domingo, 22 de março de 2026

ORDEM GEOPOLÍTICA MUNDIAL - POTÊNCIAS EMERGENTES

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                    LINK: https://youtu.be/tLVp5uaGhuA 


1. A Nova Ordem Mundial: Da Unipolaridade à Multipolaridade

Com o fim da Guerra Fria, o cenário internacional passou por uma transformação radical. Embora a hegemonia dos Estados Unidos tenha se consolidado nos anos 1990 (unipolaridade), o fortalecimento de novos polos de poder deu origem a uma nova multipolaridade. Nesse contexto, surgem as potências emergentes, tecnicamente definidas como países subdesenvolvidos industrializados.

 Essas nações apresentam um paradoxo fascinante para o estudante de geopolítica: embora tenham alcançado um peso econômico que hoje representa mais de 50% da economia global, ainda enfrentam o desafio de indicadores sociais e de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) significativamente abaixo dos níveis vistos nos países desenvolvidos.

 "So What?" para o aprendiz: O equilíbrio de poder global mudou. O mundo não é mais ditado por um único centro; hoje, diversas nações em desenvolvimento exercem influência direta nos rumos da economia e da política mundial, apesar de suas contradições internas.

 As potências tradicionais e os investidores globais passaram a olhar para esses mercados por três razões estratégicas:

  • Baixo custo de produção: Mão de obra e recursos mais acessíveis, permitindo maior competitividade.
  • Mercado consumidor potencial: Populações vastas com demanda por consumo em rápida expansão.
  • Alto potencial de lucro: Economias com maior margem para crescimento acelerado do que os mercados saturados do G-7.

Essa ascensão econômica impulsionou a necessidade de esses países se organizarem em blocos e fóruns de discussão global, como o G-20.

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2. O Tabuleiro do G-20: Financeiro vs. Comercial

O G-20 é a principal organização que reúne as maiores economias do planeta, representando cerca de 80% do PIB mundial. Contudo, para fins pedagógicos, precisamos diferenciar dois grupos distintos:


Critério

G-20 Financeiro

G-20 Comercial

Origem / Contexto      

Criado em 1999, após crises financeiras em países emergentes.

Criado em 2001, durante negociações da OMC.

Membros Principais    

G-8, União Europeia e os principais emergentes (China, Brasil, Índia, etc.).

Países em desenvolvimento liderados por Brasil e Índia.

Objetivo Central    

Discutir a estabilidade e a arquitetura do sistema financeiro internacional.

Pressionar pelo fim de subsídios agrícolas e pelo fim do protecionismo dos países ricos.

Síntese de Insight: O G-20 Financeiro ganhou relevância máxima após a crise de 2008. Percebeu-se que o antigo G-8 (países ricos) não tinha mais fôlego para resolver crises globais sozinho; era indispensável que os emergentes estivessem à mesa de decisões.

Mas se o G-20 é o fórum de discussão ampliada, o BRICS tornou-se o símbolo da união pragmática desses novos gigantes.

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3. BRICS: O Bloco da Nova Economia

O termo BRIC foi cunhado em 2001 por Jim O’Neill para designar os "tijolos" (bricks) da nova economia global. Originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia e China, o grupo incluiu a África do Sul em 2010. Um detalhe crucial para sua análise é a hegemonia interna: a economia da China, na prática, é maior do que a dos outros quatro países somados, o que gera disparidades no bloco.

O poder do grupo baseia-se em quatro pilares fundamentais:

  1. População: Abriga cerca de 40% da população mundial.
  2. Território: Países de dimensões continentais com enorme controle espacial.
  3. Recursos Naturais: Grandes reservas estratégicas de água, ferro, terras raras e energia.
  4. Poder Nuclear e Militar: China, Rússia e Índia são potências nucleares; China e Rússia ocupam assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU.

O BRICS contesta a ordem estabelecida pelo Ocidente através de quatro frentes:

  • Mídia: Crítica à narrativa ocidental, buscando fontes alternativas de informação.
  • FMI: Criação do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do BRICS) para rivalizar com o sistema de Bretton Woods.
  • Dólar: Projetos de "desdolarização" para reduzir a dependência da moeda americana.
  • Idioma: Contestação da hegemonia do inglês como único idioma global.

Apesar da união econômica, o bloco enfrenta tensões territoriais severas, especialmente envolvendo a Rússia.

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4. O Conflito Rússia e Ucrânia: Raízes e Cicatrizes

A invasão da Ucrânia em 2022 é o ápice de uma disputa que remonta à fragmentação da URSS em 1991, que deu origem a 15 novos Estados com fronteiras nem sempre consensuais.

  • A Questão da OTAN vs. Pacto de Varsóvia: Com o fim do Pacto de Varsóvia, a OTAN expandiu-se para o Leste Europeu (incorporando países como Polônia e os Bálticos). A Rússia vê esse avanço como uma ameaça existencial.
  • A Divisão Interna da Ucrânia: O país é etnicamente dividido. O Oeste (Kiev) busca integração com a Europa. O Leste (Donbass) e a Crimeia possuem maioria russa. O gatilho para a crise recente foi o movimento Euromaidan (2013), que derrubou o presidente pró-Moscou Viktor Yanukovich, levando à anexação da Crimeia pela Rússia em 2014.
  • O Papel Estratégico da Crimeia e Donbass: A Crimeia sedia a base naval de Sebastopol, crucial para o poder naval russo no Mar Negro. Já o Donbass (Donetsk e Luhansk) é o coração industrial onde a Rússia alega proteger populações de origem russa.

Destaque Geoeconômico: A Arma do Gás A Rússia detém 24% de todas as reservas conhecidas de gás natural no mundo. Como maior exportadora global, utiliza seus gasodutos como ferramenta de barganha política, dada a dependência crítica da União Europeia desses recursos.

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5. Índia e a Disputa pela Caxemira

A Índia é uma potência de contrastes: é a maior produtora de softwares do mundo, mas mantém uma agricultura tradicional de exportação de base colonial.

  • Marcos Populacionais: Em 2023, a Índia atingiu o marco histórico de ultrapassar a China, tornando-se o país mais populoso do mundo.
  • O Conflito da Caxemira: Disputada com o Paquistão, a região possui maioria muçulmana (mais de 60%), mas é administrada pela Índia (de maioria hindu).
  • Risco Atômico: O maior perigo reside no fato de ambos os vizinhos possuírem arsenais nucleares.

"So What?" para o aprendiz: A Caxemira não é apenas território; é um ponto de honra nacional e religiosa em uma das áreas mais militarizadas do planeta.

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6. A Hegemonia Chinesa e suas Fronteiras Sensíveis

A China é a "locomotiva" dos emergentes, mas sua expansão gera atritos em duas frentes:

Mar do Sul da China

Pequim constrói ilhas artificiais para consolidar sua hegemonia no Sudeste Asiático.

  • Motivações:
    • Energia: Estimativas de 125 bilhões de barris de petróleo.
    • Recursos: Área riquíssima para a indústria pesqueira.
    • Comércio: Rotas por onde circulam trilhões de dólares anualmente.

Separatismo Interno

  • Tibete: Resistência fragilizada com o Dalai Lama no exílio e forte migração da etnia Han.
  • Xinjiang (Uigures): Região de maioria muçulmana que busca formar o "Turquestão do Leste". Sua importância é estratégica por fazer fronteira com cinco países da Ásia Central: Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão e Paquistão. Perder o controle de Xinjiang seria um golpe geopolítico insustentável para Pequim.

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7. O Futuro dos Emergentes: Além do BRICS

O brilho do BRICS como grupo coeso diminuiu devido à desaceleração chinesa e crises em países como o Brasil. Novas siglas surgiram para mapear as promessas globais: MINTs (México, Indonésia, Nigéria, Turquia), CIVETS (Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Turquia, África do Sul) e o grupo NEXT+11.

Conclusão em “Luz de Insight”: O futuro das potências emergentes está na transição representada pelos “Ticks” (Taiwan, China, Índia e Coreia do Sul). O diferencial desse grupo é o pivô estratégico: eles estão deixando de ser economias dependentes de commodities para se tornarem líderes globais em inovação e alta tecnologia.


EXERCÍCIOS DE VESTIBULAR:

QUESTÃO 01 (IFBA)

Aonde os emergentes querem chegar?

“(...) Dois eventos centrais para os países emergentes serão realizados em Brasília em abril: a Cúpula ÍndiaBrasil-África do Sul (Ibas) e a Cúpula Brasil-Rússia-Índia-China (Bric). (....) Esperamos que estes encontros tenham grande ressonância para o futuro da cooperação Sul-Sul, assim como o novo papel dos países emergentes na política global.” 

ROY, Tathin. Aonde os emergentes querem chegar? Folha de São Paulo. São Paulo, 11 de abril de 2010. Opinião. P. A3.

Este novo papel que os países emergentes citados no texto representam na política global se refere

(A) ao seu extensivo combate à fome, pobreza e exploração do trabalho infantil, através de ações e programas governamentais.

(B) à posição de membros efetivos no Conselho de Segurança da ONU, inclusive liderando missões, como foi o caso do Brasil no Haiti.

(C) à sua recente equiparação em termos bélicos a países como Estados Unidos e Japão, o que os eleva ao patamar de potências militares.

(D) ao aumento da sua influência e poder na governança econômica global, devido aos bons índices de crescimento de suas economias.

(E) ao protagonismo nas questões ambientais e de desenvolvimento sustentável, visto que diminuíram significativamente suas emissões de gases estufa.


QUESTÃO 02 (PUC-SP)

Em agosto de 2003, na V Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio – OMC realizada em Cancun, a diplomacia brasileira liderou a formação de um grupo que ficou conhecido como G-20, e que atualmente é chamado de G-20 comercial. O grupo é atualmente integrado por 21 membros (vide mapa). São países que congregam 60% da população mundial e reúnem 70% da população rural do planeta. 

 A construção desse grupo de interesse internacional tem como principal objetivo discutir

(A) o desenvolvimento industrial dos países do grupo.

(B) a preservação do meio ambiente e o fim da agricultura de alto rendimento.

(C) o perdão da dívida externa dos países membros.

(D) a política de subsídios agrícolas por parte dos países desenvolvidos.

(E) o fim da atuação do G-7 (grupo dos países mais desenvolvidos).

 

QUESTÃO 03 (ENEM)

O G-20 (ou G-20 financeiro) é o grupo que reúne os países do G-7, os mais industrializados do mundo (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá), a União Europeia e os principais emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Coreia do Sul, Indonésia, México e Turquia). Esse grupo de países vem ganhando força nos fóruns internacionais de decisão e consulta.

ALLAN, R. Crise global. Disponível em: (http://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br. Acesso em: 31 jul. 2010).

Entre os países emergentes que formam o G-20, estão os chamados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), termo criado em 2001 para referir-se aos países que

(A) apresentavam características econômicas promissoras para as próximas décadas.

(B) possuem base tecnológica mais elevada.

(C) apresentam índices de igualdade social e econômica mais acentuados.

(D) apresentam diversidade ambiental suficiente para impulsionar a economia global.

(E) possuem similaridades culturais capazes de alavancar a economia mundial.

 

QUESTÃO 04 (ENEM) 

Na imagem, é ressaltado, em tom mais escuro, um grupo de países que na atualidade possuem características político-econômicas comuns, no sentido de:

(A) adotarem o liberalismo político na dinâmica dos seus setores públicos.

(B) constituírem modelos de ações decisórias vinculadas à social-democracia.

(C) instituírem fóruns de discussão sobre intercâmbio multilateral de economias emergentes.

(D) promoverem a integração representativa dos diversos povos integrantes de seus territórios.

(E) apresentarem uma frente de desalinhamento político aos polos dominantes do sistema-mundo.

 

QUESTÃO 05 (UERJ)

Os líderes dos países que integram os Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – encerraram seu terceiro encontro com um comunicado em que pedem conjunta e explicitamente, pela primeira vez, mudanças no conselho de Segurança das Nações Unidas. O texto defende reformas na ONU para aumentar a representatividade na instituição, além de alterações no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial. Para os líderes dos Brics, a reforma da ONU é essencial, pois não é mais possível manter as formas institucionais erguidas logo após a Segunda Guerra Mundial.

(O Globo, 15/04/2011).

Uma das principais mudanças no contexto internacional contemporâneo que se relaciona com as reformas propostas pelos Brics está indicada em:

(A) afirmação da multipolaridade

(B) proliferação de armas atômicas

(C) hegemonia econômica dos E.U.A.

(D) diversificação dos fluxos de capitais

 

QUESTÃO 06 (UNESP)

Os países emergentes tendem a cada vez ter maior participação no PIB mundial. A maioria desses países construiu seu desenvolvimento

(A) baseando-se em políticas protecionistas, entre elas, a substituição das importações.

(B) transformando-se em polos independentes de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento).

(C) integrando-se ao processo de globalização e atraindo investimentos estrangeiros.

(D) intensificando as trocas comerciais e tecnológicas na direção Sul-Sul.

(E) buscando a autossuficiência para depender menos dos mercados globais.

 

QUESTÃO 07 (ESPM)

Em relação à crise político-territorial entre Ucrânia e Rússia, podemos afirmar que

 

(A) A Rússia é contrária a saída da Ucrânia da União Europeia.

(B) A porção ocidental da Ucrânia é majoritariamente russa e desejosa de ingressar na União Europeia.

(C) A Rússia pretende instalar ogivas nucleares na Crimeia e a Ucrânia é contra.

(D) A porção leste da Ucrânia é área de atuação de separatistas russos.

(E) As grandes jazidas de petróleo da parte ocidental da Ucrânia, onde reside a maioria da população russa, é o fator de tensão maior.

 

QUESTÃO 08 (ENEM)

Colegas, na mente e no coração do povo, a Crimeia sempre foi uma porção inseparável da Rússia. Essa firme convicção se baseia na verdade e na justiça e foi passada de geração em geração, ao longo do tempo, sob quaisquer circunstâncias, apesar de todas as drásticas mudanças que nosso país atravessou durante todo o século XX.

Disponível em: http://g1.globo.com. Acesso em: 28 jul. 2014.

Considerando a dinâmica geopolítica subjacente ao texto, a justificativa utilizada por Vladimir Putin, em 2014, para anexação dessa península apela para o argumento de que

(A) as populações com idioma comum devem estar submetidas à mesma autoridade estatal.

(B) o imperialismo soviético havia se acomodado às pretensões das potências vizinhas.

(C) os organismos transnacionais são incapazes de solucionar disputas territoriais.

(D) a integração regional supõe a livre circulação de pessoas e mercadorias.

(E) expulsão das forças navais ocidentais garantiria a soberania nacional.

 

QUESTÃO 09 (UESB)

O conflito da Caxemira completou 75 anos em 2022 e representa um dos conflitos mais importantes de disputa territorial e diferenças étnicas, com um saldo estimado de 45 mil mortes entre os anos 1980 e 2022. Envolvendo Índia, Paquistão e China, esse conflito é relacionado

(A) ao domínio da Rota da Caxemira, maior rota de comércio têxtil do mundo, o que beneficiaria o país que tiver maior domínio do território.

(B) ao fato de a Caxemira ser a única zona navegável no rio Nilo, que banha a região fronteiriça.

(C) às disputas ideológicas e à anexação do Paquistão à China em 1977, com intervenção indiana para que a China concordasse com a independência do Paquistão.

(D) à disputa territorial da zona da Caxemira, localizada ao extremo noroeste do subcontinente indiano, entre a Índia e o Paquistão e entre a Índia e a China, desde que a área foi dividida entre os três países após a Segunda Guerra Mundial.

(E) às disputas religiosas que definem historicamente o território como pertencente ao povo palestino.

 

QUESTÃO 10 (ENEM)

TEXTO I – Com uma população de 25 milhões de habitantes (cerca de 60% de minorias muçulmanas, principalmente da etnia Uigur), Xinjiang é uma região estratégica para a China. Faz fronteira com oito países, é uma artéria crucial do megaprojeto de infraestrutura chinês Cinturão e Rota e tem as maiores reservas nacionais de carvão e gás natural.

(NINIO, M. Disponível em: https: oglobo.globo.com. Acesso em: 5 out. 2021 adaptado)

TEXTO II - Dentre as províncias da Região Oeste, Xinjiang se destaca ao receber mais de 1,7 milhão de migrantes entre 2000 e 2010. O principal motivo desse fluxo migratório é que o governo fornece subsídios à população visando aumentar a proporção de chineses da etnia Han em relação à população local de etnias turca e muçulmana.

ALVES. F.: TOYOSHIMA. S. Disparidade socioeconômica e fluxo migratório chinês: interpretação de eventos contemporâneos segundo os clássicos do desenvolvimento. Revista de Economia Contemporânea. n 1. jan. abr. 2017 (adaptado)

A política demográfica para a província mencionada nos textos é parte da seguinte ação estratégica do governo chinês:

(A) Promover a ocupação rural.

(B) Favorecer a liberdade religiosa.

(C) Descentralizar a gestão pública.

(D) Incentivar a pluralidade cultural.

(E) Assegurar a integridade territorial.


quinta-feira, 19 de março de 2026

GUERRA FRIA - ASPECTOS CENTRAIS

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                    LINK: https://youtu.be/tVhwtFp7rew


1. Introdução: O que foi a Guerra Fria?

A Guerra Fria (1947-1991) foi um conflito de ordem ideológica, política e econômica que dividiu o planeta entre as duas grandes superpotências emergentes do pós-Segunda Guerra: os Estados Unidos (EUA), líderes do bloco capitalista, e a União Soviética (URSS), à frente do bloco socialista. De acordo com o historiador Fred Halliday, este período foi marcado pela "heterogeneidade no sistema internacional". Isso significa que o embate era fundamentalmente "intersistêmico", envolvendo dois modelos de organização interna e prática internacional totalmente incompatíveis.

Nota do Professor: Imagine a "heterogeneidade" de Halliday como um jogo de tabuleiro onde as regras de um jogador anulam as do outro. Não há possibilidade de empate ou coexistência pacífica a longo prazo; o conflito só terminaria quando um sistema prevalecesse totalmente sobre o outro, estabelecendo uma nova homogeneidade global.

2. O Mundo Bipolar: Capitalismo vs. Socialismo
A estrutura geopolítica da época era definida pela bipolaridade, uma divisão rígida de zonas de influência. Para entender as diferenças fundamentais, observe a tabela comparativa abaixo:


Característica

Bloco Ocidental (Lider: EUA)

Bloco Oriental (Lider: URSS)

Ideologia

Capitalismo e Democracia Liberal

Socialismo e Estatismo

Economia

Economia de Mercado

Economia Planificada

Símbolos

"Cortina de Ferro" (divisão ideológica)

Muro de Berlim (divisão física)


O Caso de Cuba e a Subordinação Hegemônica
Dentro de cada bloco, as nações aliadas viviam sob uma lógica de subordinação à potência hegemônica. É fundamental notar que essa "solidariedade" entre países do mesmo bloco não era gratuita.

  • Dependência Econômica: Cuba, após sua revolução, tornou-se o exemplo máximo de dependência soviética para sobreviver à hostilidade dos EUA.
  • O Preço da Solidariedade: Como aponta o autor Leonardo Padura, "o que era oferecido em nome da solidariedade socialista tinha um preço definido". Ao fim do conflito, a dívida cubana com os soviéticos chegava a US$ 32 bilhões, provando que o apoio militar e econômico servia aos interesses estratégicos da superpotência líder.
3. A Corrida Armamentista e o Medo Nuclear
A busca por superioridade militar transformou o mundo em um barril de pólvora. O acúmulo de arsenais atômicos deu origem ao conceito de Destruição Mútua Assegurada (MAD): a certeza de que, se um lado atacasse, o contra-ataque garantiria a aniquilação total de ambos e, possivelmente, da humanidade.

Este temor constante permeou a cultura popular. Vimos essa angústia refletida em personagens como Mafalda, de Quino, cujas tirinhas frequentemente expressavam o pavor da população civil diante da iminência de um apocalipse nuclear provocado pelos gigantes mundiais.

"A possibilidade de um evento nuclear catastrófico era uma sombra constante sobre o cotidiano, alimentada primordialmente pela intensificação desenfreada da corrida armamentista entre as duas superpotências."

4. Corrida Espacial e a "Big Science"
A disputa tecnológica era a vitrine da superioridade de cada sistema. Nesse cenário, consolidou-se a "Big Science" (Grande Ciência). Diferente da ciência isolada de séculos anteriores, a Big Science — cujas raízes remontam à Segunda Guerra Mundial — caracteriza-se por pesquisas de larga escala, com financiamento estatal massivo e foco total na segurança nacional e no prestígio político.
Os marcos fundamentais dessa competição foram:

  1. O lançamento do Sputnik 1: Primeiro satélite artificial da história, colocado em órbita pela URSS.
  1. A Missão Apollo 11: A chegada dos EUA à Lua, um marco de prestígio tecnológico sem precedentes.
  1. Modernização de Sistemas: O desenvolvimento acelerado de tecnologias de informação e comunicação aeroespacial, que hoje são a base da nossa sociedade digital.
5. Conflitos Indiretos e Crises Diplomáticas
Embora os arsenais nucleares tenham impedido um confronto direto ("Paz Impossível, Guerra Improvável"), as superpotências travaram as chamadas Guerras por Procuração (Proxy Wars). Note que a divisão da Alemanha em áreas de influência foi o laboratório geoestratégico central dessa disputa por controle territorial.

Guerra da Coreia e do Vietnã

Vimos a intervenção militar direta ou o financiamento de milícias para conter ou expandir o avanço ideológico no sudeste asiático, resultando em milhões de baixas civis.

A Crise dos Mísseis em Cuba (1962)

Este foi o momento mais tenso de toda a Guerra Fria. A instalação de mísseis soviéticos na ilha de Cuba levou o mundo ao limite absoluto de um confronto nuclear direto entre Kennedy (EUA) e Khrushchev (URSS).

Guerra do Afeganistão
A invasão soviética do território afegão em 1979 tornou-se o "Vietnã da URSS", desgastando os recursos e o prestígio militar de Moscou diante da resistência local apoiada por Washington.

6. Cultura, Espionagem e Resistência
A guerra também era silenciosa e simbólica. A espionagem, liderada pela CIA e pela KGB, buscava segredos tecnológicos e políticos, enquanto a propaganda estatal trabalhava para demonizar o adversário.
Entretanto, a sociedade civil nem sempre aceitou passivamente essa lógica. O Festival de Woodstock (1969) é o exemplo máximo de resistência cultural. Sob o lema "Três dias de paz e música", o evento foi uma plataforma de denúncia contra a intervenção militar no Vietnã, criticando a agressividade da política externa norte-americana e a militarização da vida.

7. Conclusão: O Fim de uma Era
O encerramento da Guerra Fria entre o final da década de 80 e 1991 não ocorreu por um acordo mútuo, mas pela prevalência do sistema capitalista sobre o socialista, que ruiu sob o peso de crises econômicas e demandas por reformas. Isso resultou em uma nova homogeneidade no sistema internacional, moldada pela globalização financeira.
Principais Legados (Takeaways):

  • Inovação sob Pressão: A "Big Science" legou tecnologias como a internet e o GPS, frutos da necessidade de segurança nacional.
  • Geopolítica de Áreas de Influência: A prática de intervir em nações periféricas para garantir controle regional deixou marcas profundas em fronteiras na África, Ásia e América Latina.
  • Consciência Global: O medo nuclear gerou uma sensibilidade global sobre os riscos da destruição em massa, forçando o desenvolvimento de protocolos de diplomacia internacional que utilizamos até hoje.

 

EXERCÍCIOS DE VESTIBULAR:

 

1. (Enem PPL) A Guerra Fria foi, acima de tudo, um produto da heterogeneidade no sistema internacional – para repetir, da heterogeneidade da organização interna e da prática internacional ­– e somente poderia ser encerrada pela obtenção de uma nova homogeneidade. O resultado disto foi que, enquanto os dois sistemas distintos existiram, o conflito da Guerra Fria estava destinado a continuar: a Guerra Fria não poderia terminar com o compromisso ou a convergência, mas somente com a prevalência de um destes sistemas sobre o outro.

HALLIDAY, F. Repensando as relações internacionais. Porto Alegre: EdUFRGS, 1999.

A caracterização da Guerra Fria apresentada pelo texto implica interpretá-la como um(a)

(A) esforço de homogeneização do sistema internacional negociado entre Estados Unidos e União Soviética.   

(B) guerra, visando o estabelecimento de um renovado sistema social, híbrido de socialismo e capitalismo.   

(C) conflito intersistêmico em que países capitalistas e socialistas competiriam até o fim pelo poder de influência em escala mundial.   

(D) compromisso capitalista de transformar as sociedades homogêneas dos países socialistas em democracias liberais.   

(E) enfrentamento bélico entre capitalismo e socialismo pela homogeneização social de suas respectivas áreas de influência política.   

 

2. (Enem PPL) 

 

Nos quadrinhos, faz-se referência a um evento que correspondia a um dos grandes medos da população mundial no período da Guerra Fria. Durante esse período, a possibilidade de ocorrência desse evento era grande em função do(a)

(A) acirramento da rivalidade Norte-Sul.   

(B) intensificação da corrida armamentista.    

(C) ocorrência de crises econômicas globais.   

(D) emergência de novas potências mundiais.   

(E) aprofundamento de desigualdades sociais.   

 

3. (Enem PPL) 

A divisão representada do território alemão refletia um contexto geoestratégico de busca por

(A) espólio de guerra.   

(B) áreas de influência.   

(C) rotas de navegação.   

(D) controle do petróleo.   

(E) monopólio do comércio.   

 

4. (Enem 2ª aplicação) 

A charge faz alusão à intensa rivalidade entre as duas maiores potências do século XX. O momento mais tenso dessa disputa foi provocado pela

(A) ampliação da Guerra do Vietnã.   

(B) construção do muro de Berlim.   

(C) instalação de mísseis em Cuba.    

(D) eclosão da Guerra dos Sete Dias.   

(E) invasão do território do Afeganistão.   

 

5. (UERJ)


Na década de 1960, muitas expressões artísticas representaram uma postura crítica frente a problemas da época, em especial os conflitos da Guerra Fria. Um exemplo é o Festival de Woodstock, ocorrido em 1969 nos E.U.A., em cujo cartaz se lê “Três dias de paz e música”.

 

Nesse contexto da década de 1960, destacava-se a denúncia sobre:

(A) presença soviética na China   

(B) intervenção militar no Vietnã   

(C) dominação europeia na África do Sul   

(D) exploração econômica no Oriente Médio   

 

6. (Enem 2018) Os soviéticos tinham chegado a Cuba muito cedo na década de 1960, esgueirando-se pela fresta aberta pela imediata hostilidade norte-americana em relação ao processo social revolucionário. Durante três décadas os soviéticos mantiveram sua presença em Cuba com bases e ajuda militar, mas, sobretudo, com todo o apoio econômico que, como saberíamos anos mais tarde, mantinha o país à tona, embora nos deixasse em dívida com os irmãos soviéticos – e depois com seus herdeiros russos – por cifras que chegavam a US$ 32 bilhões. Ou seja, o que era oferecido em nome da solidariedade socialista tinha um preço definido.

PADURA, L. Cuba e os russos. Folha de São Paulo, 19 jul 2014 (adaptado).

O texto indica que durante a Guerra Fria as relações internas em um mesmo bloco foram marcadas pelo(a)

(A) busca da neutralidade política.   

(B) estímulo à competição comercial.    

(C) subordinação à potência hegemônica.    

(D) elasticidade das fronteiras geográficas.   

(E) compartilhamento de pesquisas científicas.    

 

7. (UERJ) Big Science (Grande Ciência) é um tipo de pesquisa científica realizado por grupos numerosos de cientistas e técnicos, com instrumentos e insumos em larga escala, financiados por fundos governamentais e por agências internacionais. No momento de seu surgimento, durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos da Guerra Fria, a Big Science integrou esforços econômicos e políticos do governo dos E.U.A. visando à segurança nacional.

Adaptado de global.britannica.com.

O apoio a projetos de Big Science pelo governo dos E.U.A., no contexto da Guerra Fria, esteve diretamente relacionado ao desenvolvimento do seguinte aspecto:

(A) globalização dos mercados financeiros e de trabalho   

(B) cooperação tecnológica entre países periféricos e centrais   

(C) integração entre conhecimentos científicos e mudanças demográficas   

(D) modernização dos sistemas de informação e comunicação aeroespacial

 

GABARITO:

1 C        2 B         3 B         4 C        5 B         6 C        7 D