quarta-feira, 4 de março de 2026

GLOBALIZAÇÃO E DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO

1. Introdução: Além da Simples Troca de Mercadorias

Quando pensamos em globalização, a primeira imagem que nos vem à mente é a de navios carregados de produtos atravessando oceanos. No entanto, a globalização moderna não se trata apenas de onde compramos as coisas, mas de como elas são feitas. Imagine que o mundo inteiro se transformou em uma única e imensa linha de montagem, onde as paredes das fábricas foram derrubadas e espalhadas por todos os continentes.

O historiador Eric Hobsbawm foi certeiro ao explicar que a essência desse fenômeno não está no comércio em si, mas na fragmentação do ato de fabricar. Para ele, vivemos um momento em que a produção deixou de ser local para se tornar uma rede coordenada globalmente. Como o próprio Hobsbawm afirma:

"A globalização depende da eliminação de obstáculos técnicos, não de obstáculos econômicos. Isso tornou possível organizar a produção, e não apenas o comércio, em escala internacional."

2. Os Obstáculos da Produção: Econômicos vs. Técnicos

Para que essa "fábrica global" funcionasse, o mundo precisou derrubar dois tipos de barreiras. Mas cuidado: embora os impostos sejam importantes, eles não foram os grandes protagonistas dessa história.

  • Obstáculos Econômicos: São as tarifas alfandegárias e os impostos cobrados nas fronteiras. Imagine-os como "pedágios" caros. Reduzi-los facilita a venda, mas não garante que você consiga fabricar um motor em um país e encaixá-lo em um chassi em outro com eficiência.
  • Obstáculos Técnicos: Referem-se à infraestrutura física (portos, estradas, navios) e de comunicação (cabos submarinos, satélites). Segundo a fonte, a melhoria nesses sistemas foi o fator crucial para a mudança.


O Verdadeiro Gargalo:
Os obstáculos técnicos são o "gargalo físico" da produção global. Você pode baixar os impostos a zero (obstáculo econômico), mas se o navio levar seis meses para chegar ou se a instrução de montagem não chegar instantaneamente via internet, a produção trava. A superação técnica é o que permitiu que o mundo se tornasse uma linha de montagem síncrona.

3. O Mito do "Produto Nacional": O Caso do Carro Global

Você já sentiu orgulho ao ver um selo de "Produzido no Brasil" ou "Made in USA"? Segundo o economista Robert Reich, esse sentimento é baseado em um mito. O conceito de "produto nacional" tornou-se obsoleto porque os objetos modernos são frutos de uma teia global onde o capital não possui pátria.

Para entender essa fragmentação, veja de onde vem o que compõe um "carro global":

Etapa/Componente

Origem

Financiamento

Japão

Design (Projeto)

Itália

Invenção de Componentes Eletrônicos

Nova Jérsei (EUA)

Fabricação de Componentes Eletrônicos

Coreia

Montagem Final

Indiana (EUA), México e França

Campanha Publicitária

Inglaterra

Filmagens da Propaganda

Canadá

Edição e Cópias do Comercial

Nova Iorque (EUA)

O "Uniforme Nacional": Reich explica que a etiqueta "Made in..." funciona como um "disfarce" ou uma estratégia de marketing e conveniência política. Na prática, o carro é um quebra-cabeça mundial. Essa fachada esconde uma rede transnacional que só se mantém unida porque a informação e as instruções técnicas fluem instantaneamente entre esses pontos.

4. A Lógica da Economia Informacional (O Modelo de Castells)

Se o mundo é uma fábrica espalhada, quem é o "gerente" que mantém tudo funcionando? Segundo Manuel Castells, é a nova lógica informacional, baseada em três pilares:

1. Informacional

A produtividade e a competitividade dependem da capacidade de gerar e processar informação e conhecimento. Então, isso significa que: O maior valor de um produto não está mais no aço ou no plástico (matéria-prima), mas na inteligência e na tecnologia aplicadas para criá-lo.

2. Global

As atividades de produção, consumo e circulação funcionam como uma unidade em tempo real em todo o planeta. Então, isso significa que: O mercado agora é o mundo inteiro. As empresas não olham mais para o mapa buscando países, mas sim buscando os melhores custos em qualquer latitude.

3. Em Rede

A produção é organizada através de uma teia de conexões entre diferentes empresas e unidades. Então, isso significa que: Ninguém faz nada sozinho. A cooperação entre diferentes agentes e empresas é o que garante a sobrevivência e a eficiência hoje.

Essa flexibilidade gera a Desterritorialização da Produção: a fábrica não tem mais "raízes". Ela se move com facilidade para onde houver vantagem econômica, o que pode elevar uma cidade ao topo ou condenar um antigo centro industrial ao esquecimento.

5. De Detroit à Flexibilidade: A Mudança de Modelo

O que acontece quando uma cidade não se adapta a essa rede? O maior exemplo é Detroit, nos EUA. Outrora a "Capital do Automóvel", a cidade faliu em 2013 porque ficou presa ao modelo de produção rígida enquanto o mundo se tornava flexível.

Critério

Produção Rígida (Detroit Clássica)

Produção Flexível / Globalizada

Modelo Produtivo

Fordismo / Taylorismo

Toyotismo / Acumulação Flexível

Estoque

Grandes estoques (Produção em massa)

Estoque mínimo (Just-in-time)

Localização

Concentrada (Tudo em um só lugar)

Descentralizada (Fragmentada no mundo)

Cenário Econômico

Protecionismo e mercados locais

Liberalização e concorrência asiática

Detroit entrou em colapso porque o modelo de fábricas gigantes e fixas não resistiu à concorrência asiática e ao deslocamento das indústrias para países com custos menores. Para sustentar essa movimentação constante de fábricas, o mundo precisou de "músculos" físicos e digitais.

6. Os Motores Físicos e Digitais: Contêineres e TI

A logística global moderna, que sustenta essa "dança" de fábricas, repousa sobre dois pilares:

  • Contêineres e Portos Modernos: A padronização em caixas de metal permitiu que navios e portos carregassem e descarregassem mercadorias com velocidade recorde. Isso barateou o frete a tal ponto que hoje compensa fabricar do outro lado do oceano e transportar, em vez de produzir localmente com custos mais altos.
  • Tecnologia da Informação (TI): Se os contêineres são os músculos, a TI é o sistema nervoso. As redes de telecomunicações permitem o controle remoto de fábricas e fluxos financeiros em tempo real, ditando o ritmo da produção global.

7. A Nova Divisão Internacional do Trabalho (DIT) e o Papel do Estado

Essa nova organização não é equilibrada; ela redefine o poder entre as nações. Um exemplo claro é a relação Brasil-China: o Brasil exporta commodities (soja, minério) de baixo valor agregado e importa tecnologia de alto valor (máquinas, eletrônicos). Essa troca desigual deixa países como o Brasil vulneráveis às variações de preços internacionais.

Nesse cenário Neoliberal, o Estado passa por privatizações e reduz sua intervenção direta, assumindo o papel de "Estado-Empresa". Enquanto o governo foca na gestão, grandes corporações expandem seu poder para as esferas política e cultural, tornando-se os verdadeiros atores do comando global. Para que um país não seja apenas um "fornecedor de matéria-prima", o Estado precisa de um Plano de Ação baseado na ciência:

  1. Fortalecimento da Pesquisa Científica: Gerar conhecimento para que o país deixe de ser dependente de recursos naturais.
  2. Política Industrial para Bens de Alto Valor: Estimular a fabricação interna de produtos complexos.
  3. Inovação Tecnológica na Indústria: Desenvolver máquinas e equipamentos próprios para reduzir a dependência de tecnologia estrangeira.

8. Conclusão: O Que Aprendemos? (The "So What?")

A compreensão desse novo mundo pode ser resumida em três lições vitais que determinam o sucesso ou o fracasso de uma nação:

  1. A primazia da tecnologia: Não adianta ter vontade política se não houver infraestrutura técnica (transportes e TI) de ponta.
  2. O território é fluido: Fábricas e capitais não têm raízes. Eles "voam" para onde a rede informacional aponta o maior lucro.
  3. O conhecimento é o valor supremo: Na Nova DIT, o verdadeiro poder não está nas mãos de quem possui o minério de ferro ou a terra, mas nas mãos de quem domina a ciência e a tecnologia.

O futuro pertence àqueles que entendem que, nesta imensa linha de montagem global, o conhecimento é a ferramenta mais poderosa para garantir a soberania e o desenvolvimento. Dominar a ciência não é mais uma escolha, é uma necessidade de sobrevivência.


EXERCÍCIOS:

1. (ENEM) Um carro esportivo é financiado pelo Japão, projetado na Itália e montado em Indiana, México e França, usando os mais avançados componentes eletrônicos, que foram inventados em Nova Jérsei e fabricados na Coreia. A campanha publicitária é desenvolvida na Inglaterra, filmada no Canadá, a edição e as cópias, feitas em Nova Iorque para serem veiculadas no mundo todo. Teias globais disfarçam-se com o uniforme nacional que lhes for mais conveniente.

REICH, R. O trabalho das nações: preparando-nos para o capitalismo no século XXI. São Paulo: Educador, 1994 (adaptado).

A viabilidade do processo de produção ilustrado pelo texto pressupõe o uso de

(A)   linhas de montagem e formação de estoques.   
(B)   empresas burocráticas e mão de obra barata.   
(C)   controle estatal e infraestrutura consolidada.   
(D)  organização em rede e tecnologia da informação.   
(E)   gestão centralizada e protecionismo econômico.   

2. (UNICAMP) Detroit foi símbolo mundial da indústria automotiva. Chegou a abrigar quase 2 milhões de habitantes entre as décadas de 1960 e 1970. Em 2010, porém, havia perdido mais de um milhão de habitantes. O espaço urbano entrou em colapso, com fábricas em ruínas, casas abandonadas, supressão de serviços públicos essenciais, crescimento da pobreza e do desemprego. Em 2013, foi decretada a falência da cidade.

Essa crise urbana vivida por Detroit resulta dos seguintes processos:

(A) ascensão do taylorismo; protecionismo econômico e concorrência com capitais europeus; deslocamento de indústrias para cidades vizinhas.   
(B) consolidação do regime de acumulação fordista; protecionismo econômico e concorrência com capitais europeus; deslocamento de indústrias para outros países;   
(C) declínio do toyotismo; liberalização econômica e concorrência com capitais asiáticos; deslocamento de indústrias para cidades vizinhas.   
(D) ascensão do regime de acumulação flexível; liberalização econômica e concorrência com capitais asiáticos; deslocamento de indústrias para outros países.   

3. (UERJ)

 
Os contêineres são grandes caixas metálicas utilizadas para o transporte de mercadorias. O fluxo de contêineres dos portos mais movimentados do mundo, observado no mapa, é explicado por uma tendência da economia mundial nas últimas décadas.

Essa tendência está apresentada em:

(A)   ampliação da rede de telecomunicações   
(B)   redução do comércio de matérias-primas   
(C)   concentração do consumo de mercadorias
(D)  terceirização da produção de bens industriais
 
4. (Unesp 2014)  O processo de mundialização do sistema capitalista sempre esteve apoiado na difusão de políticas econômicas e na constituição de determinadas lógicas geopolíticas e geoeconômicas de organização do espaço mundial.

Constituem-se em política econômica e em lógica capitalista de ordenamento do espaço mundial no período atual:

(A) o keynesianismo e o colonialismo.   
(B) o desenvolvimentismo e o neocolonialismo.   
(C) o neoliberalismo e a globalização.   
(D) o mercantilismo e a descolonização.   
(E) o liberalismo e o imperialismo.

5. (Unesp 2020)  O advento de chefes de Estado-empresa marca uma transição sistêmica entre o enfraquecimento do Estado-nação e o fortalecimento da corporação apoiada em sua racionalidade técnico-econômica e gerencial. Essa transferência leva, por um lado, ao esvaziamento do Estado, reduzido à administração e à gestão, e, de outro, à politização da empresa, que expande sua esfera de poder muito além de sua atividade tradicional de produção. A corporação tende a se tornar o novo poder político-cultural. 
(Pierre Musso. “Na era do Estado-empresa”. http://diplomatique.org.br, 30.04.2019. Adaptado.)

Coerentes com o neoliberalismo, as propostas do Estado-empresa convergem para

(A) a apropriação das forças produtivas pelo Estado e a defesa da igualdade social.    
(B) o pluralismo democrático e a redistribuição de renda por programas de assistência social.    
(C) a regulamentação da força de trabalho e a defesa da produção flexível.    
(D) o protecionismo econômico e a implantação de políticas fiscais contra a inflação.    
(E) a adoção de privatizações e a mínima intervenção do Estado na economia.    

6. (ENEM) TEXTO I – Em 2016, foram gerados 44,7 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, um aumento de 8% na comparação com 2014. Especialistas previram um crescimento de mais 17%, para 52,2 milhões de toneladas, até 2021.
Disponível em: https://nacoesunidas.org. Acesso em: 12 out. 2019 (adaptado).

TEXTO II – Há ainda quem exporte deliberadamente lixo eletrônico para o Gana. É mais caro reciclar devidamente os resíduos no mundo industrializado, onde até existem os recursos e a tecnologia. Um negócio muito mais lucrativo é vender o lixo eletrônico a negociantes locais, que o importam alegando tratar-se de material usado. Os negociantes depois vendem o lixo aos jovens no mercado, ou noutro lado, que o desmantelam e extraem os fios de cobre. Estes são derretidos em lareiras ao ar livre, poluindo o ar e, muitas vezes, intoxicando diretamente os próprios jovens.

KALEDZI, I.; SOUZA, G. Disponível em: www.dw.com. Acesso em: 12 out. 2019 (adaptado).

No contexto das discussões ambientais, as práticas descritas nos textos refletem um padrão de relações derivado do(a):

(A) Exercício pleno da cidadania.   
(B) Divisão internacional do trabalho,   
(C) Gestão empresarial do toyotsmo.   
(D) Concepção sustentável da economia.   
(E) Protecionismo alfandegário dos Estados.   
 
7. (ENEM) Na América do Sul, a principal orientação dos investimentos nas últimas décadas foi direcionada para aumentar a oferta de commodities agropecuárias e minerais no mercado mundial. Grande parte dessas commodities está sendo consumida na China e na Índia, que são países que apresentam um rápido crescimento urbano com uma substancial mudança da distribuição territorial de suas numerosas populações. Soja, minério de ferro, alumínio, petróleo e, mais recentemente, biocombustíveis integram a pauta de exportações das nações sul-americanas.

 EGLER, C. G. Crise, mudanças globais e inserção da América do Sul na economia mundial. In: VIDEIRA, S. L.; COSTA, P. A.; FAJARDO, S. (Org.). Geografia econômica: (re)leituras contemporâneas. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2011.

O principal risco econômico para os países da América do Sul dependentes da comercialização dos produtos mencionados no texto é o(a)

(A) surgimento de fontes energéticas renováveis.   
(B) instabilidade do preço dos produtos primários.   
(C) distância dos principais parceiros comerciais.   
(D) concorrência de economias emergentes asiáticas.   
(E) esgotamento das reservas de combustíveis fósseis.   
 
8. (ENEM) Embora inegáveis os benefícios que ambas as economias têm auferido do intercâmbio comercial, o Brasil tem reiterado seu objetivo de desenvolver com a China uma relação comercial menos assimétrica. Os números revelam com clareza a assimetria. As exportações brasileiras de produtos básicos, especialmente soja, minério de ferro e petróleo, compõem, dependendo do ano, algo entre 75% e 80% da pauta, ao passo que as importações brasileiras consistem, aproximadamente, em 95% de produtos industrializados chineses, que vão desde os mais variados bens de consumo até máquinas e equipamentos de alto valor.

LEÃO, V. C. Prefácio. in: CINTRA. M. A. M.; SILVA FILHO, E. B.; PINTO, E. C. (Org). China em transformação: dimensões econômicas e geopolíticas do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Ipea, 2015.

Uma ação estatal de longo prazo capaz de reduzir a assimetria na balança comercial brasileira, conforme exposto no texto, é o (a)

(A) expansão do setor extrativista.   
(B) incremento da atividade agrícola.   
(C) diversificação da matriz energética.   
(D) fortalecimento da pesquisa científica.   
(E) monitoramento do fluxo alfandegário.   

GABARITO:
1 D
2 D
3 D
4 C
5 E
6 B
7 B
8 D

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS E MODELOS DE PRODUÇÃO

Para ver um vídeo com o resumo desse conteúdo, assista esse vídeo aqui abaixo.

LINK: AULA 02 - REVOLUÇÕES INDUSTRIAIS E MODELOS DE PRODUÇÃO


1. Introdução: O Que Define uma Revolução Industrial?

A Revolução Industrial não deve ser compreendida apenas como um evento econômico, mas como uma transformação profunda na maneira como a humanidade produz riqueza e controla a natureza. Ela representa o momento em que a técnica deixa de ser lenta e rudimentar para se tornar o motor de uma aceleração sem precedentes no processo produtivo.

Do Artesanato à Maquinofatura A revolução é marcada pela transição dos modos de produção artesanal (onde o artesão controla todo o processo) e manufatureiro (trabalho manual com divisão de tarefas) para a grande indústria, também chamada de maquinofatura. Essa mudança multiplicou a capacidade humana de transformar matérias-primas em produtos em larga escala.

Para entender como chegamos à era da automação atual, precisamos revisitar o solo inglês do século XVIII, onde as engrenagens dessa jornada começaram a girar.


2. A Primeira Revolução Industrial (Século XVIII): O Nascimento da Fábrica

Iniciada por volta de 1760, a Primeira Revolução teve a Inglaterra como pioneira absoluta. Mais do que apenas inventividade, o país reuniu quatro condições geográficas e econômicas fundamentais:

  • 💰 Acúmulo de Capital: Recursos financeiros disponíveis para investir em novas tecnologias.
  • 🪨 Reservas de Carvão Mineral: Abundância de fonte de energia em solo inglês para alimentar as caldeiras.
  • 👥 Mão de Obra Excedente: Camponeses expulsos do campo pelos "cercamentos" que formaram o proletariado urbano.
  • 🧶 Matéria-Prima Acessível: Lã produzida localmente e algodão importado para sustentar a Indústria Têxtil.

A tecnologia símbolo foi a máquina a vapor aplicada aos teares mecânicos. Entretanto, esse avanço técnico gerou um impacto social severo: jornadas exaustivas de mais de 14 horas, uso intensivo de trabalho infantil e feminino com salários degradantes, além de altos índices de poluição pela queima de carvão.

O sucesso econômico da maquinofatura inglesa gerou uma onda de concorrência global, forçando a indústria a buscar novas fontes de energia e escalas ainda maiores de produção.


3. A Segunda Revolução Industrial (Século XIX): A Era do Aço e da Eletricidade

Entre 1830 e 1870, a indústria deixou a simplicidade inicial para entrar na era da Indústria Pesada. Surgiram novos polos de poder além da Inglaterra, como EUA, Alemanha e Japão, formando a chamada "tríade do capitalismo".

A energia do vapor foi substituída pelo binômio petróleo e eletricidade, permitindo a criação do que chamamos de "monstros de metal": grandes navios, aviões e tanques de guerra. As indústrias símbolo deste período foram a siderurgia (produção de aço) e a automobilística.

Essa inovação permitiu um ritmo de produção e deslocamento assustador, acelerando a busca por mercados consumidores e matérias-primas, o que fundamentou o período do Imperialismo.

A complexidade desses novos produtos e a escala massiva de fabricação exigiram, pela primeira vez, uma organização lógica e rígida da fábrica: o modelo Fordista.


4. A Terceira Revolução Industrial (Pós-Guerra): A Era da Informação

A partir de 1970, o mundo passou por uma transformação que o geógrafo Milton Santos definiu como o surgimento do Meio Técnico-Científico-Informacional. Trata-se de uma nova realidade espacial, onde o conhecimento passou a ser um ativo mais valioso do que a própria energia bruta ou a matéria-prima.

Nesta fase, a inovação não é apenas mecânica, mas intelectual, focando em:

  1. Informática e Robótica: Automação flexível dos processos fabris.
  2. Biotecnologia: Manipulação da ciência para o desenvolvimento de novos produtos.
  3. Tecnopolos: Centros espaciais que unem universidades e empresas para fomentar Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

A revolução nos transportes e nas comunicações permitiu que as empresas se tornassem transnacionais, fragmentando sua produção pelo mundo enquanto mantêm o comando tecnológico nos países desenvolvidos.


5. A Quarta Revolução Industrial (Indústria 4.0): Fábricas Inteligentes

O projeto "Indústria 4.0" surgiu na Alemanha em 2010, impulsionado por desafios geográficos e demográficos específicos: o encarecimento da mão de obra europeia e a redução da população jovem. Atualmente, a disputa por essa liderança envolve também China e EUA.

O pilar central desta fase são os Sistemas Cyberfísicos, que permitem a integração total entre a rede digital e o mundo físico através de máquinas que tomam decisões sem intervenção humana.

  • Internet das Coisas (IoT): Conexão de objetos e máquinas à rede, permitindo troca de dados em tempo real.
  • Inteligência Artificial (IA): Programas que simulam o raciocínio para tomar decisões autônomas e otimizar a produção.

Principais Impactos:

  • 🤖 Substituição de Mão de Obra: Robôs assumindo tarefas humanas, gerando debates sobre o futuro do emprego.
  • 📉 Fuga de Cérebros: Disputa global por profissionais altamente qualificados para operar novas tecnologias.
  • 🖨️ Manufatura Aditiva: Uso de impressoras 3D para criar peças complexas de forma personalizada.


6. Síntese Comparativa: As Quatro Revoluções

Fase

Período

Tecnologia Símbolo

Fonte de Energia Principal

1ª Revolução

Séc. XVIII

Máquina a Vapor / Tear

Carvão Mineral

2ª Revolução

Séc. XIX

Motor a Combustão / Aço

Petróleo e Eletricidade

3ª Revolução

Pós-Guerra

Informática / Robótica

Informação e Conhecimento

4ª Revolução

Séc. XXI

IA / Sistemas Cyberfísicos

Novas Energias e Redes Inteligentes


7. Modelos de Produção: Fordismo vs. Toyotismo

A forma como organizamos as fábricas reflete a lógica econômica de cada época. Abaixo, comparamos a rigidez do século XX com a flexibilidade do século XXI.

Característica

Fordismo (Rigidez)

Toyotismo (Flexibilidade)

Lógica

Produção em massa (Larga escala)

Produção sob demanda (Puxada)

Estoque

Grandes estoques (lotados)

Just-in-Time (Estoque mínimo)

Trabalhador

Especializado e Alienado¹

Multifuncional e qualificado

Produto

Padronizado (Ex: Ford T preto)

Diversificado e customizado

Estratégia

Unidades fabris concentradas

Desconcentração industrial

O Fator Geográfico do Toyotismo: Diferente do Fordismo americano, que contava com vastos espaços, o Toyotismo nasceu no Japão, uma formação de arco de ilhas vulcânicas. Por ser um território pequeno e com relevo acidentado, o Japão era o local menos propício para grandes fábricas e estoques imensos. Isso forçou a criação de um modelo modular e flexível, capaz de se adaptar rapidamente às crises.

¹Nota: O trabalhador fordista é chamado de alienado pois conhece apenas uma etapa isolada da linha de montagem, desconhecendo o processo total de criação do produto.


8. Conclusão e Insights para o Estudante

A evolução industrial é um processo de aceleração contínua que molda o nosso espaço geográfico. Para o estudante, três pontos de reflexão são vitais:

  • 🚀 Aceleração do Tempo: As transformações técnicas que levavam séculos agora ocorrem em poucos anos, exigindo adaptação rápida.
  • 🌿 Impacto Ambiental: A maior velocidade de produção gera um aumento direto no consumo de recursos naturais, tornando a sustentabilidade o grande desafio do século.
  • 🎓 Qualificação Constante: O mercado de trabalho atual não busca mais apenas força bruta, mas inteligência aplicada. O domínio de novas tecnologias é a chave para a inclusão na nova economia global.

 

EXERCÍCIOS DE VESTIBULAR:

1. (ENEM 2010) A evolução do processo de transformação de matérias-primas em produtos acabados ocorreu em três estágios: artesanato, manufatura e maquinofatura. Um desses estágios foi o artesanato, em que se 

(A)    trabalhava conforme o ritmo das máquinas e de maneira padronizada.

(B)    trabalhava geralmente sem o uso de máquinas e de modo diferente do modelo de produção em série.

(C)    empregavam fontes de energia abundantes para o funcionamento das máquinas.

(D)    realizava parte da produção por cada operário, com uso de máquinas e trabalho assalariado.

(E)     faziam interferências do processo produtivo por técnicos e gerentes com vistas a determinar o ritmo de produção.   


2. (ENEM 2009) Até o século XVII, as paisagens rurais eram marcadas por atividades rudimentares e de baixa produtividade. A partir da Revolução Industrial, porém, sobretudo com o advento da revolução tecnológica, houve um desenvolvimento contínuo do setor agropecuário.

São, portanto, observadas consequências econômicas, sociais e ambientais inter-relacionadas no período posterior à Revolução Industrial, as quais incluem

(A)    a erradicação da fome no mundo.

(B)    o aumento das áreas rurais e a diminuição das áreas urbanas.

(C)    a maior demanda por recursos naturais, entre os quais os recursos energéticos

(D)    a menor necessidade de utilização de adubos e corretivos na agricultura.

(E)     o contínuo aumento da oferta de emprego no setor primário da economia, em face da mecanização.


3. (ENEM 2016) Quanto mais complicada se tornou a produção industrial, mais numerosos passaram a ser os elementos da indústria que exigiam garantia de fornecimento. Três deles eram de importância fundamental: o trabalho, a terra e o dinheiro. Numa sociedade comercial, esse fornecimento só poderia ser organizado de uma forma: tornando-os disponíveis a compra. Agora eles tinham que ser organizados para a venda no mercado. Isso estava de acordo com a exigência de um sistema de mercado. Sabemos que em um sistema como esse, os lucros só podem ser assegurados se se garante a autorregulação por meio de mercados competitivos interdependentes.

POLANYI, K. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000 (adaptado).

A consequência do processo de transformação socioeconômica abordado no texto é a 

(A)    expansão das terras comunais.

(B)    limitação do mercado como meio de especulação.

(C)    consolidação da força de trabalho como mercadoria.

(D)    diminuição do comércio como efeito da industrialização.

(E)     adequação do dinheiro como elemento padrão das transações.  


4. (ENEM 2019) No sistema capitalista, as muitas manifestações de crise criam condições que forçam a algum tipo de racionalização. Em geral, essas crises periódicas têm o efeito de expandir a capacidade produtiva e de renovar as condições de acumulação. Podemos conceber cada crise como uma mudança do processo de acumulação para um nível novo e superior.

HARVEY, D. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005 (adaptado).

A condição para a inclusão dos trabalhadores no novo processo produtivo descrito no texto é a 

(A)    associação sindical.

(B)    participação eleitoral.    

(C)    migração internacional.    

(D)    qualificação profissional.    

(E)     regulamentação funcional.    

 

5. (ENEM 2ª APLICAÇÃO 2016)  

A forma de organização interna da indústria citada gera a seguinte consequência para a mão de obra nela inserida: 

(A)    Ampliação da jornada diária.   

(B)    Melhoria da qualidade do trabalho.   

(C)    Instabilidade nos cargos ocupados.   

(D)    Eficiência na prevenção de acidentes.   

(E)     Desconhecimento das etapas produtivas.  


6. (ENEM 2017) A diversidade de atividades relacionadas ao setor terciário reforça a tendência mais geral de desindustrialização de muitos dos países desenvolvidos sem que estes, contudo, percam o comando da economia. Essa mudança implica nova divisão internacional do trabalho, que não é mais apoiada na clara segmentação setorial das atividades econômicas.

RIO, G. A. P. A espacialidade da economia. In: CASTRO, I. E.: GOMES. P. C. C.; CORRÊA, R. L. (Org. ). Olhares geográficos: modos de ver e viver o espaço. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012 (adaptado).

Nesse contexto, o fenômeno descrito tem como um de seus resultados a 

(A)    saturação do setor secundário.   

(B)    ampliação dos direitos laborais.   

(C)    bipolarização do poder geopolítico.   

(D)    consolidação do domínio tecnológico.   

(E)     primarização das exportações globais.

 

7. (UERJ) 

Image

Na década de 1970, o modelo produtivo predominante no capitalismo brasileiro era o fordista. Contudo, na publicidade veiculada em 1977, é possível identificar a transição para o modelo produtivo subsequente. 

A partir do anúncio publicitário, esse novo modelo é caracterizado pela introdução de: 

(A)    consumo de massa 

(B)    linha de montagem

(C)    fabricação por demanda

(D)    produção com flexibilidade


8.  (UERJ)

 

 

Os contêineres são grandes caixas metálicas utilizadas para o transporte de mercadorias. O fluxo de contêineres dos portos mais movimentados do mundo, observado no mapa, é explicado por uma tendência da economia mundial nas últimas décadas.

Essa tendência está apresentada em: 

(A)    ampliação da rede de telecomunicações   

(B)    redução do comércio de matérias-primas   

(C)    concentração do consumo de mercadorias   

(D)    terceirização da produção de bens industriais  


9. (UERJ 2013)  

3ª do plural (Engenheiros do Hawaii)

Corrida pra vender cigarro

Cigarro pra vender remédio

Remédio pra curar a tosse

Tossir, cuspir, jogar pra fora

Corrida pra vender os carros

Pneu, cerveja e gasolina

Cabeça pra usar boné

E professar a fé de quem patrocina

Querem te matar a sede, eles querem te sedar

Eles querem te vender, eles querem te comprar

(...)

Corrida contra o relógio

Silicone contra a gravidade

Dedo no gatilho, velocidade

Quem mente antes diz a verdade

Satisfação garantida

Obsolescência programada

Eles ganham a corrida antes mesmo da largada

(...)

letras.terra.com.br

Os diferentes modelos produtivos de cada momento do sistema capitalista sempre foram o resultado da busca por caminhos para manter o crescimento da produção e do consumo. A crítica ao sistema econômico presente na letra da canção está relacionada à seguinte estratégia própria do atual modelo produtivo toyotista: 

(A)    aceleração do ciclo de renovação dos produtos   

(B)    imposição do tempo de realização das tarefas fabris   

(C)    restrição do crédito rápido para o consumo de mercadorias   

(D)    padronização da produção dos bens industriais de alta tecnologia  


10. (FATEC 2019) Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial (FEM), escreveu, em artigo publicado na “Foreign Affairs”, que:

A 1a revolução industrial usou água e vapor para mecanizar a produção entre o meio do século XVIII e o meio do século XIX.

A 2a revolução industrial usou a eletricidade para criar produção em massa a partir do meio do século XIX.

A 3a revolução industrial usou os eletrônicos e a tecnologia da informação para automatizar a produção na segunda metade do século XX.

Agora, no século XXI, a 4a revolução industrial é caracterizada pela fusão de tecnologias entre as esferas física, digital e biológica.

Disponível em: https://tinyurl.com/y72sm8v5> Acesso em: 17.09.2018. Adaptado.

De acordo com a tendência expressa no texto, a última revolução industrial citada pelo autor caracteriza-se por

(A)    redes aéreas de comunicação e pela intensificação do uso do fordismo.

(B)    viagens interespaciais e pelo grande emprego de carvão mineral.

(C)    cabeamento telegráfico submarino e pela adoção do taylorismo.

(D)    computadores a válvula e pela utilização de linhas de produção.

(E)     internet móvel e pela inteligência artificial.

 

GABARITO

1 B

2  C     

3 C      

4  D     

5 E      

6  D     

7  D     

8 D      

9 A      

10 E