais e gastar menos – organizar a produção no campo, na indústria e no comércio e pensar no futuro.

Muitos fatores contribuíram relevantemente para a reconstrução do país destruído pela guerra. Apresentamos, na sequência, uma lista com os principais fatores, cada um acompanhado de uma breve explicação sobre sua importância para a realização do “milagre japonês”.

Plano Colombo

Criado em 1951 como um grupo de ajuda econômica para o desenvolvimento social dos países do sul e sudeste da Ásia, foi através do Plano Colombo que os japoneses receberam uma grande ajuda financeira dos Estados Unidos, que serviu aos trabalhos de reconstrução como a recuperação da infra-estrutura de energia, de transportes e de comunicações além da própria organização das finanças do Estado no pós-guerra. Os recursos eram menos volumosos que os destinados ao Plano Marshall, para reconstrução da Europa Ocidental, e foram contraídos e utilizados com cautela pois representavam um elevado endividamento para o país.

Reforma agrária

Após a guerra, o Japão ficou sob ocupação militar dos Estados Unidos, comandada pelo General Douglas Mac Arthur. Era necessário organizar e estimular a produção de alimentos além de gerar trabalho e renda para a população que sobreviveu ao conflito. A terra teve a sua propriedade parcelada, seu acesso facilitado, e a política agrícola implantada estimulou a produção, especialmente na porção norte do país, na ilha de Hokkaido, a parte menos urbanizada do Japão. O processo de reforma agrária, ocorrido em 1946, foi conduzido ainda sob o comando do General Douglas Mac Arthur. Todavia, com a modernização das técnicas agrícolas, a população se urbanizava cada vez mais, reduzindo a população economicamente ativa no campo e ampliando sua participação na indústria.

Reforma política democrática e liberalizante

Os americanos pretendiam conduzir uma reforma política que anulasse o expansionismo territorial japonês. Dessa reforma nasceu, em 1947, uma nova constituição que orientava a política nacional para rumos democráticos e liberais. Foi imposto o limite de 1% do PIB para gastos militares. A economia gerada pela redução dos gastos militares foi investida na área industrial.

Medidas protecionistas

Os Zaibatsu, poderosos grupos industriais e financeiros que tinham capitalizado o militarismo expansionista, foram dissolvidos legalmente após a segunda guerra mundial. No entanto, eles ressurgiram com novas personalidades jurídicas e valeram-se da tradicional coesão entre o Estado, as grandes indústrias e os bancos para crescer novamente, cercados de estímulos e proteções do governo, que combatia a concorrência com indústrias estrangeiras na disputa pelo mercado consumidor interno do país.

Sub-valorização cambial do iene

O Estado japonês desvalorizou, artificialmente, a sua moeda. Com essa medida ele tinha por objetivo forçar a obtenção de balanças comerciais favoráveis. Com o iene desvalorizado, os produtos japoneses tornam-se baratos fora do Japão e os produtos importados tornam-se caros dentro do Japão. Assim, o resultado é um alto volume de exportações e um baixo volume de importações, produzindo a balança comercial positiva. Como isso funciona?

Comparemos o iene com o dólar. Se um iene for igual a um dólar, um produto americano de 100 dólares custará, no Japão, 100 ienes. Do mesmo modo, um produto japonês de 100 ienes custará, nos Estados Unidos, 100 dólares. Vamos, agora, desvalorizar o iene. Ele não pode, portanto, continuar valendo um dólar. Tem que valer menos. Vamos supor que um dólar seja igual a dez ienes. Repare que o iene se desvalorizou. Antes, com apenas um iene era possível comprar um dólar. Agora são necessários dez ienes. A moeda se desvalorizou dez vezes.

Sendo assim, retomemos a comparação. Agora, aquele mesmo produto japonês que custava 100 ienes não custará 100 dólares mas apenas dez dólares. Ficou fácil exportar produtos do Japão para o mundo. Por outro lado, aquele mesmo produto que custava 100 dólares não custa mais apenas 100 ienes. Ele passou a custar 1000 ienes. Ficou muito mais caro! Por isso, ficou mais difícil importar produtos americanos no Japão. Exportando mais e importando menos, o Japão atingiu seu objetivo: formar uma balança comercial positiva e, com isso, a economia do país cresceu bastante.

Estímulo à produção em massa

Com condições econômicas capazes de estimular a exportação de forma agressiva, o Japão estimulou a produção em massa a fim de ampliar os mercados alcançados por seus produtos e incrementar os ganhos das atividades de produção para exportação.

Elevada poupança interna

O sistema previdenciário japonês enfrentava sérias dificuldades. Não era possível confiar nele. O acentuado déficit habitacional e a necessidade de economizar para arcar com os custos de moradia completam o quadro que estimulou a compressão do consumo e a elevação da poupança interna. Os investimentos financeiros da população na poupança eram convertidos pelos bancos em capitais para financiamento da inovação industrial nas empresas cujos bancos possuíam participação nas ações, ou seja, em seus ativos financeiros. A poupança do povo financiou a inovação.

Investimentos em educação, ciência e tecnologia

Olhando para o futuro, os japoneses viam que um posicionamento superior na Divisão Internacional do Trabalho (DIT) dependia do grau de ciência e tecnologia aplicado aos seus produtos. Isso porque, na transição da segunda para a terceira revolução industrial, a inovação tecnológica torna-se ainda mais importante para as indústrias na busca competitiva pelos mercados. E para isso era necessário investir em educação para a formação de mão-de-obra qualificada, e em ciência e tecnologia, para estimular a inovação.

Para isso, além do produto da poupança interna, conforme mencionamos acima, o Estado japonês investiu um significativo percentual do PIB do país nesses setores estratégicos. E o patronato japonês soube aproveitar a competência tecnológica de seus empregados. O resultado foi a transição do perfil do parque industrial de baixa tecnologia (têxtil, siderurgia, indústria naval) para um parque industrial de alta tecnologia (eletrônica de consumo, microeletrônica, informática e robótica) além da conquista de um mercado global por suas principais indústrias automobilísticas.

Exploração dos trabalhadores

A sociedade japonesa participou, decisivamente, da reconstrução do país. O alto contingente disponível de mão-de-obra gerou salários baixos. Mas o nacionalismo e a ética confucionista, que no dizer de Rosana Pinheiro-Machado "prima pelo trabalho árduo, poupança e perspicácia, família, harmonia e equilíbrio, frugalidade, autocontrole e a evitação de excessos", e valoriza a disciplina e o respeito à hierarquia, somaram-se ao quadro de exploração do trabalhador. Os operários recebiam pouco, tinham jornadas longas sem descanso, eventualmente não recebiam seus salários ou pelas horas extras trabalhadas e ainda assim eram muito assíduos e produtivos. Não faziam greves, não protestavam. Seus sindicatos eram fracos e sem importância política. Entendiam que esse era um esforço necessário para a reconstrução soberana do país.

Tiveram, durante muito tempo, em contrapartida, a garantia de emprego vitalício aos trabalhadores do sexo masculino até a aposentadoria, aos 55 anos. Esse direito foi instituído entre as duas grandes guerras e permitiu que os empregados não temessem inovar nos processos de trabalho e recebessem investimentos em sua qualificação por parte das empresas.

Mercado interno fortalecido

Com o tempo, esse modelo de exploração se esgotou, na medida em que o país crescia e se fortalecia. O poder aquisitivo cresceu e o povo japonês torna-se voraz consumidor das inovações produzidas no país, estimulando a continuidade do crescimento econômico japonês.

Toyotismo: um novo modelo industrial

É indispensável considerar que foi durante o processo da reconstrução japonesa que nasceu, como fruto da busca pela competitividade da produção industrial no Japão, o modelo toyotista de produção. Ele é marcado pela flexibilidade da produção; pelo rigoroso controle de qualidade sobre os produtos; pela busca da alta performance industrial (zero erro, prazo zero, zero enguiço etc.); pelo uso de trabalhadores qualificados e em menor quantitativo; pelo uso da robótica na produção para a automação de processos; pela produção sob demanda (“just in time”); pela polivalência dos operários com valorização do trabalho coletivo; e pela produção globalizada, ou seja, com etapas dispersas pelo mundo, com cada parte da produção implantada na área onde se encontram as maiores vantagens produtivas a cada etapa.

Por que esse modelo não funciona em qualquer país?

O “milagre japonês” possui características muito próprias. Ele estabeleceu após uma guerra. Os trabalhadores, com garantia de emprego vitalício, se submeteram temporariamente a níveis muito elevados de exploração de forma resignada e disciplinada. Possuíam forte racionalidade e competência tecnológicas. E desenvolveram um novo sistema de produção com elevada capacidade competitiva.

Ou seja, se o milagre é produto dessas e de outras condições que procuramos explicitar aqui, seria necessário aplicar todas essas condições em um outro país para que o “milagre japonês” pudesse ser reproduzido, o que seria praticamente impossível de se realizar.

Esse é o exemplo do Japão: organizar a economia e a produção com alguma ajuda estrangeira; reestruturar a política interna e externa; investir em educação, ciência e tecnologia; criar um novo modelo de produção; tudo isso contando com os valores nacionalistas, a disciplina, o respeito à hierarquia, a qualificação profissional e a competência tecnológica de sua população, foram passos decisivos para a recuperação do país.

Pois foi essencialmente com essas características que o Japão deixou a condição de país arrasado pela guerra e pelos ataques nucleares para se consolidar, em pouquíssimo tempo, como uma das maiores economias do mundo e uma das principais potências tecnológicas do planeta.