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quinta-feira, 7 de junho de 2012

SOBRE A XENOFOBIA NOS PAÍSES CENTRAIS

Xenofobia é um termo que se aplica a diversas situações que remetem a uma visão negativa que os nativos de um lugar têm acerca dos estrangeiros que com eles convivem. Pode ser uma doença mental que se manifesta através do medo irracional que o doente sente diante de um estrangeiro ou do desconhecido, que os estrangeiros representam. No entanto, na maioria dos casos o termo se refere a um conjunto de sentimentos contra o estrangeiro tais como antipatia, aversão, ódio e suspeita, quase sempre alimentados por componentes sociais como o racismo e o receio da ocorrência de possíveis mudanças culturais e religiosas no seio de seu povo.

Nos países centrais, a presença estrangeira é um produto evidente de intensos movimentos migratórios ocorridos em momentos diversos, porém intensificados no contexto do pós-guerra. No Japão e especialmente na Europa, os trabalhos de reconstrução somados ao declínio populacional gerado pelas mortes na guerra e pela redução nas taxas de fecundidade formaram um ambiente atrativo. Nos Estados Unidos, o clima positivo foi propagado através do “american way of life”. Na maioria desses casos havia intervenção do Estado nas economias para gerar empregos e renda favorecendo o bem estar social. Era necessário ao capitalismo, num ambiente de guerra fria, provar que era melhor que o socialismo, oferecendo direitos sociais e liberdade individual às pessoas.

Na outra ponta do movimento migratório, diversos fatores de repulsão impulsionaram a saída de africanos, asiáticos e latino-americanos de seus países. Milhares de pessoas fugiram do desemprego; dos reflexos de movimentos violentos de descolonização, marcados pela proliferação de conflitos étnicos na disputa pelo poder; dos vários tipos de regimes autoritários que se espalham por todo o mundo subdesenvolvido; e dos efeitos perversos da urbanização acelerada e da modernização produtiva, de notável caráter conservador e excludente, que marcaram esse momento da história dos países pobres.

O Japão recebeu alguns grupos asiáticos e descendentes de japoneses espalhados pelo mundo, inclusive nipo-brasileiros, migrantes lá conhecidos como “dekasseguis”. A Europa recebeu muitos africanos e asiáticos, com destaque para o fato de que na maioria dos casos as pessoas saíam das colônias (ou ex-colônias) para as respectivas metrópoles. Ou seja, da Índia para a Inglaterra; da Argélia para a França etc. Já os Estados Unidos receberam migrantes de todo o mundo subdesenvolvido, porém com grande destaque para latino-americanos, de diversas origens, especialmente os mexicanos, porém incluindo muitos brasileiros, que formam um grupo importante de estrangeiros naquele país.

No período que se estende do final da segunda guerra mundial até o final dos anos 1970, a presença do imigrante gerava um incômodo menor, ou ao menos um volume bem menos significativo de manifestações xenofóbicas nos países centrais. Muitos desses países tinham situação de pleno emprego e os imigrantes, assim, não eram tão mal vistos. No entanto, no final dos anos 1970, diversos países do mundo desenvolvido promoveram uma redução da intervenção do Estado na economia para fins de proteção social. Trata-se da adoção de práticas neoliberais que permitiram a dinamização do comércio e a modernização da produção porém elevaram o nível de desemprego e de pressão sobre as conquistas sociais das populações.

Nesse contexto, o trabalhador imigrante passou a ser responsabilizado pelo desemprego crescente. Fortaleceram-se a xenofobia e os partidos de extrema direita que condenam a presença dos estrangeiros nos seus países. Movimentos Neo-nazistas pregavam a violência contra imigrantes e responsabilizavam estrangeiros pelo aumento dos níveis de violência. Contudo, o argumento xenófobo é notavelmente falso, pois os imigrantes, em geral, ocupam postos de trabalho de baixo prestígio social, que admitem baixa qualificação e oferecem salários menores. São empregos sistematicamente rejeitados pelos nativos, como os trabalhos de faxineiro, coveiro, operador de caixa, empacotador, entregador, auxiliar de cozinha, agente de segurança, entre outros.


Cartaz do partido suíço SVP (em alemão) e UDC (em francês) sugerindo a expulsão de imigrantes do país "por mais segurança".

Mesmo assim ergueram-se barreiras migratórias, tanto políticas quanto físicas, para controlar esses fluxos migratórios. No campo político, aumentou o nível de exigências para a concessão de vistos de entrada além das exigências para o período de permanência, como a apresentação da passagem de retorno, de quantias em dinheiro para os gastos diários e até dos comprovantes de reservas em hotéis. A construção de muros em fronteiras altamente policiadas, como o de Tijuana, na fronteira dos Estados Unidos com o México, e os de Ceuta e Melilla, enclaves espanhóis no norte da África, simbolizam a imposição de um limite físico ao direito humano de migrar.

A crise financeira que se estende desde 2008 vem criando paradoxos interessantes nas políticas migratórias desses países. Estando eles em crise, os capitais deixados em seus territórios pelos turistas com origem em países com Brasil, Índia, China, África do Sul, México e Argentina, adquirem maior importância. Prova disso está nas mudanças que estão sendo implantadas nos consulados dos Estados Unidos aqui no Brasil com intuito de acelerar o processo de emissão de vistos. Anos atrás, os brasileiros quase “imploravam” pelo direito de gastar suas economias nos parques, lojas e hotéis estadunidenses. Hoje, o clamor parece vir de lá para cá.

Mas essa abertura não se faz sem o receio de que isso estimule as tentativas de migração permanente. Assim, na União Europeia, onde vários países como Grécia, Itália, Irlanda, Portugal e Espanha estão em crise, o rigor com o controle migratório cresce e a comunidade questiona a estrutura dos acordos que criaram o Espaço Schengen de livre-circulação interna, cuja revisão dos termos é proposta por alguns membros do bloco, como a Dinamarca, que anunciou, em maio de 2011, que voltaria a controlar suas fronteiras com a Suécia e a Alemanha. A França, quando ainda sob o controle de Sarkozy, reclamava da concessão de vistos pela Itália aos tunisianos em 2011, povo do país africano que foi o epicentro do movimento conhecido como “Primavera Árabe”, pois eles estariam migrando, via Itália, para a França.

Um vídeo institucional produzido pela União Europeia e que gerou muitos protestos por ter sido interpretado como racista e xenofóbico, tendo sua veiculação proibida é esse que você pode assistir clicando aqui.

No entanto, a despeito do medo, desconfiança, preconceito ou receio de mudanças culturais e religiosas, uma questão que se apresenta e exige resposta é: será que os europeus poderão, diante da evolução do seu perfil demográfico, evitar a chegada e a legalização de trabalhadores imigrantes? Pois o número de idosos cresce enquanto diminui o de jovens. É necessário repor a população economicamente ativa. Campanhas natalistas, se forem atendidas pela população, tendem a minimizar o problema, mas em longo prazo, de 25 a 30 anos. Contudo, o quê fazer para solucionar o problema que se exibe agora? Não se torna indispensável reconhecer a importância dos trabalhadores imigrantes nesse quadro? Sobre isso, as sociedades precisarão refletir e produzir uma resposta, que será dada, fundamentalmente, nas urnas, nas eleições de cada país.

domingo, 31 de julho de 2011

A REVOLUÇÃO DOS COCOS

A Geopolítica do espaço da Oceania, das terras do Pacífico, é muito pouco abordada nos ensinos fundamental e médio.

O filme que trago hoje é um excelente exemplo das relações imperialistas de dominação política, econômica e cultural de territórios na Oceania. Trata-se de "Revolução dos Cocos", do diretor Dom Rotheroe, que exibe a situação da ilha de Bougainville, na Papua Nova Guiné.

A obra mostra como o imperialismo - de forma bastante semelhante ao que fez na África - subjugou um povo, implantou o cristianismo e estruturou empreendimentos mineradores que exploraram de forma insustentável o território e seu ambiente.

Revela também os meandros da luta dos Bougainvilleanos pela independência e contra os agentes dessa dominação e as formas de sobrevivência e produção desenvolvidas em função do bloqueio territorial a que foram submetidos.

É nesse contexto que o fruto do coqueiro surge como produto essencial à sobrevivencia desse povo confinado, tanto como alimento quanto como medicamento, matéria-prima para artesanato e em muitas outras formas de uso, inclusive energéticas.

Vale muito cada minuto de sua duração. Aproveite!



quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A POPULAÇÃO CHINESA

A questão demográfica na China é complexa por fatores que vão muito além de tratar-se do país com a maior população do planeta. Distribuição desigual, políticas de controle da natalidade, mosaico étnico, nacionalismos separatistas e a questão do gênero feminino são outros condimentos que temperam a complexidade do país que realiza o maior censo demográfico da história em 2010, com a participação de seis milhões de agentes recenseadores.

A população chinesa é distribuída de forma bastante desigual pelo território e tal distribuição é profundamente influenciada pela geografia física do país. As regiões autônomas do Tibete, de Xinjiang e da Mongólia Interior apresentam baixas densidades demográficas.

No caso tibetano, por tratar-se de uma grande área cujas altitudes raramente são menores do que 4 mil metros, pelo clima frio e pelos solos rasos e pedregosos, há grande dificuldade para a fixação humana.


Xinjiang e Mongólia Interior apresentam desertos em suas paisagens. O de Taklamakan e o de Gobi, respectivamente. Ambos são marcados por forte continentalidade, ou seja, grande distanciamento em relação ao oceano.

Já as regiões da China Meridional das Colinas e a Manchúria apresentam densidades demográficas muito elevadas por possuirem litoral, por serem marcadas por regimes de chuva favoráveis à implantação tradicional da agricultura, e, por fim, por abarcarem a imensa maioria das Zonas Econômicas Especiais (ZEE’s) criadas no processo de modernização e abertura do país ao capitalismo.

Sobre a China Meridional das Colinas é importante frisar que a região concentra a maior parcela da população chinesa, especialmente nos vales e planícies aluvionais ao longo dos rios Yang-Tsé e Hoang-Ho, ou seja, as principais zonas rurais do país, marcadas pela grande produção de arroz feita através do milenar sistema de jardinagem, intensivo no uso de mão-de-obra.

A população chinesa é a maior do planeta, com mais de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, acompanhada de perto apenas pela da Índia, com pouco mais de 1 bilhão de pessoas. O governo de Mao Tsé-tung estimulava a natalidade como forma de aumentar a população do país e seu percentual em relação à humanidade. Mas com uma população assim, tão grande, dificuldades evidentes se apresentaram ao país como o desemprego e a fome.

Desde 1979, vigora a política do filho único na China, cujo objetivo é reduzir o ritmo de crescimento acelerado da imensa população do país, para minimizar tais problemas. Atualmente as taxas de crescimento vegetativo do país estão abaixo de 0,7% ao ano. Um percentual que aplicado a 1,3 bilhão de pessoas representa um crescimento numérico de aproximadamente 9 milhões de pessoas por ano.

No entanto, por conta de uma característica tradicional da sociedade, o cuidado dos idosos é responsabilidade dos homens e suas respectivas esposas. As mulheres casadas cuidam dos sogros e, via de regra, não têm permissão para cuidar dos próprios pais. Os casais desejam, portanto, ter filhos homens em detrimento das mulheres.

Cresce, assim, o número de abortos quando se descobre que o bebê esperado é do sexo feminino, atingindo aproximadamente meio milhão de interrupções de gestações anualmente. Por isso, atualmente a China proíbe a identificação do sexo dos bebês nos exames de ultra-sonografia.

Também ocorre o abandono de meninas ao relento para a morte. Como conseqüência, atualmente existem 117 homens para cada 100 mulheres. A média mundial é de 106 ou 107 homens para cada 100 mulheres.

Além da preocupação com a velhice, os chineses preferem filhos homens pois eles garantem a perpetuação do sobrenome da família. Tal fato é influenciado pela religiosidade da maioria dos chineses, que é ligada ao culto dos antepassados. Manter o sobrenome vivo é uma forma de garantir que será lembrado pelos seus descendentes no futuro.


Na China, 92% da população pertencem à etnia Han. Esses são os chamados “chineses étnicos”. Os demais 8% dividem-se em mais de 56 etnias minoritárias reconhecidas pelo governo e que formam um grande mosaico populacional. Os tibetanos e os Uigur são duas dessas etnias minoritárias, habitantes das regiões autônomas do Tibete e de XinJiang, respectivamente.

E são nacionalistas. Cada grupo defende a separação de sua porção do restante da China. Os tibetanos tiveram sua soberania reconhecida pelos ingleses em 1904, porém tiveram sua capital ocupada pelos revolucionários chineses em 1950. Organizaram um levante contra tal ocupação em 1959, o que levou ao exílio do Dalai Lama, líder político e espiritual dos tibetanos, que passou a viver na Índia.

Os Uigur formam um povo com quase 9 milhões de pessoas na China. Têm origem turcomena e são muçulmanos. Possuem vínculos culturais e religiosos muito mais intensos com os povos da Ásia Central do que com os Chineses. Por isso costumam realizar protestos com a intenção de transformar a Região Autônoma de Xinjiang num país independente para o seu povo.



É por essas razões que, a fim de dissolver a concentração majoritária dessas etnias em suas regiões, a China impõe migrações de chineses da etnia Han para essas regiões. O que acentua ainda mais as contradições criadas no país a partir do momento da abertura econômica, como as múltiplas oposições entre o campo arcaico e as cidades modernas.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

UM POUCO SOBRE O TRATADO DE NÃO-PROLIFERAÇÃO NUCLEAR

Disponibilizo a aula que gravei para o site do G1/vestibular. Você pode saber um pouco mais sobre o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP-1968). Veja aqui.



Até!

segunda-feira, 2 de março de 2009

CONSENSO DE WASHINGTON: BASES E DESDOBRAMENTOS NO MUNDO SUBDESENVOLVIDO

Em 1990, o Fundo Monetário Internacional (FMI) passou a recomendar oficialmente a adoção de um conjunto formado por dez medidas econômicas voltadas para promover o ajustamento econômico de países subdesenvolvidos que passavam por dificuldades. Esse conjunto de medidas, formulado por economistas de instituições situadas em Washington (EUA) como o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, foi fundamentado em um texto do economista John Williamson, do International Institute for Economy, e por ele denominado de Consenso de Washington.


Segundo o CID-Harvard University, quando cunhou a expressão, Willamson assinalou que o Consenso de Washington deveria representar "o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas que estavam sendo cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989". Ou seja, a "receita" para a retomada do crescimento depois das crises dos anos 1970 e 1980.

As dez recomendações do Consenso de Washington eram as seguintes:

Abertura Comercial - com a redução de tarifas alfandegárias liberalizando o comércio internacional.

Privatização de Estatais - reduzindo o papel dos Estados como empresários nas economias nacionais.

Redução dos Gastos Públicos - que, entre outras possibilidades, viabilizariam maior superávit primário, ou seja, uma maior economia para pagamento de dívidas externas.

Disciplina Fiscal - estabelecendo um rígido controle sobre os gastos públicos para favorecer o controle inflácionário, evitar o aumento do déficit público e, preferencialmente, sustentar uma política fiscal expansionista.

Reforma Tributária - reduzindo e otimizando a cobrança de impostos sobre a produção e a circulação de mercadorias e serviços.

Desregulamentação - baseada no afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas a fim de favorecer a livre iniciativa.

Estímulo aos Investimentos Estrangeiros Diretos - reduzindo ou eliminando restrições para o investimento de capitais na instalação de filiais de determinadas empresas fora de seus países-sede.

Juros de Mercado - permitindo a adaptação às conjunturas momentâneas a partir de taxas flutuantes.

Câmbio de Mercado - viabilizando a realização de ajustes nos balanços de pagamentos e associando seu comportamento às intervenções das autoridades monetárias, ou seja, dos bancos centrais.

Direito à Propriedade Intelectual - protegendo principalmente o que se refere a patentes, marcas, desenho industrial, indicação geográfica e cultivares.

À revelia do próprio Williamson, a expressão Consenso de Washington passou a ser usada para justificar a adoção de políticas neoliberais defendidas principalmente pelos economistas da Escola de Chicago.

A experiência neoliberal surge em 1970, no Chile de Augusto Pinochet, com os Chicago Boys, economistas formados na Universidade de Chicago e influenciados pelas idéias de Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de economia em 1976. Os chilenos anteciparam em quase dez anos a adoção do neoliberalismo por Tatcher - Tatcherismo inglês - e por Reagan - Reaganismo norteamericano.

O Neoliberalismo é uma doutrina econômica que preconiza a restrição à intervenção estatal na economia e o fundamentalismo de livre-mercado que, segundo George Soros, criador dessa expressão, "coloca o capital financeiro ao volante" da economia. Retoma a clássica metáfora liberal de Adam Smith de que a "mão invisível" conduziria o capitalismo ao equilíbrio econômico. Bastaria, para isso, o controle inflacionário e do déficit público, segundo os neoliberais da Escola de Chicago.

Nesse contexto, o Neoliberalismo se opõe diretamente ao Keynesianismo vigente até então, que preconizava a atuação direta do Estado na economia e que essa atuação deveria preocupar-se com a geração do estado de bem-estar social. Ou seja, o Neoliberalismo faz ressurgir a defesa da minarquia - teoria política onde estão entre as funções do Estado apenas a promoção da segurança, da justiça e do poder de polícia, além da criação de legislação necessária para assegurar o cumprimento destas funções. E representa uma retomada do Laissez-faire (do francês, deixai fazer), chavão do liberalismo smithiano defendendo a redução do protecionismo nas trocas internacionais.

O Consenso de Washington acabou por traduzir os preceitos neoliberais num contexto de crise das economias de planejamento central do mundo socialista e da queda do muro de Berlim. A implantação sem questionamentos do receituário "infalível" do FMI para o desenvolvimento econômico do mundo subdesenvolvido trouxe consequências diversas, em muitos casos, bastante negativas, reveladas pela crise asiática de 1997, pela crise da Rússia em 1998 e pela "quebra" da Argentina em 2002.

As crises, com diversas características específicas, possuem pelo menos uma razão em comum: o Consenso de Washington acreditava que a liberalização dos mercados determinaria um fluxo de capital dos países mais ricos para os mais pobres, no entanto foi exatamente o contrário que aconteceu. Em vez de ocorrerem melhorias na distribuição de renda pelo mundo, a situação piorou, de acordo com dados estatísticos da ONU publicados no livro "Flat Wolrd, Big Gaps" (Um mundo plano, grandes disparidades - tradução livre).

Vários princípios do Consenso de Washington, que sustentam a ideologia neoliberal, podem se considerados "globalizantes" por estimularem a integração econômica internacional, principalmente através da abertura de mercados, das privatizações e do estímulo aos investimentos externos diretos. Entende-se, portanto, que o processo recente de globalização da economia mundial, de certa maneira, contribuiu para agravar as desigualdades sociais e econômicas que erguem um fosso entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido.

Nesse contexto, despontaram diversas manifestações antiglobalização em todo o mundo. O grande marco desse movimento foi o encontro de manifestantes em Seattle (EUA), no dia 30 de novembro de 1999, em protesto contra a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) naquela cidade. Ali uniram-se partidários de diversas ideologias: anarquistas, marxistas, ecologistas, católicos progressistas, pacifistas, sindicalistas, antimilitaristas, movimentos camponeses, organizações não-governamentais generalistas e de direitos humanos, entre outros grupos. Todos protestando contra os rumos atuais do processo de globalização. Por essa razão fale-se em "o movimento dos movimentos". Mais tarde surge o termo "Altermundialismo" cunhado por Ignácio Ramonet, editor do jornal francês Le Monde Diplomatique.


Nessa linha de contestação, surgiram no mundo periférico os Fóruns Sociais Mundiais, cujo primeiro aconteceu no Brasil, em Porto Alegre, no ano de 2001. Eles ocorrem nos mesmos dias em que ocorrem em Davos, na Suíça, os Fóruns Econômicos Mundiais, onde predominam as idéias defendidas pelas grandes corporações transnacionais que se beneficiam do processo de globalização e se esforçam pelo seu avanço.

As cartas estão na mesa e descortina-se um mundo de possibilidades para o futuro diante da realidade concreta do aprofundamento das desigualdades entre ricos e pobres. O que parece claro é que o Consenso de Washington não é mais um consenso. Talvez, como na hipótese de Dani Rodrik, professor de política econômica da Universidade de Harvard, o Consenso de Washington tenha tornado-se a Confusão de Washington.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

FORMAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO DA IUGOSLÁVIA

Em 1918, no final da primeira guerra mundial, a dissolução da monarquia dual austro-húngara deu origem a diversos estados nacionais, dentre eles o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos. Os tratados de Neuilly-sur-Seine, Saint Germaine-em-Laye, Trianon e Rapallo fixaram as fronteiras do país que seria transformado em Reino da Iugoslávia em 1929, com um sistema político autoritário comandado por Alexandre I.

Invadido e dominado em 1941 pela Alemanha, com o auxílio dos Ustaše (organização nacionalista croata de extrema direita), o reino virou palco de diversos conflitos internos que, segundo estimativas, mataram mais de um milhão de pessoas.

Os Ustaše eram favoráveis à invasão alemã pois tinham em sua base ideológica o objetivo de formar uma croácia etnicamente pura e foram postos no comando do Estado Independente da Croácia forjado pelos países do eixo após eles dominarem o Reino da Iugoslávia. O Conselho Antifascista de Libertação Nacional, grupo de orientação comunista, liderado por Josip Broz Tito, expulsou os alemães em 1944 e liquidou o Estado croata comandado pelos Ustaše.

Tito ainda enfrentou outra forte oposição durante a luta contra os alemães. A dos Chetniks, nacionalistas sérvios liderados por Draza Mihailovic, que apoiavam a monarquia. No entanto o grupo de Tito saiu vitorioso e formou-se, inicialmente, a Iugoslávia Democrática Federal. Seu nome foi alterado em 1946 para República Federativa Popular da Iugoslávia e em 1963 para República Socialista Federativa da Iugoslávia.

Tito lutou na primeira guerra pela infantaria do império austro-húngaro e foi feito prisioneiro na Rússia, onde entrou em contato com idéias comunistas. Fugiu da prisão, lutou pela revolução russa e retounou ao Reino da Iugoslávia, onde envolveu-se com o partido comunista e ficou preso por seis anos.

Em novembro de 1945, Tito assumiu o cargo de primeiro-ministro da Iugoslávia ocupando-o até janeiro de 1953 quando tornou-se presidente do país. Organizada sob a forma de uma federação, a Iugoslávia era formada por seis repúblicas e duas províncias autônomas pertencentes à república da Sérvia. Veja o mapa e a legenda:
1. Repúlica Socialista da Bósnia e Herzegovina
2. República Socialista da Croácia
3. República Socialista da Macedônia
4. República Socialista da Montenegro
5. República Socialista de Sérvia
5a. Província Socialista Autônoma do Kosovo
5b. Província Socialista Autônoma da Voivodina
6. República Socialista da Eslovênia

Trata-se de um barril de pólvora. De forma brilhante, o jornalista Norman Stone, da revista Newsweek, resumiu a situação da Iugoslávia de Tito na seguinte frase:

"A Iugoslávia tinha seis repúblicas, cinco povos, quatro linguas, três religiões, dois alfabetos e um partido - comunista."

As seis repúblicas correspondem às expostas no mapa acima. Os cinco povos correspondem aos sérvios, montenegrinos, croatas, eslovenos e macedônios. Não há um povo bósnio em termos de origem étnica. A república da Bósnia era habitada por sérvios, croatas e muçulmanos. As quatro línguas da Iugoslávia eram o servo-croata, o esloveno, o macedônio e o albanês (falado no Kosovo). As três religiões correspondem ao catolicismo romano, o catolicismo ortodoxo e o islamismo. O sérvios escrevem o servo-croata com o alfabeto cirílico enquanto os croatas usam os carcteres latinos.

Para sustentar a unidade nesse barril de pólvora, repleto de nacionalismos, Tito usou forte repressão policial contra os movimentos de contestação, e de um sistema político de autogestão que conferia grandes liberdades de decisão sobre as formas de produção aos trabalhadores. Uma inspiração anárquica que afastou o país de influências diretas da União Soviética.

Aliás, Tito, juntamente com Nasser (Egito) e Nehru (Índia), foi um dos maiores líderes e o primeiro secretário geral de um grupo de países que ficou conhecido como movimento dos não-alinhados, tendo organizado em Belgrado a primeira reunião de cúpula, em 1961. Buscava-se reduzir a vulnerabilidade em relação às superpotências da guerra fria. Existente até hoje, o grupo já foi comandado por diversos chefes de Estado como Nasser, Castro, Mandela, Mugabe e, atualmente, é comandado por Raul Castro. O último encontro de cúpula ocorreu em 2006, em Cuba.

Com carisma, habilidade política e repressão, Tito conseguiu conter os ímpetos nacionalistas durante o seu governo. Após sua morte, em 4 de maio de 1980, a presidência do país passou a ser colegiada, com rodízio na ocupação do cargo. No entanto, iniciou-se o complexo processo de desmembramento das repúblicas que compunham a Iugoslávia em função das tensões crescentes dentro do território.

Em 1991, Croácia, Eslovênia e Macedônia declaram independência. Sérvia e Montenegro uniram-se para formar uma nova Iugoslávia com o nome oficial de República Federal da Iugoslávia. Em 1992 seria a vez da Bósnia declarar sua independência. Então iniciam-se os conflitos armados.

Os sérvios presentes na Croácia e na Bósnia reivindicaram a incorporação do território por eles ocupado à nova Iugoslávia. Na Croácia, chegaram a fundar a República Sérvia da Krajina, que desapareceu em 1995. Na Bósnia, os sérvios opuseram-se aos croatas e muçulmanos em uma guerra civil sangrenta marcada pela prática de limpeza étinica dos dois lados. Os sérvios (católicos) matavam muçulmanos na Bósnia enquanto os croatas matavam minorias sérvias na Croácia.

Eslovênia e Macedônia, com pequenas minorias sérvias, não vivenciaram conflitos importantes no processo de separação. A situação da Bósnia foi resolvida com o Acordo de Dayton (1995) que transformou o país em uma confederação formada por uma república muçulmano-croata e uma república sérvia, separando territorialmente esses grupos.

Em maio 2006, os montenegrinos foram às urnas e 55,5% deles optaram, em um plebiscito, pela separação em relação à Sérvia. Com essa separação ficou concluído o processo de fragmentação das seis repúblicas que formaram a antiga Iugoslávia. No entanto ainda não está concluída a separação das províncias autônomas da Sérvia.

Na Vojvodina, a minoria de origem húngara exerce pressões contra o governo da Sérvia pela independência, no entanto a escala dessa reivindicação nacionalista pouco se aproxima da situação que se desenrolou no Kosovo.

Sendo a maioria da população do Kosovo de origem albanesa, a formação de uma Grande Albânia inspirou o movimento separatista na região. Em 1989, quando os kosovares celebravam os 600 anos da batalha do Kosovo, o então presidente da Iugoslávia, Slobodan Milošević, retirou a autonomia política da província, proibindo o ensino do albanês nas escolas, entre outras limitações.

Em 1991, os kosovares declaram uma independência que não foi reconhecida nem pelas Nações Unidas, portanto a Sérvia manteve suas tropas na região. Em 1996, o Exército de Libertação do Kosovo iniciou uma luta armada em oposição ao poder de Milošević e a Sérvia respondeu com massacres e deportações. Em 1998, a ONU proibiu a venda de armas para a Iugoslávia em função dos altíssimos níveis de violência atingidos no conflito.

Em 1999, a OTAN bombardeou a Sérvia, encerrando o conflito que já durava praticamente três anos. No início daquele ano entrava em vigor o Euro, moeda comunitária da União Européia. Uma moeda recente e frágil diante de instabilidades políticas. A Grécia e a Itália, países próximos ao Kosovo, adotaram a nova moeda. Essa proximidade do conflito com a zona do Euro motivou ainda mais a ação da OTAN, que tem diversos países europeus em seu quadro de membros.

Em fevereiro de 2008, os kosovares declararam sua independência, que não foi reconhecida pela Sérvia nem pela Rússia, principal aliada dos sérvios, mas foi reconhecida imediatamente pelos Estados Unidos e outros países. A declaração de independência coloca o novo país sob a supervisão internacional, proíbe-o de juntar-se com outro país e garante a proteção para as minorias étnicas. O processo ainda não possui o reconhecimento das Nações Unidas.
[Clique no mapa para ver as mudanças territorias em detalhes]

domingo, 30 de março de 2008

VÍNCULOS DO JUDAÍSMO COM A PALESTINA

É do Velho Testamento que surgem as principais fontes de conhecimentos sobre as origens do judaísmo. Abraão, saindo das proximidades do rio Eufrates há mais de quatro mil anos, no atual território do Iraque, teria sido designado por Deus para conduzir seu povo a uma estreita faixa de terra entre o Mar Mediterrâneo e o deserto da Arábia, a Canaã ou a Terra Prometida, segundo os textos bíblicos. Tendo se estabelecido, então, nessas terras conhecidas como Palestina, as tribos hebraicas – também chamadas de israelitas por serem descendentes de Israel, neto de Abraão - passam alguns séculos vivendo na região que crêem ser uma promessa divina. No entanto, não se sabe exatamente por qual razão – os estudos de climas antigos indicam que uma grande seca teria tornado a região inabitável por um certo período – as tribos migraram, por volta de 1750 a.C., para o Egito, onde foram escravizadas pelo regime dos faraós.

O mesmo Velho Testamento conta que os hebreus fogem do Egito, depois de quatro séculos de opressão, liderados por Moisés que, conduzido por Deus, teria libertado seu povo atravessando o deserto durante cerca de quarenta anos, transpondo inclusive o Mar Vermelho, que abriu-se para a passagem dos hebreus e fechou-se para a travessia do exército faraônico. E assim, no episódio conhecido como Êxodo, os hebreus retornaram à sua Terra Prometida, tendo Moisés recebido de Deus, durante o retorno israelita, as duas tábuas contendo os dez mandamentos da lei divina, próximo ao Monte Sinai.

De volta à sua terra os hebreus construíram no século XI a.C um suntuoso templo na cidade de Jerusalém com o objetivo de que ele abrigasse a Arca da Aliança, cujo conteúdo sagrado seria formado exatamente pelas tábuas recebidas de Deus por Moisés. Nesta época foi formado o reino de Israel, promovendo uma unificação política das doze tribos hebraicas. Israel teve como reis Saul, Davi e Salomão sendo o último o responsável pela construção do templo de Jerusalém e pelo apogeu do reino que durou aproximadamente 120 anos, pois com a morte de Salomão no ano de 935 a.C., ocorre o Cisma onde duas tribos do sul fragmentaram-se do reino de Israel formando o reino de Judá, com capital em Jerusalém. O reino de Israel, formado pelas outras dez tribos do norte, constituiu capital em Samaria.

Ficou estabelecida, desse modo, a situação política da região, até que em 721 a.C., os dois reinos foram dominados pelos assírios, liderados por Sargão II. A dominação assíria é envolvida em muita crueldade para com os derrotados de todas as áreas. No império que nasce em 1300 a.C. e se expande indo até 612 a.C., era comum a prática de mutilações e de torturas aos povos subjugados, táticas usadas no domínio sobre os povos desta e de outras localidades como Egito, Síria, Armênia e Fenícia.

Em 612 a.C. os assírios foram derrotados pelos caldeus, povo de origem semita (1), o que conduziu à fundação do Segundo Império Neobabilônico, que teve como soberanos Nabopolassar e Nabucodonosor, tendo sido o último responsável pela conquista de Jerusalém e pela destruição do templo da arca da aliança, nessa cidade. Os hebreus foram escravizados e levados de seus reinos para a Mesopotâmia, fato que produziu o episódio conhecido na história hebraica como o “Cativeiro da Babilônia”.

A breve hegemonia babilônica termina em 539 a.C. quando o império é conquistado pelos persas, comandados pelo imperador Ciro. Defensor de uma política pautada no respeito às diferenças religiosas e culturais dos povos conquistados, Ciro liberta os judeus do cativeiro e permite que eles retornem à sua terra e reconstruam seu templo em Jerusalém. No entanto o sistema religioso persa influenciou o judaísmo e este, por sua vez, influenciou o cristianismo e o islamismo. Zoroastro(2) reorganiza a religião persa, antes de caráter totêmico(3), preservando um dualismo divino pré-existente representado pela luta incessante entre o bem (Ahura-Mazda) e o mal (Arimã). O Masdeísmo(4), fruto do trabalho de Zoroastro, contém conceitos como o Juízo Final, livre-arbítrio e aborda a vinda de um Messias concebido por uma virgem, a ressurreição dos mortos e a recompensa com vida eterna no paraíso, aos homens bons.

Duzentos anos depois, Alexandre da Macedônia expulsa os persas da região, criando o maior império formado até então, que seria superado apenas pelos romanos, anos depois. E foram os romanos que dominaram os hebreus no ano 63 a.C. Eles reprimiram duramente as revoltas organizadas por grupos nacionalistas judaicos, destruindo novamente o templo de Jerusalém, em 70 d.C., e determinando a Diáspora Judaica, em 135 d.C. Do templo sobrou apenas o Muro das Lamentações, existente até os dias atuais.

Na diáspora, termo que significa dispersão, os judeus se espalharam pelas diversas províncias romanas na Europa e na Ásia, e passaram a viver em pequenas comunidades onde buscaram conservar seus costumes, sua língua e principalmente sua religião. Os princípios religiosos contidos nos cinco primeiros livros da bíblia, denominados Torá ou Pentateuco, reúnem as obrigações essenciais da vida judaica. Entre os séculos III e VI d.C. surge o Talmud, um livro com o objetivo de reunir os ensinamentos religiosos antes passados de pai para filho, abandonando uma tradição oral em prol de uma tradição escrita. O termo 'Talmud' vem do hebraico e significa estudo.

A 'Sinagoga' – termo que vem do grego e significa congregação ou assembléia - é o espaço de reunião da comunidade para as práticas rituais do culto judaico.No entanto, nem sempre, mesmo depois da diáspora, esse culto foi livre. Depois de mais de dois mil anos de vínculo histórico com a região da Palestina, e de serem dominados por diversos povos como os assírios, os babilônios os persas e os macedônios, os judeus são obrigados pelo império romano a espalhar-se por vastas regiões, onde tentarão conservar suas tradições por mais de dezoito séculos, quase sempre sob perseguição ou em caráter clandestino.

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(1) Semita - Indivíduo dos semitas, família etnográfica e lingüística, originária da Ásia ocidental, e que compreende os hebreus, os assírios, os aramaicos, os fenícios, os árabes.

(2) Zoroastro – Também conhecido como Zaratustra, criador da casta dos magos e reformador do masdeísmo, do qual conservou a concepção dualística do universo.

(3) Totêmico – Relativo ao totem que em diversos povos e sociedades é representado por um animal, vegetal ou qualquer entidade ou objeto em relação ao qual um grupo ou subgrupo social (p. ex., uma tribo ou um clã) se coloca numa relação simbólica especial, que envolve crenças e práticas específicas, variáveis conforme a sociedade ou cultura considerada.

(4) Masdeísmo - Religião antiga dos iranianos (persas e medos), caracterizada pela divinização das forças naturais e pela admissão de dois princípios em luta, aúra-masda e arimã.

sábado, 29 de março de 2008

OTAN NO KOSOVO: RELAÇÕES COM O EURO

É fato notório que a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – foi criada em 1949 com o objetivo de defender os paises do bloco capitalista contra um possível ataque soviético no contexto da guerra fria. No entanto esse organismo não promoveu nenhuma ação militar durante aquele período histórico. Seu primeiro ataque foi contra o Iraque que tinha invadido o Kuweit, detonando a guerra do golfo. E nessa ação os americanos atingem ao menos dois objetivos importantes para a geopolítica da Nova Ordem Mundial então inaugurada. Vejamos.

Um dos objetivos alcançados foi a legitimação da guerra anti-imperialista, desde que o imperialismo em questão não seja o norte-americano. A invasão iraquiana ao país vizinho e riquíssimo em petróleo foi considerada uma atitude imperialista que deveria ser combatida. Outro objetivo alcançado foi a afirmação da necessidade de continuidade da existência da OTAN como uma força multilateral de coalizão capaz de intervir militarmente em situações que envolvam conflitos estratégicos como a guerra do golfo e a belicosa fragmentação da antiga Iugoslávia. Neste último caso foram duas as intervenções da OTAN.

A primeira, em 1995, quando o processo de independência da Bósnia-Herzegovina já envolvia práticas de limpeza étnica do exército sérvio contra os muçulmanos que vivem na região. Como resultado da ação foi assinado o Acordo de Dayton, nos Estados Unidos, que transformou a antiga república da Bósnia numa Confederação que inclui duas repúblicas: a República Muçulmano-Croata e a República Sérvia, esta última ocupada por população, em sua maioria, de origem sérvia.

Em 1999 foi a vez da OTAN atuar no Kosovo. Os Kosovares, que tem origem albanesa, contestaram o poder sérvio sobre a região e desse movimento surgiu o Exército Kosovar de Libertação Nacional. Este grupo, apoiado pela maioria da população, entrou em conflito contra a Sérvia em 1996, pouco depois da pacificação da Bósnia. Durante os três anos do conflito as mesma práticas de limpeza étnica - migrações forçadas, assassinato de mulheres e de crianças – permearam as ações do exército sérvio sob a tutela de Slobodan Milošević.


Os Estados Balcânicos

Mas a ação da OTAN só chega em março de 1999 quando a capital da Sérvia foi bombardeada. E a presença da OTAN se justifica pela entrada em vigor do Euro – moeda única da União Européia – fato que ocorreu em 1º de janeiro de 1999. Nesse primeiro momento a moeda ainda não circulava nas ruas mas já possuía cotação e era comercializada em mercados de capitais e de câmbio. Dos quinze membros do bloco à época, doze adotaram a nova moeda, dentre eles a Grécia. Por conta da proximidade grega com a região do conflito, a OTAN atua com o objetivo de evitar um possível transbordamento do conflito para o território grego, o que certamente afetaria a cotação do Euro.



O Polêmico bombardeio à TV em Belgrado

Não foi, portanto, por uma questão humanitária, para combater a limpeza étnica que a OTAN atuou no Kosovo. Recentemente a região - que foi administrada pela ONU, mesmo pertencendo à Servia como uma província autônoma - declarou sua independência, que foi apoiada pelos americanos e criticada pelos russos. Assim como o Kosovo, a Vojvodina, espaço com população de origem húngara, também constitui um foco de tensões, embora mais brandas, na região dos Bálcãs, atualmente.