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terça-feira, 30 de outubro de 2012

DESERTOS, DESERTIZAÇÃO E DESERTIFICAÇÃO

Esse texto visa apresentar respostas objetivas para dez questões relevantes que envolvem os temas apresentados em seu título. Aborda a dinâmica da Natureza e a interação do homem com o meio ambiente como agente causador de impactos. As questões que apresentamos aqui são as seguintes:

1) O que são desertos?
2) O que é desertização?
3) Como ocorre a desertização?
4) O que é desertificação?
5) Como ocorre a desertificação?
6) Quais são as principais consequências da desertificação?
7) Quais são os principais espaços que sofrem a desertificação no Mundo atualmente?
8) Quais são os principais espaços que sofrem a desertificação no Brasil atualmente?
9) Como evitar ou controlar o avanço da desertificação?
10) A desertificação é um processo reversível?

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O que são desertos?

Desertos são espaços onde os níveis de precipitação registrados são muito baixos, em geral até 250 mm anuais em média, e onde os níveis de evaporação superam os de precipitação.

A baixa presença de vapor d’água na atmosfera cria condições para uma elevada amplitude térmica (variação de temperatura) diária. O vapor d’água é um gás estufa, por isso, nas áreas úmidas, o calor do dia é bastante retido à noite. Já nos desertos, a pobreza em vapor d’água favorece a dissipação do calor na atmosfera, tornando as noites bem mais frias que os dias.

Como resultado disso, as paisagens desérticas costumam ter solos muito arenosos ou rochosos. A variação de temperatura induz a ocorrência da meteorização das rochas (uma forma de intemperismo físico), em que a sucessiva dilatação (que ocorre com o aquecimento durante o dia) e a contração (que ocorre com o resfriamento durante a noite) gera a fratura das rochas em blocos menores, o que garante o aspecto arenoso ou rochoso do solo.

As formas de vida são apenas aparentemente pouco diversificadas. As espécies se adaptam ao rigor do clima desértico. Os vegetais, em geral plantas xerófitas, são muito resistentes à seca e à alta salinidade. Encontram-se de forma dispersa no espaço, desenvolvem raízes profundas e armazenam água em seus caules, folhas e raízes. Apresentam espinhos que contribuem para a realização da fotossíntese evitando a perda de água para o meio por causa de seu formato aciculifoliado (folhas em forma de agulhas). Muitos animais mantêm hábitos noturnos e passam o dia protegidos dos intensos raios solares, escondidos na areia ou em tocas.

A maioria dos rios dos desertos tem caráter temporário. Surgem nos momentos de chuva e depois desaparecem. Como nos desertos as tempestades podem trazer grande volume de chuva concentrado em poucos minutos, caminhar pelo leito dos rios enquanto estão secos pode ser perigoso. É comum eles transbordarem em pouco tempo após o início das chuvas. Excetuando esses casos, os principais rios que cortam desertos têm nascentes em áreas não desérticas com chuvas regulares, como é o caso do rio Nilo.


O que é desertização?

Desertização é um processo natural em que um ambiente transforma-se em um deserto. Trata-se de um processo lento e que possui causas naturais independentes da ação humana.

Como ocorre a desertização?

A desertização é resultado de complexas interações entre a atmosfera, a litosfera, a hidrosfera e a biosfera. Os desertos que encontramos na Terra atualmente são formados por pelo menos um dos fatores, ou uma associação deles, a seguir:

- Desertos em zonas de alta pressão subtropical: essas áreas são caracterizadas pela descida dos ventos contra-alísios, que têm uma ação ressecante. Os ventos contra-alísios, ao descerem nas altas pressões subtropicais, dispersam moléculas e dificultam a subida do vapor d’água, que é fundamental para que haja condensação e chuvas.

- Desertos em áreas à sotavento de grandes barreiras orográficas: alguns desertos do planeta se encontram impedidos por montanhas de ter um contato mais amplo com massas de ar úmidas. Dizemos que essas montanhas constituem barreiras orográficas ao fluxo da umidade. A vertente da montanha que é voltada para a origem do fluxo, e que recebe umidade, é chamada de “barlavento”. Já a vertente voltada contra a origem do fluxo, e que não recebe a umidade, é chamada de “sotavento”.

- Desertos Polares: são áreas onde a precipitação é muito baixa pois as temperaturas médias, que ficam sempre abaixo ou muito próximas de 0°C, restringem demais a evaporação que forma as chuvas. Não se encontram dunas de areia mas dunas de neve em certas áreas de desertos polares.

- Desertos costeiros: são os mais complexos. Estão presentes nas margens ocidentais da América, da África e da Oceania, sempre nas regiões próximas aos trópicos. O desvio Coriollis, provocado pela rotação da Terra, faz com que os ventos predominantes nessas margens ocidentais soprem do continente para o oceano, dificultando a ação de ventos úmidos do oceano. Soma-se a isso o fato dessas áreas serem invariavelmente banhadas por correntes marinhas frias, que reduzem a evaporação nos oceanos e refrigeram a baixa troposfera, exercendo um efeito ressecante na atmosfera, ou seja, provocando chuvas sobre o oceano, que não chegam ao continente. A presença comum de dunas em formato de Lua Crescente voltadas para o mar são uma evidência clara do sentido dos ventos. O deserto de Atacama, que é o mais árido do planeta, é um deserto costeiro.

Muitos estudos em Geologia e Paleoclimatologia (ciência que estuda os climas antigos) apontam para a formação de desertos muito antigos no planeta, alguns já desaparecidos, muitos deles cobertos por florestas atualmente. Acredita-se que muitos desertos surgiram ao longo das glaciações que a Terra viveu. As glaciações congelam grande parte da água do planeta, tornando os climas mais secos, o que favorece a desertização.


O que é desertificação?

Desertificação é um processo regressivo da biosfera de um ambiente, gerado pela ação humana. É notavelmente mais comum em áreas de clima semiárido, sub-úmido e em áreas que circundam desertos.

Como ocorre a desertificação?

Diversas ações inapropriadas do homem sobre o solo podem provocar esse processo. Vejamos os principais:

- Monoculturas intensivas sobre ecossistemas frágeis. As monoculturas desgastam muito o solo pois exigem muitos nutrientes da Natureza, o que provoca seu empobrecimento. Em ambientes frágeis, a superexploração do solo pode ser perigosa nesse sentido.

- Desmatamento. A retirada da cobertura vegetal expõe os solos à radiação solar mais intensa e ao contato direto com as águas das chuvas. Naturalmente, esse desmatamento reduz a infiltração das águas no solo, a alimentação dos lençóis freáticos e aumenta o escoamento superficial das águas, potencializando a erosão, que empobrece o solo.

- Técnicas agropecuárias impróprias. Diversas formas indevidas de uso podem favorecer a erosão e a perda de solo, facilitando assim a desertificação. Entre essas formas, destacam-se a pecuária extensiva, em que o gado criado solto pisoteia e compacta os solos dificultando o crescimento dos vegetais; e o plantio direto sem curvas de nível em encostas, que favorece a erosão.

Quais são as principais consequências da desertificação?

As áreas afetadas sofrem diversas consequências, tanto no âmbito ecológico quanto nos âmbitos social e econômico. São consequências comuns em espaços desertificados:

- Redução da retenção de recursos hídricos; impactos sobre a fauna e a flora; mimetização de espécies no ambiente transformado; impactos sociais decorrentes da falta de água, como desnutrição e desidratação; expansão da pobreza; migrações; desagregação familiar associada às migrações; perda de potencial e produtividade agropecuárias; redução das receitas agropecuárias locais; etc.

Uma forma moderna de exploração dos espaços desertificados é o cultivo de eucaliptos. A planta já demonstrou capacidade de crescer nesse tipo de ambiente, no entanto sua presença em larga escala age de forma nociva ao ambiente. O eucalipto é uma espécie de crescimento muito rápido e de grande absorção de água do solo. Essa relação gera enorme extração de água dos solos das regiões desertificadas, o que contribui para a expansão do espaço desertificado.



Quais são os principais espaços que sofrem a desertificação no Mundo atualmente?

A desertificação é um processo que ocorre principalmente em ambientes que possuem alguma fragilidade, como as regiões semiáridas, sub-úmidas e as que circundam desertos. Alguns casos chamam a atenção no Mundo. Vejamos alguns:

- Sahel africano: a palavra “sahel” tem origem árabe e significa “orla”. A região conhecida como Sahel corresponde à orla semiárida meridional do deserto do Saara, uma faixa relativamente fina de terras semidesérticas ao sul do Saara. É uma das regiões mais pobres do planeta, com péssimos indicadores sociais. Lá, boa parte da população combina uma agricultura itinerante rudimentar com um pastoreio nômade. As duas atividades contribuem para a desertificação. Há também a presença de monoculturas exportadoras comandadas principalmente por empresas europeias, que também contribuem para a desertificação.

- Mar de Aral: nos anos 1920, a antiga União Soviética desviou os cursos dos principais rios que alimentavam o Mar de Aral para irrigar projetos agrícolas na região semiárida do entorno do mar, processo que continuou sendo ampliado nas décadas seguintes. Com a redução dessa alimentação, o volume de água do mar foi progressivamente reduzindo-se. Hoje ele corresponde a aproximadamente 10% da área original e é uma das maiores tragédias ambientais da história. A região conta com um “cemitério de navios” encalhados e com águas e solo altamente salinizados.


- Portugal Meridional: as províncias do Alentejo e do Algarve sofrem forte pressão hidrográfica causada pelos baixos índices pluviométricos, pela agricultura intensiva e pela ampla infraestrutura turística. Em Alentejo, os portugueses construíram a barragem do Alqueva, criando o maior lago artificial da Europa para enfrentar a falta de chuvas e viabilizar a irrigação agrícola. Além disso, o governo restringiu o uso de água para atividades turísticas em Algarve como em piscinas e campos de golfe.

Quais são os principais espaços que sofrem a desertificação no Brasil atualmente?

No Brasil, os principais espaços que sofrem desertificação são municípios do Sertão nordestino. O clima tropical semiárido e as formas tradicionais de uso do solo favorecem esse processo.

Na microrregião da Campanha ocidental, no Sudeste Rio-grandense, com destaque para Itaqui e Alegrete, ocorre um processo de arenização do solo. Cabe destacar que, embora os processos tenham aspectos semelhantes, a arenização se desenvolve em ambientes úmidos.


No Nordeste, o clima semiárido associado a prática de uma agricultura de subsistência vinculada ao pastoreio de bovinos e caprinos explica a evolução da desertificação. Na campanha ocidental, é a pecuária de bovinos, uma atividade histórica com mais de dois séculos na região, que explica o processo, através da compactação dos solos provocada pelo pisoteio do gado.

Como evitar ou controlar o avanço da desertificação?

Para evitar a desertificação ou controlar seu avanço é necessário identificar e agir sobre as causas do processo. Deve-se proteger a vegetação; praticar a agropecuária de maneira apropriada, sem superexploração do solo ou uso de técnicas indevidas; e manejar os recursos hídricos de forma sustentável, evitando grandes desvios ou transposições de rios.

A desertificação é um processo reversível?

Sim! É possível observar a retomada da expansão vegetal em ambientes que vivem a desertificação. No entanto, dependendo do grau de comprometimento, o processo pode levar séculos para se completar. O homem contribui para essa retomada desocupando as terras e aplicando formas de manejo que contribuam para a reversão do quadro. Esse manejo pode ser extremamente dispendioso, podendo custar bilhões de dólares.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O DRAMA DAS ENCHENTES

Parece mesmo que já faz parte da rotina de nossa sociedade vivenciar eventualmente o drama causado pelas enchentes que castigam esse país tropical de tempos em tempos. Muito além dos prejuízos causados, tais eventos assumem efetivamente a condição de tragédia por sua dimensão humana, ao ceifarem vidas, desestruturarem famílias e piorarem profundamente as condições de vida dos sobreviventes que são gravemente atingidos.


A recorrência desses eventos é bastante alta, especialmente nos meses mais quentes. Em alguns casos o impacto é maior. Sem voltar muito no tempo podemos recordar as chuvas que atingiram o estado de Santa Catarina, no final de 2008; o drama em Angra dos Reis (RJ) e São Luis do Paraitinga (SP) na virada de 2009 para 2010; o impacto violento das águas que caíram sobre a região metropolitana do Rio de Janeiro no início de abril deste ano; e agora as chuvas que atingem o Nordeste, especialmente os estados de Pernambuco e Alagoas.


As recentes chuvas no Nordeste guardam características anormais pela sua época incomum e pelo seu processo de formação. Chuvas intensas assim são mais comuns no verão, no entanto a região sofreu intensa carga pluvial num período de transição do outono para o inverno, quando as chuvas normalmente diminuem. A causa para isso é explicada pela ação conjunta de três fatores climáticos fora da normalidade.


Um deles é a chegada de ventos úmidos vindos da área conhecida como Alta da Bolívia, uma área de alta pressão que dispersa esses ventos úmidos que atingem o Nordeste, normalmente no verão. Sua atuação no inverno pode ser considerada anormal.


Outro fator é a temperatura acima do normal nas águas do Oceano Atlântico na costa nordestina. Este fenômeno, que tem sido observado e monitorado pelos meteorologistas, facilita a evaporação das águas aumentando o volume das chuvas que chegam ao litoral.


Somando-se a esses fatores, notou-se também a permanência da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) sobre o Nordeste. Sua presença, que torna os dias mais chuvosos, é comum no verão mas, com a mudança de estação, ela normalmente se afasta em direção ao hemisfério Norte, reduzindo as chuvas, o que não ocorreu até o início desse inverno.


A causa dessa anomalia foi o fortalecimento de um sistema de ventos paralelos ao Equador que sopram da África em direção ao Brasil. Esses ventos fortes impediram o deslocamento da ZCIT para o Norte, tanto que os níveis de chuva em Roraima e no Amapá - estados mais setentrionais, com terras no hemisfério norte - estão abaixo da média para a época.


Recebendo uma carga pluvial intensa desde abril, os solos permeáveis do Nordeste encharcaram e o volume de água dos rios cresceu. Apesar da existência de diversos açudes ao longo dos principais rios de Pernambuco e Alagoas, muitos deles atingiram sua capacidade máxima e transbordaram, assim como também transbordaram dezenas de rios e córregos, espalhando água, destruição e dor.


E o resultado é um grande número de mortos além de prejuízos de mais de um bilhão de reais, segundo informações do ministro da integração nacional Geddel Vieira Lima. Casas, escolas, hospitais, comércio... Muita destruição. O presidente Luis Inácio Lula da Silva cancelou sua participação na cúpula do G20 e foi ao município de Rio Largo (AL), um dos mais afetados pelas chuvas. A cidade de Rio Largo é cortada pelo rio Mundaú, que nasce no planalto da Borborema, em Pernambuco, na cidade de Garanhuns, e deságua na lagoa Mundaú, ao sul de Maceió. O rio transbordou e arrasou a cidade. Há medidas em curso para a liberação de verbas emergenciais para as cidades afetadas.


A ação solidária dos brasileiros nesses momentos difíceis é de valor inestimável. É fundamental o apoio material e o trabalho voluntário que milhares de pessoas dedicam aos atingidos pelas chuvas. No entanto, diante do conhecimento do problema que enfrentamos, cabe-nos pensar nas medidas que podem ser tomadas para evitar novas tragédias.


Muito além dos necessários investimentos públicos na construção, ampliação e modernização de redes de drenagem, diversas formas de uso e ocupação do solo podem ser implantadas ou devem ser evitadas dependendo do caso.


Entre as medidas mais importantes podemos destacar a preservação e revitalização das matas ciliares (vegetação marginal) evitando o assoreamento dos rios e a redução da sua capacidade de carga; a não-ocupação das margens fluviais já que essas são as principais construções afetadas pelas enchentes; o combate ao desmatamento de encostas, que acelera o escoamento superficial facilitando o acúmulo de água nas áreas baixas do terreno e os desmoronamentos, no caso de encostas ocupadas; e a manutenção da limpeza das redes de escoamento que, principalmente nas grandes cidades, sofrem com o despejo de grandes volumes de lixo.


A implantação dessas e outras medidas cabíveis envolve a elaboração e a prática de um profundo planejamento urbano, social e ambiental além de demandar o enfrentamento das dificuldades políticas da gestão integrada das bacias hidrográficas intermunicipais e interestaduais.


É grande o desafio que temos pela frente. Muito maior é o valor das vidas que dependem da nossa vitória.


P.S.: Veja também o vídeo que gravei para o site g1.com falando sobre esse tema, CLICANDO AQUI.