quarta-feira, 4 de março de 2026

GLOBALIZAÇÃO E DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO

1. Introdução: Além da Simples Troca de Mercadorias

Quando pensamos em globalização, a primeira imagem que nos vem à mente é a de navios carregados de produtos atravessando oceanos. No entanto, a globalização moderna não se trata apenas de onde compramos as coisas, mas de como elas são feitas. Imagine que o mundo inteiro se transformou em uma única e imensa linha de montagem, onde as paredes das fábricas foram derrubadas e espalhadas por todos os continentes.

O historiador Eric Hobsbawm foi certeiro ao explicar que a essência desse fenômeno não está no comércio em si, mas na fragmentação do ato de fabricar. Para ele, vivemos um momento em que a produção deixou de ser local para se tornar uma rede coordenada globalmente. Como o próprio Hobsbawm afirma:

"A globalização depende da eliminação de obstáculos técnicos, não de obstáculos econômicos. Isso tornou possível organizar a produção, e não apenas o comércio, em escala internacional."

2. Os Obstáculos da Produção: Econômicos vs. Técnicos

Para que essa "fábrica global" funcionasse, o mundo precisou derrubar dois tipos de barreiras. Mas cuidado: embora os impostos sejam importantes, eles não foram os grandes protagonistas dessa história.

  • Obstáculos Econômicos: São as tarifas alfandegárias e os impostos cobrados nas fronteiras. Imagine-os como "pedágios" caros. Reduzi-los facilita a venda, mas não garante que você consiga fabricar um motor em um país e encaixá-lo em um chassi em outro com eficiência.
  • Obstáculos Técnicos: Referem-se à infraestrutura física (portos, estradas, navios) e de comunicação (cabos submarinos, satélites). Segundo a fonte, a melhoria nesses sistemas foi o fator crucial para a mudança.


O Verdadeiro Gargalo:
Os obstáculos técnicos são o "gargalo físico" da produção global. Você pode baixar os impostos a zero (obstáculo econômico), mas se o navio levar seis meses para chegar ou se a instrução de montagem não chegar instantaneamente via internet, a produção trava. A superação técnica é o que permitiu que o mundo se tornasse uma linha de montagem síncrona.

3. O Mito do "Produto Nacional": O Caso do Carro Global

Você já sentiu orgulho ao ver um selo de "Produzido no Brasil" ou "Made in USA"? Segundo o economista Robert Reich, esse sentimento é baseado em um mito. O conceito de "produto nacional" tornou-se obsoleto porque os objetos modernos são frutos de uma teia global onde o capital não possui pátria.

Para entender essa fragmentação, veja de onde vem o que compõe um "carro global":

Etapa/Componente

Origem

Financiamento

Japão

Design (Projeto)

Itália

Invenção de Componentes Eletrônicos

Nova Jérsei (EUA)

Fabricação de Componentes Eletrônicos

Coreia

Montagem Final

Indiana (EUA), México e França

Campanha Publicitária

Inglaterra

Filmagens da Propaganda

Canadá

Edição e Cópias do Comercial

Nova Iorque (EUA)

O "Uniforme Nacional": Reich explica que a etiqueta "Made in..." funciona como um "disfarce" ou uma estratégia de marketing e conveniência política. Na prática, o carro é um quebra-cabeça mundial. Essa fachada esconde uma rede transnacional que só se mantém unida porque a informação e as instruções técnicas fluem instantaneamente entre esses pontos.

4. A Lógica da Economia Informacional (O Modelo de Castells)

Se o mundo é uma fábrica espalhada, quem é o "gerente" que mantém tudo funcionando? Segundo Manuel Castells, é a nova lógica informacional, baseada em três pilares:

1. Informacional

A produtividade e a competitividade dependem da capacidade de gerar e processar informação e conhecimento. Então, isso significa que: O maior valor de um produto não está mais no aço ou no plástico (matéria-prima), mas na inteligência e na tecnologia aplicadas para criá-lo.

2. Global

As atividades de produção, consumo e circulação funcionam como uma unidade em tempo real em todo o planeta. Então, isso significa que: O mercado agora é o mundo inteiro. As empresas não olham mais para o mapa buscando países, mas sim buscando os melhores custos em qualquer latitude.

3. Em Rede

A produção é organizada através de uma teia de conexões entre diferentes empresas e unidades. Então, isso significa que: Ninguém faz nada sozinho. A cooperação entre diferentes agentes e empresas é o que garante a sobrevivência e a eficiência hoje.

Essa flexibilidade gera a Desterritorialização da Produção: a fábrica não tem mais "raízes". Ela se move com facilidade para onde houver vantagem econômica, o que pode elevar uma cidade ao topo ou condenar um antigo centro industrial ao esquecimento.

5. De Detroit à Flexibilidade: A Mudança de Modelo

O que acontece quando uma cidade não se adapta a essa rede? O maior exemplo é Detroit, nos EUA. Outrora a "Capital do Automóvel", a cidade faliu em 2013 porque ficou presa ao modelo de produção rígida enquanto o mundo se tornava flexível.

Critério

Produção Rígida (Detroit Clássica)

Produção Flexível / Globalizada

Modelo Produtivo

Fordismo / Taylorismo

Toyotismo / Acumulação Flexível

Estoque

Grandes estoques (Produção em massa)

Estoque mínimo (Just-in-time)

Localização

Concentrada (Tudo em um só lugar)

Descentralizada (Fragmentada no mundo)

Cenário Econômico

Protecionismo e mercados locais

Liberalização e concorrência asiática

Detroit entrou em colapso porque o modelo de fábricas gigantes e fixas não resistiu à concorrência asiática e ao deslocamento das indústrias para países com custos menores. Para sustentar essa movimentação constante de fábricas, o mundo precisou de "músculos" físicos e digitais.

6. Os Motores Físicos e Digitais: Contêineres e TI

A logística global moderna, que sustenta essa "dança" de fábricas, repousa sobre dois pilares:

  • Contêineres e Portos Modernos: A padronização em caixas de metal permitiu que navios e portos carregassem e descarregassem mercadorias com velocidade recorde. Isso barateou o frete a tal ponto que hoje compensa fabricar do outro lado do oceano e transportar, em vez de produzir localmente com custos mais altos.
  • Tecnologia da Informação (TI): Se os contêineres são os músculos, a TI é o sistema nervoso. As redes de telecomunicações permitem o controle remoto de fábricas e fluxos financeiros em tempo real, ditando o ritmo da produção global.

7. A Nova Divisão Internacional do Trabalho (DIT) e o Papel do Estado

Essa nova organização não é equilibrada; ela redefine o poder entre as nações. Um exemplo claro é a relação Brasil-China: o Brasil exporta commodities (soja, minério) de baixo valor agregado e importa tecnologia de alto valor (máquinas, eletrônicos). Essa troca desigual deixa países como o Brasil vulneráveis às variações de preços internacionais.

Nesse cenário Neoliberal, o Estado passa por privatizações e reduz sua intervenção direta, assumindo o papel de "Estado-Empresa". Enquanto o governo foca na gestão, grandes corporações expandem seu poder para as esferas política e cultural, tornando-se os verdadeiros atores do comando global. Para que um país não seja apenas um "fornecedor de matéria-prima", o Estado precisa de um Plano de Ação baseado na ciência:

  1. Fortalecimento da Pesquisa Científica: Gerar conhecimento para que o país deixe de ser dependente de recursos naturais.
  2. Política Industrial para Bens de Alto Valor: Estimular a fabricação interna de produtos complexos.
  3. Inovação Tecnológica na Indústria: Desenvolver máquinas e equipamentos próprios para reduzir a dependência de tecnologia estrangeira.

8. Conclusão: O Que Aprendemos? (The "So What?")

A compreensão desse novo mundo pode ser resumida em três lições vitais que determinam o sucesso ou o fracasso de uma nação:

  1. A primazia da tecnologia: Não adianta ter vontade política se não houver infraestrutura técnica (transportes e TI) de ponta.
  2. O território é fluido: Fábricas e capitais não têm raízes. Eles "voam" para onde a rede informacional aponta o maior lucro.
  3. O conhecimento é o valor supremo: Na Nova DIT, o verdadeiro poder não está nas mãos de quem possui o minério de ferro ou a terra, mas nas mãos de quem domina a ciência e a tecnologia.

O futuro pertence àqueles que entendem que, nesta imensa linha de montagem global, o conhecimento é a ferramenta mais poderosa para garantir a soberania e o desenvolvimento. Dominar a ciência não é mais uma escolha, é uma necessidade de sobrevivência.


EXERCÍCIOS:

1. (ENEM) Um carro esportivo é financiado pelo Japão, projetado na Itália e montado em Indiana, México e França, usando os mais avançados componentes eletrônicos, que foram inventados em Nova Jérsei e fabricados na Coreia. A campanha publicitária é desenvolvida na Inglaterra, filmada no Canadá, a edição e as cópias, feitas em Nova Iorque para serem veiculadas no mundo todo. Teias globais disfarçam-se com o uniforme nacional que lhes for mais conveniente.

REICH, R. O trabalho das nações: preparando-nos para o capitalismo no século XXI. São Paulo: Educador, 1994 (adaptado).

A viabilidade do processo de produção ilustrado pelo texto pressupõe o uso de

(A)   linhas de montagem e formação de estoques.   
(B)   empresas burocráticas e mão de obra barata.   
(C)   controle estatal e infraestrutura consolidada.   
(D)  organização em rede e tecnologia da informação.   
(E)   gestão centralizada e protecionismo econômico.   

2. (UNICAMP) Detroit foi símbolo mundial da indústria automotiva. Chegou a abrigar quase 2 milhões de habitantes entre as décadas de 1960 e 1970. Em 2010, porém, havia perdido mais de um milhão de habitantes. O espaço urbano entrou em colapso, com fábricas em ruínas, casas abandonadas, supressão de serviços públicos essenciais, crescimento da pobreza e do desemprego. Em 2013, foi decretada a falência da cidade.

Essa crise urbana vivida por Detroit resulta dos seguintes processos:

(A) ascensão do taylorismo; protecionismo econômico e concorrência com capitais europeus; deslocamento de indústrias para cidades vizinhas.   
(B) consolidação do regime de acumulação fordista; protecionismo econômico e concorrência com capitais europeus; deslocamento de indústrias para outros países;   
(C) declínio do toyotismo; liberalização econômica e concorrência com capitais asiáticos; deslocamento de indústrias para cidades vizinhas.   
(D) ascensão do regime de acumulação flexível; liberalização econômica e concorrência com capitais asiáticos; deslocamento de indústrias para outros países.   

3. (UERJ)

 
Os contêineres são grandes caixas metálicas utilizadas para o transporte de mercadorias. O fluxo de contêineres dos portos mais movimentados do mundo, observado no mapa, é explicado por uma tendência da economia mundial nas últimas décadas.

Essa tendência está apresentada em:

(A)   ampliação da rede de telecomunicações   
(B)   redução do comércio de matérias-primas   
(C)   concentração do consumo de mercadorias
(D)  terceirização da produção de bens industriais
 
4. (Unesp 2014)  O processo de mundialização do sistema capitalista sempre esteve apoiado na difusão de políticas econômicas e na constituição de determinadas lógicas geopolíticas e geoeconômicas de organização do espaço mundial.

Constituem-se em política econômica e em lógica capitalista de ordenamento do espaço mundial no período atual:

(A) o keynesianismo e o colonialismo.   
(B) o desenvolvimentismo e o neocolonialismo.   
(C) o neoliberalismo e a globalização.   
(D) o mercantilismo e a descolonização.   
(E) o liberalismo e o imperialismo.

5. (Unesp 2020)  O advento de chefes de Estado-empresa marca uma transição sistêmica entre o enfraquecimento do Estado-nação e o fortalecimento da corporação apoiada em sua racionalidade técnico-econômica e gerencial. Essa transferência leva, por um lado, ao esvaziamento do Estado, reduzido à administração e à gestão, e, de outro, à politização da empresa, que expande sua esfera de poder muito além de sua atividade tradicional de produção. A corporação tende a se tornar o novo poder político-cultural. 
(Pierre Musso. “Na era do Estado-empresa”. http://diplomatique.org.br, 30.04.2019. Adaptado.)

Coerentes com o neoliberalismo, as propostas do Estado-empresa convergem para

(A) a apropriação das forças produtivas pelo Estado e a defesa da igualdade social.    
(B) o pluralismo democrático e a redistribuição de renda por programas de assistência social.    
(C) a regulamentação da força de trabalho e a defesa da produção flexível.    
(D) o protecionismo econômico e a implantação de políticas fiscais contra a inflação.    
(E) a adoção de privatizações e a mínima intervenção do Estado na economia.    

6. (ENEM) TEXTO I – Em 2016, foram gerados 44,7 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, um aumento de 8% na comparação com 2014. Especialistas previram um crescimento de mais 17%, para 52,2 milhões de toneladas, até 2021.
Disponível em: https://nacoesunidas.org. Acesso em: 12 out. 2019 (adaptado).

TEXTO II – Há ainda quem exporte deliberadamente lixo eletrônico para o Gana. É mais caro reciclar devidamente os resíduos no mundo industrializado, onde até existem os recursos e a tecnologia. Um negócio muito mais lucrativo é vender o lixo eletrônico a negociantes locais, que o importam alegando tratar-se de material usado. Os negociantes depois vendem o lixo aos jovens no mercado, ou noutro lado, que o desmantelam e extraem os fios de cobre. Estes são derretidos em lareiras ao ar livre, poluindo o ar e, muitas vezes, intoxicando diretamente os próprios jovens.

KALEDZI, I.; SOUZA, G. Disponível em: www.dw.com. Acesso em: 12 out. 2019 (adaptado).

No contexto das discussões ambientais, as práticas descritas nos textos refletem um padrão de relações derivado do(a):

(A) Exercício pleno da cidadania.   
(B) Divisão internacional do trabalho,   
(C) Gestão empresarial do toyotsmo.   
(D) Concepção sustentável da economia.   
(E) Protecionismo alfandegário dos Estados.   
 
7. (ENEM) Na América do Sul, a principal orientação dos investimentos nas últimas décadas foi direcionada para aumentar a oferta de commodities agropecuárias e minerais no mercado mundial. Grande parte dessas commodities está sendo consumida na China e na Índia, que são países que apresentam um rápido crescimento urbano com uma substancial mudança da distribuição territorial de suas numerosas populações. Soja, minério de ferro, alumínio, petróleo e, mais recentemente, biocombustíveis integram a pauta de exportações das nações sul-americanas.

 EGLER, C. G. Crise, mudanças globais e inserção da América do Sul na economia mundial. In: VIDEIRA, S. L.; COSTA, P. A.; FAJARDO, S. (Org.). Geografia econômica: (re)leituras contemporâneas. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2011.

O principal risco econômico para os países da América do Sul dependentes da comercialização dos produtos mencionados no texto é o(a)

(A) surgimento de fontes energéticas renováveis.   
(B) instabilidade do preço dos produtos primários.   
(C) distância dos principais parceiros comerciais.   
(D) concorrência de economias emergentes asiáticas.   
(E) esgotamento das reservas de combustíveis fósseis.   
 
8. (ENEM) Embora inegáveis os benefícios que ambas as economias têm auferido do intercâmbio comercial, o Brasil tem reiterado seu objetivo de desenvolver com a China uma relação comercial menos assimétrica. Os números revelam com clareza a assimetria. As exportações brasileiras de produtos básicos, especialmente soja, minério de ferro e petróleo, compõem, dependendo do ano, algo entre 75% e 80% da pauta, ao passo que as importações brasileiras consistem, aproximadamente, em 95% de produtos industrializados chineses, que vão desde os mais variados bens de consumo até máquinas e equipamentos de alto valor.

LEÃO, V. C. Prefácio. in: CINTRA. M. A. M.; SILVA FILHO, E. B.; PINTO, E. C. (Org). China em transformação: dimensões econômicas e geopolíticas do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Ipea, 2015.

Uma ação estatal de longo prazo capaz de reduzir a assimetria na balança comercial brasileira, conforme exposto no texto, é o (a)

(A) expansão do setor extrativista.   
(B) incremento da atividade agrícola.   
(C) diversificação da matriz energética.   
(D) fortalecimento da pesquisa científica.   
(E) monitoramento do fluxo alfandegário.   

GABARITO:
1 D
2 D
3 D
4 C
5 E
6 B
7 B
8 D

segunda-feira, 2 de março de 2026

DIT, OMC, BLOCOS ECONÔMICOS E CONFLITOS COMERCIAIS

Para ver um vídeo com o resumo desse conteúdo, assista esse vídeo aqui abaixo.



1. O Conceito de Divisão Internacional do Trabalho e a Gênese da Desigualdade

A compreensão da geoeconomia contemporânea exige, antes de tudo, o domínio do conceito de Divisão Internacional do Trabalho (DIT). Sob uma perspectiva pedagógica, podemos sintetizar este fenômeno como a espinha dorsal da globalização produtiva:

Divisão Internacional do Trabalho (DIT): Refere-se à especialização das funções produtivas em escala planetária. Trata-se da distribuição geográfica de etapas da produção, onde cada nação assume um papel específico na cadeia de valor global, orientada pela lógica corporativa de maximização de lucros e compressão de custos operacionais.

O deslocamento de plantas industriais para o "Sul Global" não é um processo aleatório, mas sim uma busca estratégica por vantagens locacionais. Os países emergentes, marcados por uma industrialização tardia e recorrente vulnerabilidade externa, oferecem atrativos decisivos:

  • Abundância de mão de obra de baixo custo: Redução drástica da folha de pagamento e encargos.
  • Isenções fiscais e subsídios estatais: Renúncia de receita pelos governos locais para atrair o capital transnacional.
  • Fragilidade das legislações ambientais e trabalhistas: Menor custo de conformidade para as corporações.

O "So What?": É imperativo compreender que essa especialização não é politicamente neutra. Ela constitui o mecanismo primário de reprodução da assimetria econômica. Ao concentrar as etapas de alto valor agregado (tecnologia e design) no Norte e as etapas de execução e extração no Sul, a DIT aprofunda o abismo entre as nações, perpetuando uma dependência que remonta ao período colonial.

 

2. A Evolução Cronológica: Da DIT Tradicional à Nova DIT

A DIT é um organismo vivo, metamorfoseando-se conforme as revoluções técnico-científicas reconfiguram os fluxos globais. O quadro abaixo sintetiza essa transição histórica:

Tabela Comparativa: Evolução dos Fluxos na DIT

Fase

Perfil dos Países Desenvolvidos / Metrópoles

Perfil dos Países Emergentes / Colônias

Principais Mercadorias / Capitais

DIT Tradicional (Séc. XVI-XVIII)

Metrópoles: Centros de acumulação primitiva e produção manufatureira.

Colônias: Territórios de exploração primária e dependência política total.

Fluxo: Colônias fornecem matérias-primas e metais; Metrópoles exportam manufaturados.

Nova DIT (Pós-II Guerra e Globalização)

Países Desenvolvidos: Detentores de tecnologia de ponta, sedes de transnacionais e centros financeiros.

Países Emergentes: Industrialização tardia, exportadores de commodities e manufaturados de baixa tecnologia.

Fluxo: Desenvolvidos exportam tecnologia e capitais; Emergentes exportam lucros, juros, produtos primários e industrializados simples.

A transição para a Nova DIT trouxe uma complexidade inédita: nações como o Brasil deixaram de ser meros enclaves agrários para exportar aço e tecidos. No entanto, a dependência técnica e o endividamento externo garantem que a essência da desigualdade permaneça inalterada.

 

3. Instituições do Comércio Global: Do GATT à OMC

Para arbitrar as tensões dessa DIT cada vez mais complexa, o sistema multilateral evoluiu do caráter provisório do GATT (1947) para a institucionalização da OMC em 1995. A OMC atua como o fiel da balança, regulamentando acordos sobre propriedade intelectual e resolvendo litígios comerciais.

Um marco fundamental para o Brasil foi o Protocolo de Nairóbi (2015). Este tratado determinou o fim dos subsídios agrícolas praticados por potências como França e Alemanha, que geravam preços artificialmente baixos e sufocavam a competitividade dos produtores brasileiros.

O "So What?": Assistimos hoje a um preocupante "esvaziamento" da OMC. O multilateralismo, que oferece proteção aos países em desenvolvimento através da regra da unanimidade, tem sido preterido pelo bilateralismo agressivo. Ao priorizar acordos diretos, potências como os EUA (estratégia iniciada por Trump e preservada por Biden) neutralizam o poder de barganha coletiva das nações emergentes.

 

4. O Dilema do Estado: Neoliberalismo vs. Protecionismo

Os Estados Nacionais enfrentam uma tensão dialética constante na gestão de suas fronteiras econômicas. O governo deve equilibrar três pressões fundamentais que desafiam a gestão pública:

  • [ ] A Imperativa de Fluxo (Neoliberalismo): Pressão de instituições financeiras e transnacionais para a redução de barreiras alfandegárias e abertura total aos capitais.
  • [ ] A Defesa do Capital Nacional: Exigência de empresários locais por tarifas de importação que protejam a indústria doméstica de uma "desindustrialização" precoce.
  • [ ] A Preservação da Soberania e do Emprego: Pressão social contra a abertura comercial desregrada, que frequentemente resulta na perda de postos de trabalho para mercados de mão de obra ainda mais precarizada.

Nesse cenário, a formação de blocos econômicos surge como uma tentativa de soberania compartilhada, buscando força competitiva regional frente ao rolo compressor global.

 

5. Arquitetura dos Blocos Econômicos: Níveis de Integração

A integração regional não é uniforme; ela obedece a uma hierarquia de complexidade técnica e institucional:

  1. Zona de Livre Comércio: Foco na redução progressiva de tarifas internas. (Ex: USMCA, sucessor do NAFTA).
  2. União Aduaneira: Além do livre comércio, adota uma Tarifa Externa Comum (TEC). O Mercosul, institucionalizado pelo Tratado de Assunção (1991), é o exemplo clássico.
  3. Mercado Comum: Exige a livre circulação de pessoas, serviços e capitais, além da padronização de legislações. A CEE de 1957, sob o Tratado de Roma, estabeleceu as bases deste modelo.
  4. União Monetária: Estágio máximo, com moeda única e Banco Central centralizado. A União Europeia, definida pelo Tratado de Maastricht (1992), permanece como o único exemplo global.

 

6. Panorama Atual e Desafios Regionais (Estudos de Caso)

O mapa do poder global está sendo redesenhado por crises internas e novas coalizões:

  • União Europeia: Enfrenta a instabilidade do Brexit (2020) e as cicatrizes da crise dos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), que expuseram as fragilidades de uma união monetária sem união fiscal plena.
  • Mercosul vs. Aliança do Pacífico: O Mercosul sofre um processo de estagnação e "primarização" de suas pautas exportadoras. Em contraste, a Aliança do Pacífico (Chile, Peru, México e Colômbia) apresenta uma postura mais agressiva e voltada para a integração com as cadeias produtivas asiáticas.
  • A Ascensão Asiática e o Vácuo Americano: A saída dos EUA da Parceria Transpacífica (TPP) — que chegou a representar 40% do PIB mundial — abriu caminho para a hegemonia chinesa.

Destaque Geopolítico: O RCEP (2020) consolidou-se como o maior bloco de livre comércio do planeta, abrangendo 30% do PIB e da população mundial. Liderado pela China e excluindo propositalmente os EUA, o RCEP simboliza o deslocamento definitivo do eixo de gravidade econômico do Atlântico para o Pacífico.

 

7. Conclusão: A Raiz das Desigualdades

A evolução da DIT e a sofisticação dos blocos econômicos demonstram que, embora as formas tenham mudado, o padrão de dependência técnica e financeira permanece. A modernização dos países emergentes é, muitas vezes, uma "modernização conservadora" da dependência.

Insight Final: Na Nova DIT, o fato de um país exportar produtos industrializados não garante sua autonomia. O abismo econômico é perpetuado pela remessa de lucros das transnacionais para suas sedes e pela dependência de tecnologia de ponta (patentes e royalties). Sem soberania tecnológica, os blocos regionais do Sul correm o risco de se tornarem meras plataformas de exportação para as necessidades do eixo sino-americano.

 

EXERCÍCIOS DE VESTIBULAR:

 

1. (ENEM 2015) Até o fim de 2007, quase 2 milhões de pessoas perderam suas casas e outros 4 milhões corriam o risco de ser despejadas. Os valores das casas despencaram em quase todos os EUA e muitas famílias acabaram devendo mais por suas casas do que o próprio valor do imóvel. Isso desencadeou uma espiral de execuções hipotecárias que diminuiu ainda mais os valores das casas. Em Cleveland, foi como se um “Katrina financeiro” atingisse a cidade. Casas abandonadas, com tábuas em janelas e portas, dominaram a paisagem nos bairros pobres, principalmente negros. Na Califórnia, também se enfileiraram casas abandonadas.

HARVEY, D. O enigma do capital. São Paulo: Boitempo, 2011.

Inicialmente restrita, a crise descrita no texto atingiu proporções globais, devido ao(à) 

(A)  superprodução de bens de consumo.   

(B)  colapso industrial de países asiáticos.   

(C)  interdependência do sistema econômico.   

(D) isolamento político dos países desenvolvidos.   

(E)  austeridade fiscal dos países em desenvolvimento.   

 

2. (UERJ)   

Mudança no comercio de bens dos Estados Unidos: Importações por países

* UE15: conjunto das trocas com as 15 maiores economias da Europa Ocidental (pile.com)

O processo de globalização das últimas décadas vem redefinindo os fluxos de bens entre os países. 

A partir do gráfico, a mudança dos locais de origem dos bens pode ser explicada pela seguinte característica do processo de globalização:  

(A)  difusão espacial das fontes de matéria-prima    

(B)  integração nacional dos centros de tecnologia    

(C)  redistribuição territorial das atividades industriais    

(D) concentração regional dos mercados consumidores   

 

3. (UERJ) A estrutura desse sistema internacional de circulação alcançou tal grau de complexidade que ultrapassa a compreensão da maioria das pessoas. As fronteiras entre funções diferentes como as de bancos, corretoras, serviços financeiros, financiamento habitacional, crédito ao consumidor etc. tornaram-se cada vez mais porosas, ao mesmo tempo que novas transações futuras de mercadorias, de ações, de moedas ou de dívidas surgiram em toda parte, introduzindo o tempo futuro no tempo presente de maneiras estarrecedoras.

          DAVID HARVEY. Adaptado de "Condição pós-moderna". São Paulo: Edições Loyola, 1992.

O texto faz referência a características de um dos mais importantes aspectos do atual estágio do capitalismo.

Dois fatores que contribuem para o fenômeno destacado pelo autor do fragmento estão apontados em: 

(A)  aumento da especulação financeira - maior eficiência das redes de transportes

(B)  controle do Banco Mundial sobre o sistema financeiro - formação da União Monetária Mundial   

(C)  desregulamentação dos mercados financeiros - disseminação das tecnologias da informação   

(D) padronização dos horários de funcionamento dos centros financeiros - surgimento dos bancos globais   

 

4. (ENEM) México, Colômbia, Peru e Chile decidiram seguir um caminho mais curto para a integração regional. Os quatro países, em meados de 2012, criaram a Aliança do Pacífico e eliminaram, em 2013, as tarifas aduaneiras de 90% do total de produtos comercializados entre suas fronteiras.

OLIVEIRA, E. Aliança do Pacífico se fortalece e Mercosul fica à sua sombra. O Globo, 24 fev. 2013 (adaptado).

O acordo descrito no texto teve como objetivo econômico para os países-membros 

(A)  promover a livre circulação de trabalhadores.   

(B)  fomentar a competitividade no mercado externo.   

(C)  restringir investimentos de empresas multinacionais.   

(D) adotar medidas cambiais para subsidiar o setor agrícola.   

(E)  reduzir a fiscalização alfandegária para incentivar o consumo.  

 

5. (UERJ) Europa Ocidental: a construção da unidade

A criação da República Federal Alemã (1949) reativou o temor francês do ressurgimento do nacionalismo alemão. Foi nessa atmosfera confusa e carregada que, em maio de 1950, foi apresentado o plano do ministro do exterior, Robert Schuman, de integrar as siderurgias francesa e alemã. O Plano Schuman previa a instituição de uma autoridade comum, supranacional, com poderes para coordenar o reerguimento da produção de carvão e aço nos dois países. Outros países poderiam aderir à iniciativa. O Tratado da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço - CECA foi assinado em 1951.

Adaptado de MAGNOLI, Demétrio. O mundo contemporâneo. São Paulo: Atual, 2004.

A criação da CECA deu origem a um conjunto de iniciativas de integração no continente europeu, dentre elas, as raízes da própria União Europeia.

O conceito fundamental nesse processo de integração entre Estados-Nacionais é: 

(A)  espaço vital

(B)  fronteira flexível

(C)  território multipolar

(D) soberania compartilhada   

 

6. (FUVEST) 

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia está sendo discutido há cerca de 20 anos e prevê, entre outros elementos, a redução progressiva das tarifas de exportação entre os blocos. O Brasil, que é um grande exportador de produtos de origem agrícola para o mercado europeu, teria redução tarifária para a exportação de produtos como carnes, açúcar e etanol, dentre outros.

Para a ratificação do acordo, o parlamento europeu aprovou uma resolução que manifesta a importância do compromisso dos países do Mercosul com a implementação do Acordo de Paris. A relutância em ratificar o acordo entre Mercosul e União Europeia, por parte de alguns países da UE em 2020, deveu-se, entre outros fatores,

Note e adote:

OMC: Organização Mundial do comércio

PRONAF: Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar

SAFs: Sistemas Agroflorestais

UE: união Europeia

 

(A)  à desigual condição climática para produção de vinhos nos dois continentes.   

(B)  às políticas de incentivo à agricultura familiar na América Latina e especialmente ao PRONAF no Brasil.   

(C)  à difusão de SAFs, criados com o propósito de produção para consumo humano no Cone Sul.   

(D) às declarações que cogitaram a retirada do Brasil da OMC meses antes da aprovação da resolução.   

(E)  aos graves problemas ambientais no Brasil, tais como desmatamento e queimadas.

 

7. (ENEM)  

Dentro das atuais redes produtivas, o referido bloco apresenta composição estratégica por se tratar de um conjunto de países com 

(A)  elevado padrão social.   

(B)  sistema monetário integrado.   

(C)  alto desenvolvimento tecnológico.   

(D) identidades culturais semelhantes.    

(E)  vantagens locacionais complementares.   

 

8. (UERJ)

OS ARREPENDIDOS DO BREXIT

O britânico Will Dry, estudante de política e economia, tinha 18 anos quando votou pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) no plebiscito de 2016. Dry faz parte de um grupo de arrependidos, identificados pela hashtag “Bregret” (combinação de “Brexit” e regret, arrependimento). São eleitores que se dizem enganados pelas promessas da campanha em defesa da retirada britânica da UE, principalmente a ideia de que o Reino Unido poderia manter o status de inserção e influência no plano europeu e mundial sem ter de se submeter à burocracia de uma entidade supranacional. 

Adaptado de epoca.globo.com, 02/05/2018.

No âmbito das novas relações com o bloco europeu, parte da população britânica que votou a favor do Brexit não dimensionou adequadamente a seguinte consequência dessa decisão:  

(A)  ameaças à defesa do território    

(B)  restrições à circulação de riqueza    

(C)  limitações à autonomia do governo    

(D) riscos à continuidade da democracia

 

9. (ENEM)

  

Foto em preto e branco de grupo de pessoas lado a lado

Descrição gerada automaticamente

Uma scena franco-brazileira: “franco” – pelo local e os personagens, o local que é Paris e os personagens que são pessoas do povo da grande capital; “brazileira” pelo que ahi se está bebendo: café do Brazil. O Lettreiro diz a verdade apregoando que esse é o melhor de todos os cafés. (Essa página foi desenhada especialmente para A Ilustração Brazileira pelo Sr. Tofani, desenhista do Je Sais Tout.)

A Ilustração Brazileira, n. 2, 15 jun. 1909 (adaptado).

A página do periódico do início do século XX documenta um importante elemento da cultura francesa, que é revelador do papel do Brasil na economia mundial, indicado no seguinte aspecto: 

(A)         Prestador de serviços gerais. 

(B)         Exportador de bens industriais. 

(C)         Importador de padrões estéticos. 

(D)        Fornecedor de produtos agrícolas.

(E)         Formador de padrões de consumo.

 

10. (ENEM) A reestruturação global da indústria, condicionada pelas estratégias de gestão global da cadeia de valor dos grandes grupos transnacionais, promoveu um forte deslocamento do processo produtivo, até mesmo de plantas industriais inteiras, e redirecionou os fluxos de produção e de investimento. Entretanto, o aumento da participação dos países em desenvolvimento no produto global deu-se de forma bastante assimétrica quando se compara o dinamismo dos países do leste asiático com o dos demais países, sobretudo os latino-americanos, no período 1980-2000.

SARTI, F.; HIRATUKA, C. Indústria mundial: mudanças e tendências recentes. Campinas: Unicamp, n. 186, dez. 2010.

A dinâmica de transformação da geografia das indústrias descrita expõe a complementaridade entre dispersão espacial e

(A)  autonomia tecnológica.

(B)  crises de abastecimento.    

(C)  descentralização política.    

(D) concentração econômica.    

(E)  compartilhamento de lucros.    

 

GABARITO:

1 C

2 C

3 C

4 B

5 D

6 E

7 E

8 B

9 D

10 D