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terça-feira, 30 de outubro de 2012

DESERTOS, DESERTIZAÇÃO E DESERTIFICAÇÃO

Esse texto visa apresentar respostas objetivas para dez questões relevantes que envolvem os temas apresentados em seu título. Aborda a dinâmica da Natureza e a interação do homem com o meio ambiente como agente causador de impactos. As questões que apresentamos aqui são as seguintes:

1) O que são desertos?
2) O que é desertização?
3) Como ocorre a desertização?
4) O que é desertificação?
5) Como ocorre a desertificação?
6) Quais são as principais consequências da desertificação?
7) Quais são os principais espaços que sofrem a desertificação no Mundo atualmente?
8) Quais são os principais espaços que sofrem a desertificação no Brasil atualmente?
9) Como evitar ou controlar o avanço da desertificação?
10) A desertificação é um processo reversível?

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O que são desertos?

Desertos são espaços onde os níveis de precipitação registrados são muito baixos, em geral até 250 mm anuais em média, e onde os níveis de evaporação superam os de precipitação.

A baixa presença de vapor d’água na atmosfera cria condições para uma elevada amplitude térmica (variação de temperatura) diária. O vapor d’água é um gás estufa, por isso, nas áreas úmidas, o calor do dia é bastante retido à noite. Já nos desertos, a pobreza em vapor d’água favorece a dissipação do calor na atmosfera, tornando as noites bem mais frias que os dias.

Como resultado disso, as paisagens desérticas costumam ter solos muito arenosos ou rochosos. A variação de temperatura induz a ocorrência da meteorização das rochas (uma forma de intemperismo físico), em que a sucessiva dilatação (que ocorre com o aquecimento durante o dia) e a contração (que ocorre com o resfriamento durante a noite) gera a fratura das rochas em blocos menores, o que garante o aspecto arenoso ou rochoso do solo.

As formas de vida são apenas aparentemente pouco diversificadas. As espécies se adaptam ao rigor do clima desértico. Os vegetais, em geral plantas xerófitas, são muito resistentes à seca e à alta salinidade. Encontram-se de forma dispersa no espaço, desenvolvem raízes profundas e armazenam água em seus caules, folhas e raízes. Apresentam espinhos que contribuem para a realização da fotossíntese evitando a perda de água para o meio por causa de seu formato aciculifoliado (folhas em forma de agulhas). Muitos animais mantêm hábitos noturnos e passam o dia protegidos dos intensos raios solares, escondidos na areia ou em tocas.

A maioria dos rios dos desertos tem caráter temporário. Surgem nos momentos de chuva e depois desaparecem. Como nos desertos as tempestades podem trazer grande volume de chuva concentrado em poucos minutos, caminhar pelo leito dos rios enquanto estão secos pode ser perigoso. É comum eles transbordarem em pouco tempo após o início das chuvas. Excetuando esses casos, os principais rios que cortam desertos têm nascentes em áreas não desérticas com chuvas regulares, como é o caso do rio Nilo.


O que é desertização?

Desertização é um processo natural em que um ambiente transforma-se em um deserto. Trata-se de um processo lento e que possui causas naturais independentes da ação humana.

Como ocorre a desertização?

A desertização é resultado de complexas interações entre a atmosfera, a litosfera, a hidrosfera e a biosfera. Os desertos que encontramos na Terra atualmente são formados por pelo menos um dos fatores, ou uma associação deles, a seguir:

- Desertos em zonas de alta pressão subtropical: essas áreas são caracterizadas pela descida dos ventos contra-alísios, que têm uma ação ressecante. Os ventos contra-alísios, ao descerem nas altas pressões subtropicais, dispersam moléculas e dificultam a subida do vapor d’água, que é fundamental para que haja condensação e chuvas.

- Desertos em áreas à sotavento de grandes barreiras orográficas: alguns desertos do planeta se encontram impedidos por montanhas de ter um contato mais amplo com massas de ar úmidas. Dizemos que essas montanhas constituem barreiras orográficas ao fluxo da umidade. A vertente da montanha que é voltada para a origem do fluxo, e que recebe umidade, é chamada de “barlavento”. Já a vertente voltada contra a origem do fluxo, e que não recebe a umidade, é chamada de “sotavento”.

- Desertos Polares: são áreas onde a precipitação é muito baixa pois as temperaturas médias, que ficam sempre abaixo ou muito próximas de 0°C, restringem demais a evaporação que forma as chuvas. Não se encontram dunas de areia mas dunas de neve em certas áreas de desertos polares.

- Desertos costeiros: são os mais complexos. Estão presentes nas margens ocidentais da América, da África e da Oceania, sempre nas regiões próximas aos trópicos. O desvio Coriollis, provocado pela rotação da Terra, faz com que os ventos predominantes nessas margens ocidentais soprem do continente para o oceano, dificultando a ação de ventos úmidos do oceano. Soma-se a isso o fato dessas áreas serem invariavelmente banhadas por correntes marinhas frias, que reduzem a evaporação nos oceanos e refrigeram a baixa troposfera, exercendo um efeito ressecante na atmosfera, ou seja, provocando chuvas sobre o oceano, que não chegam ao continente. A presença comum de dunas em formato de Lua Crescente voltadas para o mar são uma evidência clara do sentido dos ventos. O deserto de Atacama, que é o mais árido do planeta, é um deserto costeiro.

Muitos estudos em Geologia e Paleoclimatologia (ciência que estuda os climas antigos) apontam para a formação de desertos muito antigos no planeta, alguns já desaparecidos, muitos deles cobertos por florestas atualmente. Acredita-se que muitos desertos surgiram ao longo das glaciações que a Terra viveu. As glaciações congelam grande parte da água do planeta, tornando os climas mais secos, o que favorece a desertização.


O que é desertificação?

Desertificação é um processo regressivo da biosfera de um ambiente, gerado pela ação humana. É notavelmente mais comum em áreas de clima semiárido, sub-úmido e em áreas que circundam desertos.

Como ocorre a desertificação?

Diversas ações inapropriadas do homem sobre o solo podem provocar esse processo. Vejamos os principais:

- Monoculturas intensivas sobre ecossistemas frágeis. As monoculturas desgastam muito o solo pois exigem muitos nutrientes da Natureza, o que provoca seu empobrecimento. Em ambientes frágeis, a superexploração do solo pode ser perigosa nesse sentido.

- Desmatamento. A retirada da cobertura vegetal expõe os solos à radiação solar mais intensa e ao contato direto com as águas das chuvas. Naturalmente, esse desmatamento reduz a infiltração das águas no solo, a alimentação dos lençóis freáticos e aumenta o escoamento superficial das águas, potencializando a erosão, que empobrece o solo.

- Técnicas agropecuárias impróprias. Diversas formas indevidas de uso podem favorecer a erosão e a perda de solo, facilitando assim a desertificação. Entre essas formas, destacam-se a pecuária extensiva, em que o gado criado solto pisoteia e compacta os solos dificultando o crescimento dos vegetais; e o plantio direto sem curvas de nível em encostas, que favorece a erosão.

Quais são as principais consequências da desertificação?

As áreas afetadas sofrem diversas consequências, tanto no âmbito ecológico quanto nos âmbitos social e econômico. São consequências comuns em espaços desertificados:

- Redução da retenção de recursos hídricos; impactos sobre a fauna e a flora; mimetização de espécies no ambiente transformado; impactos sociais decorrentes da falta de água, como desnutrição e desidratação; expansão da pobreza; migrações; desagregação familiar associada às migrações; perda de potencial e produtividade agropecuárias; redução das receitas agropecuárias locais; etc.

Uma forma moderna de exploração dos espaços desertificados é o cultivo de eucaliptos. A planta já demonstrou capacidade de crescer nesse tipo de ambiente, no entanto sua presença em larga escala age de forma nociva ao ambiente. O eucalipto é uma espécie de crescimento muito rápido e de grande absorção de água do solo. Essa relação gera enorme extração de água dos solos das regiões desertificadas, o que contribui para a expansão do espaço desertificado.



Quais são os principais espaços que sofrem a desertificação no Mundo atualmente?

A desertificação é um processo que ocorre principalmente em ambientes que possuem alguma fragilidade, como as regiões semiáridas, sub-úmidas e as que circundam desertos. Alguns casos chamam a atenção no Mundo. Vejamos alguns:

- Sahel africano: a palavra “sahel” tem origem árabe e significa “orla”. A região conhecida como Sahel corresponde à orla semiárida meridional do deserto do Saara, uma faixa relativamente fina de terras semidesérticas ao sul do Saara. É uma das regiões mais pobres do planeta, com péssimos indicadores sociais. Lá, boa parte da população combina uma agricultura itinerante rudimentar com um pastoreio nômade. As duas atividades contribuem para a desertificação. Há também a presença de monoculturas exportadoras comandadas principalmente por empresas europeias, que também contribuem para a desertificação.

- Mar de Aral: nos anos 1920, a antiga União Soviética desviou os cursos dos principais rios que alimentavam o Mar de Aral para irrigar projetos agrícolas na região semiárida do entorno do mar, processo que continuou sendo ampliado nas décadas seguintes. Com a redução dessa alimentação, o volume de água do mar foi progressivamente reduzindo-se. Hoje ele corresponde a aproximadamente 10% da área original e é uma das maiores tragédias ambientais da história. A região conta com um “cemitério de navios” encalhados e com águas e solo altamente salinizados.


- Portugal Meridional: as províncias do Alentejo e do Algarve sofrem forte pressão hidrográfica causada pelos baixos índices pluviométricos, pela agricultura intensiva e pela ampla infraestrutura turística. Em Alentejo, os portugueses construíram a barragem do Alqueva, criando o maior lago artificial da Europa para enfrentar a falta de chuvas e viabilizar a irrigação agrícola. Além disso, o governo restringiu o uso de água para atividades turísticas em Algarve como em piscinas e campos de golfe.

Quais são os principais espaços que sofrem a desertificação no Brasil atualmente?

No Brasil, os principais espaços que sofrem desertificação são municípios do Sertão nordestino. O clima tropical semiárido e as formas tradicionais de uso do solo favorecem esse processo.

Na microrregião da Campanha ocidental, no Sudeste Rio-grandense, com destaque para Itaqui e Alegrete, ocorre um processo de arenização do solo. Cabe destacar que, embora os processos tenham aspectos semelhantes, a arenização se desenvolve em ambientes úmidos.


No Nordeste, o clima semiárido associado a prática de uma agricultura de subsistência vinculada ao pastoreio de bovinos e caprinos explica a evolução da desertificação. Na campanha ocidental, é a pecuária de bovinos, uma atividade histórica com mais de dois séculos na região, que explica o processo, através da compactação dos solos provocada pelo pisoteio do gado.

Como evitar ou controlar o avanço da desertificação?

Para evitar a desertificação ou controlar seu avanço é necessário identificar e agir sobre as causas do processo. Deve-se proteger a vegetação; praticar a agropecuária de maneira apropriada, sem superexploração do solo ou uso de técnicas indevidas; e manejar os recursos hídricos de forma sustentável, evitando grandes desvios ou transposições de rios.

A desertificação é um processo reversível?

Sim! É possível observar a retomada da expansão vegetal em ambientes que vivem a desertificação. No entanto, dependendo do grau de comprometimento, o processo pode levar séculos para se completar. O homem contribui para essa retomada desocupando as terras e aplicando formas de manejo que contribuam para a reversão do quadro. Esse manejo pode ser extremamente dispendioso, podendo custar bilhões de dólares.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

MIGRAÇÃO PENDULAR E TRANSUMÂNCIA


Nesse texto abordamos dois tipos de movimentos populacionais cujas características despertam interesse e dúvidas nos alunos. Por isso, apresentamos cinco perguntas importantes para você dominar esses temas.

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O que é Migração Pendular?

Migração Pendular é um movimento populacional regular em que as pessoas viajam da cidade em que residem para outra cidade onde trabalham ou estudam em tempo integral. A rigor, não se trata de uma migração já que o tempo de permanência não é longo e os movimentos definidos como migração são entendidos como movimentos definitivos ou de longa duração.

Metrô do Rio de Janeiro lotado.

A Migração Pendular é, necessariamente, um movimento diário?

Tomando por base a definição estabelecida acima, podemos afirmar que as migrações pendulares não devem ser entendidas somente como movimentos de caráter diário mas de qualquer intervalo de tempo, desde que se trate de um movimento regular em que o tempo entre a ida e a volta não seja muito longo.

Quais são os principais exemplos de Migração Pendular?

No campo, o principal exemplo de movimento pendular é o realizado pelos trabalhadores volantes, conhecidos popularmente como boias-frias. Em geral, eles se deslocam no início da manhã, da cidade em que vivem para o campo, de onde voltam para suas casas, na cidade, no final do dia.

Outra situação exemplar é a dos trabalhadores que moram nos municípios de uma Região Metropolitana e fazem o movimento diário de suas cidades para trabalhar na metrópole ou em outra cidade da região. A lotação dos meios de transporte intermunicipais e os congestionamentos das vias urbanas e interurbanas no início da manhã e no fim do dia são fortes evidências desse movimento.

Entre os casos em que o movimento não é diário, destacam-se as seguintes situações:

1 – Executivos – Muitos viajam da cidade em que vivem para a cidade em que trabalham no início da semana, abrigam-se em hotéis ou apart-hotéis, e retornam para casa no fim de semana.

2 – Políticos – Deputados estaduais, deputados federais, senadores e outros representantes políticos vivem, em muitos casos, em cidades diferentes daquela em que trabalham. O próprio Congresso Nacional do Brasil não possui reuniões plenárias regulares nos dias de segunda-feira e sexta-feira pois esses são os dias em que os parlamentares chegam e saem de Brasília.

3 – Petroleiros – Muitos trabalhadores petroleiros passam de 10 a 15 dias consecutivos embarcados em plataformas de petróleo, de onde retornam para casa para alguns dias consecutivos de descanso.

4 – Profissionais liberais – Médicos e professores muitas vezes possuem empregos diferentes. Sendo assim, alguns acabam viajando pelo menos uma vez por semana para outra cidade a fim de realizar um plantão ou ministrar suas aulas semanais .

Quais são as principais diferenças entre Migração Pendular e Transumância?

A migração pendular e a transumância têm em comum o fato de serem movimentos regulares com ida e retorno periódicos. A transumância é um movimento descrito tradicionalmente como sendo executado por rebanhos, vaqueiros e pastores que sobem montanhas no verão em busca do clima ameno das altitudes e descem para as planícies no inverno fugindo do rigor do frio nas montanhas. Fica claro que trata-se de um movimento sazonal, ou seja, regulado pelas estações do ano, o que não ocorre nos movimentos pendulares.

No entanto, o movimento de transumância ganha outro significado quando interpretado do ponto de vista de trabalhadores rurais. O termo “transumância” é usado para designar o movimento migratório realizado por camponeses que vão para a cidade em busca de emprego nos períodos em que o calendário agrícola não oferece trabalho no campo. Numa questão do primeiro exame de qualificação da UERJ de 2009, o movimento é apresentado a partir de um texto de jornal que o descreve do seguinte modo, com grifo nosso na frase definitiva [1]:

“Assim, conversinha mole e a criançada que se multiplica. ‘Eu não vou para São Paulo’, anuncia Ari Félix, 12. Mas o irmão dele foi. ‘Difícil ficar’ é a frase mais repetida. Safras perdidas, falta de emprego, família crescendo. A soma faz os homens alternarem: seis meses lá, seis meses cá. Acostumada às despedidas, Vila São Sebastião sabe a rotina: abraços, apertos de mão e adeusinhos frenéticos que, no caso deles, sempre querem dizer ‘até logo’”.

Como as transformações no campo e na cidade contribuíram para Migração Pendular nas Regiões Metropolitanas brasileiras?

O processo de modernização do campo que ganha força no Brasil a partir da crise de 29 e se expande nos anos 1960 e 1970 promove transformações nas relações de trabalho e de produção rurais que tem como consequência uma forte liberação de mão de obra e uma notável concentração fundiária.

Essas realidades associadas às transformações impostas pelo avanço da industrialização nas principais cidades do país, movida pelo desenvolvimentismo brasileiro, criaram uma grande atração de pessoas para esses centros urbanos. Assim, o Brasil observou, em meados da década de 1960, uma mudança na distribuição espacial da população, que passou a viver mais em áreas urbanas do que em áreas rurais.

Diante dessas metamorfoses, podemos dizer que ao mesmo tempo em que o Brasil se urbanizava, o país vivia o processo de metropolização [2] de suas principais capitais, sendo ambos os processos resultados de um fantástico fluxo migratório no sentido campo-cidade observado naquele contexto. Fluxo que convencionamos chamar de êxodo rural, pelo caráter de massa dessas migrações internas.

Assim, o acelerado crescimento dos aglomerados metropolitanos se traduz no crescimento do núcleo metropolitano e, principalmente, na expansão das suas periferias, que nas últimas três décadas passaram a crescer mais rápido que seus respectivos núcleos. É a população residente nessas cidades periféricas em expansão que vai protagonizar os movimentos pendulares diários, principalmente no sentido periferia-núcleo-periferia.


REFERÊNCIAS:


[2] Fausto Brito e Joseane de Souza: Expansão urbana nas grande metrópoles e o significado das migrações intrametropolitanas e da mobilidade pendular na reprodução da pobreza. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-88392005000400003&script=sci_arttext

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O CONCEITO DE TERRITÓRIO

O território como o espaço concreto

A Geografia Política tradicional definiu o território como o espaço concreto em si, apropriado por um determinado agente ou grupo social, tendo em vista que a noção de apropriação empregada no conceito ilustra a existência de uma relação de poder construída pelo homem sobre um espaço delimitado. Para Friedrich Ratzel, geógrafo alemão fundador da geografia política enquanto disciplina da ciência geográfica, mais particularmente como um ramo da geografia humana, a apropriação duradoura, perene do território é capaz de construir vínculos e identidades de forma que um povo não possa mais ser compreendido, concebido sem seu território, pois tais identidades estariam ligadas aos atributos do espaço ocupado.

Mapa Antigo do Rio de Janeiro

O pensamento de Ratzel esteve muito vinculado ao projeto de construção do Estado nacional alemão e à legitimação do expansionismo territorial do Reich. Isso tanto explica quanto exemplifica porque o conceito de território foi tão fortemente associado a um referencial político do Estado. Falar em território significava, praticamente, falar em território nacional. Tanto a Geografia quanto a Ciência Política assim restringiam o conceito tendo em vista o Estado como o detentor do poder por excelência. 

O território como campo de forças 

A renovação crítica do pensamento geográfico propôs uma interpretação diferente, mais ampla do que a proposta pela geografia clássica, do conceito de território. Nela, o território não é o espaço concreto em si mas as relações de poder espacialmente delimitadas que operam sobre uma base, um substrato material referencial. Diferente da proposta de Ratzel, a constituição dos territórios não depende de um longo enraizamento para a construção de identidades e relações de poder. 

Os territórios podem ser construídos e dissolvidos rapidamente ou seja, tendem a ser mais instáveis do que estáveis. Ou ainda, podem ter uma existência regular e periódica. Marcelo José Lopes de Souza, em artigo sobre território publicado no livro Geografia: Conceitos e Temas*, explica essa proposta de conceituação do território como “campo de forças” [1] a partir de exemplos de territorialidade urbana, como os territórios da prostituição, do comércio ambulante e das máfias do narcotráfico no Rio de Janeiro. 

Nesses casos, o autor explica que a territorialidade pode se estabelecer das seguintes maneiras: 

- Territorialidade cíclica: os espaços onde a prostituição ocorre são ocupados no período noturno. Durante o dia, o perfil das pessoas que ocupam o território é diferente. Ao contrário, o comércio ambulante, que também possui uma temporalidade bem definida, predomina ao longo do dia e vai se esvaindo com o anoitecer. 

- Territorialidade móvel: ainda tomando como exemplo a questão da prostituição, o autor explica que pode haver disputa entre grupos rivais (prostituição masculina, feminina, travestis etc.) e como conseqüência pode haver mudanças nos limites controlados por cada grupo. Os limites dos territórios da prostituição são instáveis. 

- Territorialidade em rede: é o exemplo da estrutura espacial do tráfico de drogas, onde cada facção detém o controle de algumas áreas (favelas) relativamente distantes entre si, e intercaladas tanto pelo “asfalto” quanto por outras áreas controladas por facções rivais. No entanto, o conjunto das áreas controladas por uma facção forma uma rede pois essas áreas são conectadas por fluxos diversos (de armas, drogas, dinheiro, ordens de comando etc.). A sobreposição das redes, tanto entre as controladas por cada facção, quanto com o “asfalto”, forma uma malha complexa constituída pelo que o autor optou chamar de “territórios descontínuos”[2]. 

Um conceito polissêmico 

O conceito de território refere-se à espacialidade humana e, por isso, muito além da Geografia, desperta o interesse de outros ramos do conhecimento, cada qual enfatizando suas perspectivas. Desse modo, o conceito ganha muitos significados, torna-se polissêmico. Rogério Haesbaert dá elementos dessa polissemia quando explica a “amplitude do conceito”[3] a partir do enfoque geral das principais ciências que se interessam por ele: 

“Enquanto o geógrafo tende a enfatizar a materialidade do território, em suas múltiplas dimensões (que deve[ria] incluir a interação sociedade-natureza), a Ciência Política enfatiza sua construção a partir das relações de poder (na maioria das vezes, ligada a concepção de Estado); a Economia, que prefere a noção de espaço à de território, percebe-o muitas vezes como um fator locacional ou como uma das bases da produção (enquanto “força produtiva”); a Antropologia destaca sua dimensão simbólica, principalmente no estudo das sociedades ditas tradicionais (mas também no tratamento do “neotribalismo” contemporâneo); a Sociologia o enfoca a partir de sua intervenção nas relações sociais, em sentido amplo, e a Psicologia, finalmente, incorpora-o no de debate sobre a construção da subjetividade ou da identidade pessoal, ampliando-o até a escala do indivíduo”.[4] 

Fica evidente que o conceito de território possui múltiplas acepções. Essas várias noções foram sintetizadas por Haesbaert em quatro vertentes: 

- Política: onde o território é visto como espaço delimitado onde se exerce uma relação de poder; 

- Cultural(ista): onde o território é interpretado como fruto da apropriação ou valorização simbólica do espaço vivido por um grupo social. 

- Econômica ou economicista: onde a dimensão espacial das relações econômicas é enfatizada. 

- Natural(ista): onde o território é visto a partir da relação entre o homem e a Natureza, do comportamento “natural” dos homens em relação ao meio físico. 

Apesar do esforço de sintetizar a polissemia do conceito nessas quatro vertentes, Haesbaert propõe que a discussão seja organizada “a partir de outro patamar, mais amplo, em que estas dimensões se inserem dentro da fundamentação filosófica de cada abordagem”.[5] Desse modo, a conceituação de território é proposta segundo “o binômio materialismo-idealismo” e segundo “o binômio espaço-tempo”. 

Entenda-se que, quanto ao binômio materialismo-idealismo, Haesbaert qualifica como perspectivas materialistas a “natural”, a econômica e a política; e qualifica como idealista a perspectiva cultural ou simbólica do território. Ele entende que tais perspectivas podem ser analisadas tanto a partir de uma visão do território que chamou de “parcial” (que enfatiza uma dessas perspectivas, seja a “natural”, a econômica etc.); ou que essas perspectivas podem ser analisadas a partir de uma visão integradora de território, para atender a questões que envolvem todas elas juntas. 

A abordagem segundo o binômio espaço-tempo consiste na visão relacional de território onde este é compreendido como “completamente inserido dentro de relações social-históricas”. [6] Esta abordagem coincide com aquela feita por Marcelo José Lopes de Souza, explicada acima, onde o território é visto prioritariamente como um conjunto de relações sociais, um campo de forças. Haesbaert sinaliza que a interpretação de Souza é justamente cuidadosa pois não nega a materialidade do território e, por isso, evita uma ”desgeografização” do território, que seria acompanhada de um excesso de “sociologização” e “historicização” do conceito. 

Sendo assim, o território, um conceito que interessa a muitas ciências, a concepção do conceito dependerá da posição filosófica de cada pesquisador e da opção por uma dessas perspectivas, ou ainda, pode-se empreender um esforço de superação dessa “dicotomia material/ideal” para integrar tanto a dimensão material quanto a dimensão simbólica como partes inseparáveis do conceito. 

Referências: [1] e [2] SOUZA, Marcelo José Lopes 1995. O território: sobre espaço, poder, autonomia e desenvolvimento. In: Castro et al. (orgs.) Geografia: Conceitos e Temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. [3] [4] [5] e [6] COSTA, Rogério Haesbaert da. 2006. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 2ªed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 

* O autor desse blog, criado em 2007, não tinha conhecimento da existência do livro organizado por Castro, Gomes e Corrêa quando escolheu o título, que se adéqua à proposta do blog, que é apresentar conceitos (como faz nesse texto) e temas, como é o caso da maioria dos textos aqui publicados, uma coincidência que muito nos honra depois que tivemos contato com a obra e passamos a conhecer o conteúdo de seus textos. 

Esta postagem é dedicada ao centenário do falecimento do Barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Júnior, Ministro das Relações Exteriores do Brasil entre 1902 e 1912, falecido a 10 de fevereiro de 1912, enquanto ocupava o cargo, sendo uma unanimidade nacional em seu tempo e o principal responsável pela expansão do território brasileiro no período republicano.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

GENTRIFICAÇÃO: CONCEITO E O EXEMPLO DA "NOVA LUZ"

Os estudos sobre "gentrification", termo acadêmico usualmente traduzido para o português como "gentrificação", já têm quase 50 anos e não são mais tratados exatamente como uma novidade. No entanto a quantidade de exemplos desse processo cresceu rapidamente nos últimos anos despertando maior atenção para o fenômeno e demandando uma maior difusão dos elementos quen compõem esse processo.

A gentrificação é, essencialmente, um processo de enobrecimento do espaço urbano a partir da renovação dos elementos que compõem o espaço tais como construções, parques, praças, comércio, equipamentos de diversão, cultura, arte etc. Ocorre, geralmente, nas áreas centrais das cidades que apresentam maior grau de degradação dessa parcela do espaço urbano, tendo, consequentemente, construções abandonadas, invasões, cortiços etc. aglomerando população de baixa renda.

Normalmente os projetos urbanos que conduzem à gentrificação são apresentados como projetos de "revitalização". O termo sugere a falta de "vida" própria nos lugares renovados explicando, assim, por quê tal projeto seria indispensável ao espaço, atribuindo-lhe uma dimensão positiva.

De fato, renovar o espaço, melhorando, ampliando e modernizando suas infraestruturas, será sempre muito bom para as pessoas que vivem nesse espaço, desde que, para que as melhorias acontençam, elas não tenham que ser removidas de lá, ou que percam condições de seguir se sustentando naquela localidade em função do aumento dos custos de vida após as reformas.

No entanto, inevitavelmente é isso que acontece nos processos de gentrificação: se os moradores tradicionais não são removidos pela arbitrariedade do poder público, acabam saindo ao longo desse processo pela força do capital imobiliário e sua especulação que eleva os preços dos aluguéis e da aquisição de moradias.

No início de 2011 tive a oportunidade de falar um pouco sobre esse tema para os vestibulandos que consultam o site g1.com.br e alertar sobre a difusão desse conceito e a possibilidade de ele ser cobrado nos vestibulares. No final do ano a PUC-Rio cobrou o tema (veja o link) em uma de suas provas específicas de Geografia. Você pode assistir a essa mini-aula aqui, no site do g1, ou aqui, no YouTube.

Citei, na aula, Rio de Janeiro e São Paulo como principais cidades brasileiras onde o processo é obsevado. Disse ainda, que, no Rio, a principal região é a Lapa e, em São Paulo, o processo é mais evidente no entorno da Praça da Sé. Aproveito esta oportunidade para completar esse quadro de gentrificação nas duas maiores cidades brasileiras.

No Rio de Janeiro, uma outra área que vive a gentrificação é a Zona Portuária, onde a prefeitura da cidade executa um projeto chamado "Porto Maravilha". Baseia-se, exatamente, na demolição de algumas construções antigas, reordenamento das vias de circulação (com destaque para a demolição do elevado da perimetral), e na abertura de espaços para novas construções, sendo que alguns terrenos tiveram seus gabaritos ampliados para permitir construções de até 50 andares.

Já em São Paulo, o projeto de "revitalização" indutor da gentrificação é o "Nova Luz". Nesse projeto, 33% da área construída será completamente demolida, processo que já começou e deve avançar nos próximos anos. O bairro da Luz, que abriga um elevado número de pessoas de baixa renda, ganhou o apelido de "cracolândia", em função da presença de usuários de crack pelas ruas do bairro.

Tanto o fenômeno em si (a presença de viciados) quanto a difusão na mídia do apelido pejorativo ajudam a desvalorizar ainda mais o bairro atendendo aos interreses do capital imobiliário que pretende se apropriar dos terrenos a preços baixos, e negociá-los, após a renovação, a preços elevados.

É natural que zonas centrias sejam atrativas para a classe média que pretende morar perto do trabalho, especialmente em cidades congestionadas. No Rio, um condomínio lançado na Lapa, em 2005, vendeu todas as suas 688 unidades em 2 horas, valendo-se de sua presença no centro e da tradição do espírito boêmio do bairro.

Processo muito semelhante deve acontecer na Nova Luz. Dos prédios degradados, das ocupações irregulares e dos cortiços, devem sair milhares de pessoas que serão conduzidas a tentar moradia nas periferias distantes da cidade ou ao desabrigo. Elas não terão condições de continuar participando da vida no novo bairro que vai surgir, por sua condição social.

Uma alternativa para isso é a efetivação das chamadas ZEIS, Zonas Especiais de Interesse Social, que, são áreas de assentamentos habitacionais de população de baixa renda, surgidos espontaneamente, existentes, consolidados ou propostos pelo Poder Público, onde haja possibilidade de urbanização e regularização fundiária, de acordo com a definicão dada pela prefeitura de Recife, cidade pioneira na proposição dessas zonas (ver link).



Previstas como intrumento de política urbana no Estatuto da Cidade, de 2001, essas zonas garantem que os projetos de modernização e "revitalização" incluam a construção de moradias populares. Desse modo, a população pobre não seria completamente apartada do convívio no lugar.

Uma excelente abordagem sobre o caso do projeto Nova Luz você pode ver no vídeo a seguir.




LUZ from Left Hand Rotation on Vimeo.


P.S.: Uma tese interessante sobre a Gentrificação em cidades históricas menores, escrita pelo Mestre em arquitetura Gustavo Pimenta de Pádua Zolini, pode ser encontrada aqui. Clique para ver!

sábado, 7 de março de 2009

INTEMPERISMO

Chamamos de agentes exógenos ou externos os elementos da natureza que realizam o trabalho de transformar as estruturas físicas e químicas das rochas e transportar, seja a curtas, médias ou longas distâncias, os fragmentos dessas rochas que eles são capazes de desgastar. Entre os principais agente exógenos ou externos temos as chuvas, os ventos, os rios, os mares e o gelo. Eles são capazes de causar tanto o intemperismo quanto a erosão.

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Mas qual é a diferença entre intemperismo e erosão?

Intemperismo correponde ao processo de alteração, ou seja, de transformação das estruturas físicas (através da desagregação), ou químicas (através da decomposição) das rochas da superfície terrestre. Já a erosão corresponde ao transporte dos fragmentos de rochas desgastadas, ou seja, o deslocamento de materiais intemperizados. Nesse texto dedicaremos algumas palavras para descrever os principais tipos de intemperismo, suas principais formas de ocorrência e seus agentes causadores.

Como ocorre o intemperismo?
O intemperismo ocorre essencialmente de duas formas, podendo a alteração das rochas ser de caráter físico ou químico. O intemperismo físico corresponde à alteração da estrutura física das rochas feita a partir de uma desagregação mecânica. Por exemplo: quando uma única rocha é dividida em duas partes, ela sofreu uma alteração física e não química pois as duas partes não tiveram sua composição química alterada pela simples quebra da rocha. Para que haja intemperismo químico é necessário que ocorra uma alteração da estrutura química da rocha. O intemperismo físico é típico de climas secos, sejam eles quentes ou frios. Já o intemperismo químico, cuja atuação é mais profunda e importante do que a do intemperismo físico, tem sua ocorrência em áreas úmidas e quentes.

Intemperismo Físico

Vejamos, então, os principais agentes que podem causar o intemperismo físico.

a) Variação de temperatura

A variação diária de temperatura (insolação) e a variação anual (estações do ano) atuam sobre as rochas provocando dilatação (pelo aquecimento ao longo do dia ou do verão) e contração (ao longo das noites ou do inverno). Essa dinâmica de dilatação e contração provoca a termoclastia, ou seja, a fragmentação ou desagregação das rochas pela variação de temperatura. Esse fenômeno é mais comum em climas secos (como os dos desertos) onde ocorre grande variação de temperatura diária e anual. Em alguns pontos do deserto do Saara, as temperaturas superam os 50 graus célcius durante o dia e caem drasticamente para níveis perto de zero grau à noite. O reflexo está na paisagem arenosa, fruto da fragmentação excessiva das rochas do local. Cabe destacar, ainda, que o comportamento dos diferentes minerais, que compõem uma mesma rocha e possuem coeficientes de dilatação distintos, é diferente provocando o "deslocamento relativo entre os cristais, rompendo a coesão inicial entre os grãos". [1]

b) Alívio de pressões
Frequentemente alguns blocos rochosos de grande dimensão que estão posicionados em partes profundas da crosta (chamados de batólitos) e que encontram sobre si um grande volume de rochas que atingem a superfície (chamadas de rochas encaixantes) sofrem um processo de soerguimento. Nesse processo o material da rocha encaixante é erodido e seu peso imenso é retirado, pela erosão, de cima do batólito causando um grande alívio de pressão. Esse alívio faz surgir um conjunto de fendas mais ou menos paralelas à superfície na estrutura da rocha soerguida. Essa alteração (fendilhamento) é de caráter essencialmente físico sendo mais um exemplo de intemperismo. Outras rochas, que não são batólitos, também sofrem intemperismo por alívio de pressão, como ocorre com os gnaisses e os arenitos.

c) Crescimento de cristais
A existência de poros ou fendas nas rochas possibilita o acúmulo de água e de sais (cloretos, sulfatos, carbonatos...). Em regiões frias, o congelamento da água acumulada nas fendas das rochas aumenta seu volume em aproximadamente 9% exercendo forte pressão para o alargamento dessas fendas podendo causar aumento das fraturas e fragmentar as rochas (crioclastia). O acúmulo de cristais nessas fendas também provoca essa abertura. Os cristais podem expandir-se pelo aumento da temperatura.


d) Hidratação de minerais.
"A cristalização de sais dissolvidos nas águas de infiltração tem o mesmo efeito [que o crescimento de cristais*]. Com o passar do tempo, o crescimento desses minerais também causa expansão das fraturas e fragmentação das rochas". [1] Ou seja, ressalta-se aqui o papel da absorção de umidade pelos minerais como agente físico causador de fraturas e, principalmente, esfoliações das rochas.

e) Processos físico-biológicos

A ação mecânica das raízes dos vegetais e de outros organismos também pode provocar a fratura ou a fragmentação das rochas. Quando, por exemplo, as raízes de uma árvore crescem na fenda de uma rocha, elas forçam a sua abertura gerando a desagregação dos blocos separados pela fenda.

Intemperismo Químico

Vejamos, agora, os principais agentes capazes de gerar o intemperismo químico.

a) Oxidação
Sua ocorrência é típica de "ambientes oxidantes" [2], ou seja, os mais úmidos. É mais comum nos íons Fe++ e no Fe+++. Sua evidência mais clara manifesta-se na coloração avermelhada e amarelada das rochas e dos solos gerados pela intemperização dessas rochas.

b) Redução

É o processo inverso à oxidação. O íon Fe++ mantém-se na forma estável. Ocorre preferencialmente em "ambientes redutores" [2], que também são bastante úmidos, saturados de água. O processo resulta em rochas e solos de coloração azualda, cinzenta ou esverdeada.

c) Hidratação

Esse processo ocorre a partir da entrada de moléculas de água na estrutura mineral, modificando-a e dando origem a um mineral diferente. Ocorre também em ambientes mais úmidos.

d) Hidrólise

Sendo as rochas constituídas basicamente por silicatos, quando elas entram em contato com a água, os silicatos sofrem hidrólise e dessa reação resulta uma solução alcalina. Em um feldspato potássico, por exemplo, o hidrogênio (H+) substitui por hidrólise o potássio (K+).
e) Atividade dos ácidos
Os ácidos facilitam a ocorrência do processo de hidrólise (em função do teor H+). Os principais ácidos ativos são o ácido carbônico, o ácido sulfúrico, os ácidos húmicos, etc.

f) Dissolução

A dissolução ocorre quando a água provoca a solubilização completa de um mineral. Esse processo é mais comum em terrenos formados por rochas calcárias, que são mais suscetíveis à dissolução completa.

g) Processos químico-biológicos
Derivam principalmente da liberação de substâncias e do aumento na acidez da água de infiltração, que resultam da ação de microorganismos, plantas e tecidos animais e vegetais. O solo é um ambiente rico em CO2 em função da oxidação da matéria orgânica e da respiração das plantas pelas raízes. Esse CO2 em contato com a água das chuvas diminui o pH dessas águas dando maior poder de ataque às rochas alterando-lhes a estrutura.


AGRADECIMENTOS:

Meus sinceros agradecimentos a professora Anice Esteves Afonso, do departamento de Geografia da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, amiga e mentora, pelo carinho e pela revisão dos conceitos desse pequeno texto sobre um tema que ela, como professora de geomorfologia, domina tão melhor do que eu.

Obrigado.

REFERÊNCIAS:

[1] TOLEDO, Maria Cristina M. et al. Decifrando a Terra. Ed. Oficina de Textos. São Paulo. 2002. pp.: 140-148.

[2] http://geomarco.com/

* Nota do Autor

sábado, 11 de outubro de 2008

O CONCEITO DE LUGAR

O conceito de lugar ganhou nova dimensão, que foge ao senso comum, quando visualizado pelas mais recentes correntes do pensamento geográfico: a geografia humanística e a geografia marxista, que viabilizaram um redimensionamento não só do conceito de lugar bem como de diversos outros conceitos fundamentais da geografia.

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Em sua nova visão, o lugar ganha em abrangência de significado deixando de ser compreendido apenas como um espaço produzido, ao longo de um determinado tempo, pela natureza e pelo homem, para ser visto como uma construção única, singular, carregada de simbolismo e que agrega idéias e sentidos produzidos por aqueles que o habitam.

Muito além de um espaço físico, de uma paisagem repleta de elementos e de referências peculiares passíveis de descrições objetivas e racionalizadas, o lugar, na visão humanística, constitui-se como uma paisagem cultural, campo da materialização das experiências vividas que ligam o homem ao mundo e às pessoas, e que despertam os sentimentos de identidade e de pertencimento no indivíduo. É, portanto, fruto da construção de um elo afetivo entre o sujeito e o ambiente em que vive.


Inicialmente, o lugar foi definido por Aristóteles como o espaço que circunda o corpo. Descartes, buscando elaborar o conceito aristotélico, afirma que a determinação do lugar deve obedecer à relação da posição do corpo com a posição dos outros corpos. A dialética marxista identifica na apropriação capitalista do espaço um processo de personalização dos lugares que, simultaneamente, reconstroem suas singularidades e expressam o fenômeno global em curso nos últimos séculos.

Apesar das singularidades dos diversos lugares, crescem, especialmente em função da expansão das redes de comunicação e de transportes que vivenciam franca aceleração no mundo contemporâneo, as interações entre os lugares, embora hierarquizadas de acordo com suas infra-estruturas logísticas conectoras.

Portanto, o conceito de lugar amplia-se profundamente diante das novas visões desenvolvidas por aqueles que se debruçaram sobre ele mediante as perspectivas marxistas e humanísticas da geografia recente. Expressando singularidade e globalidade, e materializando a construção de identidades individuais e coletivas, o lugar passa a representar muito mais do que um espaço que circunda o corpo.