sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA NO MUNDO ISLÂMICO

O processo de crescimento da população no mundo islâmico possui algumas características bastante peculiares que merecem uma análise um pouco mais atenta. Observe a tabela abaixo que contém as taxas de crescimento vegetativo, de natalidade e de mortalidade de cinco países do mundo islâmico. Dos países da Península Arábica, onde surgiu o islamismo, selecionamos a Arábia Saudita e o Catar. Outro país asiático selecionado foi o Afeganistão. E da África, onde o islamismo se difundiu principalmente no norte do continente, selecionamos a Eritréia e o Chade. Veja os dados:


Como em qualquer país de grandes contrastes, nos países do mundo islâmico existem profundas diferenças entre a pequena parcela mais rica da população e a maioria mais pobre. Para os mais pobres, é normal que os fatores que contribuem para uma natalidade mais elevada produzam efeitos mais significativos. Falta de informação e de acesso aos métodos de controle, além do baixo custo de formação do indivíduo, influenciam diretamente nas altas taxas de natalidade apresentadas.

Para as elites desses países, que poderiam realizar um controle mais efetivo das taxas de natalidade, alguns fatores tradicionais inerentes ao mundo islâmico fazem grande diferença. O islamismo permite a poligamia. No entanto defende que os homens que desejam ter mais de uma esposa devem preocupar-se com a possibilidade de sustentá-las, o que não é nenhum problema para os mais ricos. Permitindo que os homens tenham até quatro mulheres ao mesmo tempo, a poligamia tornou-se sinônimo de melhor condição social, ou seja, de que os homens que tem mais de uma mulher são mais ricos do que os que tem apenas uma.

A mesma lógica acabou sendo apropriada para os filhos. Ter muitos filhos tornou-se também um sinônimo de riqueza, de prosperidade. Um caso exemplar é o da família do terrorista Osama bin Laden. Muhammed Awad bin Laden, pai de Osama, nasceu pobre no Iêmen e migrou para a Arábia Saudita onde tornou-se um dos homens mais ricos e importantes do país. Casou-se e divorciou-se várias vezes tendo 10 esposas ao longo de sua vida. Com elas teve o total de 54 filhos, sendo Osama o único filho que Muhammed Awad teve com Hamida al-Attas, de quem divorciou-se logo após o nascimento do filho.

A soma desses fatores produz taxas de natalidade elevadíssimas no mundo islâmico. Afeganistão, Chade e Eritréia possuem taxas de mortalidades também elevadas, o que reduz o crescimento vegetativo que poderia ser bem maior caso essas mortalidades fossem do mesmo patamar da Arábia Saudita e do Catar. Nesses dois países, o crescimento vegetativo também é bastante afetado pela taxa de migração positiva, especialmente no Catar, que possui uma população absoluta menor. O fator de atração é o petróleo, cuja exploração atrai trabalhadores e negociantes do mundo inteiro.

Outro fator, que frequentemente é abordado na imprensa do Ocidente, é a existência de grupos religiosos islâmicos radicais que defendem a expansão da fé islâmica utilizando o crescimento populacional acelerado como estratégia para elevar o percentual de muçulmanos no planeta. É provável que alguns grupos defendam, de fato, essa estratégia mas não se deve atribuir tal lógica de forma generalizada a todos os seguidores do islamismo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

FORMAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO DA IUGOSLÁVIA

Em 1918, no final da primeira guerra mundial, a dissolução da monarquia dual austro-húngara deu origem a diversos estados nacionais, dentre eles o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos. Os tratados de Neuilly-sur-Seine, Saint Germaine-em-Laye, Trianon e Rapallo fixaram as fronteiras do país que seria transformado em Reino da Iugoslávia em 1929, com um sistema político autoritário comandado por Alexandre I.

Invadido e dominado em 1941 pela Alemanha, com o auxílio dos Ustaše (organização nacionalista croata de extrema direita), o reino virou palco de diversos conflitos internos que, segundo estimativas, mataram mais de um milhão de pessoas.

Os Ustaše eram favoráveis à invasão alemã pois tinham em sua base ideológica o objetivo de formar uma croácia etnicamente pura e foram postos no comando do Estado Independente da Croácia forjado pelos países do eixo após eles dominarem o Reino da Iugoslávia. O Conselho Antifascista de Libertação Nacional, grupo de orientação comunista, liderado por Josip Broz Tito, expulsou os alemães em 1944 e liquidou o Estado croata comandado pelos Ustaše.

Tito ainda enfrentou outra forte oposição durante a luta contra os alemães. A dos Chetniks, nacionalistas sérvios liderados por Draza Mihailovic, que apoiavam a monarquia. No entanto o grupo de Tito saiu vitorioso e formou-se, inicialmente, a Iugoslávia Democrática Federal. Seu nome foi alterado em 1946 para República Federativa Popular da Iugoslávia e em 1963 para República Socialista Federativa da Iugoslávia.

Tito lutou na primeira guerra pela infantaria do império austro-húngaro e foi feito prisioneiro na Rússia, onde entrou em contato com idéias comunistas. Fugiu da prisão, lutou pela revolução russa e retounou ao Reino da Iugoslávia, onde envolveu-se com o partido comunista e ficou preso por seis anos.

Em novembro de 1945, Tito assumiu o cargo de primeiro-ministro da Iugoslávia ocupando-o até janeiro de 1953 quando tornou-se presidente do país. Organizada sob a forma de uma federação, a Iugoslávia era formada por seis repúblicas e duas províncias autônomas pertencentes à república da Sérvia. Veja o mapa e a legenda:
1. Repúlica Socialista da Bósnia e Herzegovina
2. República Socialista da Croácia
3. República Socialista da Macedônia
4. República Socialista da Montenegro
5. República Socialista de Sérvia
5a. Província Socialista Autônoma do Kosovo
5b. Província Socialista Autônoma da Voivodina
6. República Socialista da Eslovênia

Trata-se de um barril de pólvora. De forma brilhante, o jornalista Norman Stone, da revista Newsweek, resumiu a situação da Iugoslávia de Tito na seguinte frase:

"A Iugoslávia tinha seis repúblicas, cinco povos, quatro linguas, três religiões, dois alfabetos e um partido - comunista."

As seis repúblicas correspondem às expostas no mapa acima. Os cinco povos correspondem aos sérvios, montenegrinos, croatas, eslovenos e macedônios. Não há um povo bósnio em termos de origem étnica. A república da Bósnia era habitada por sérvios, croatas e muçulmanos. As quatro línguas da Iugoslávia eram o servo-croata, o esloveno, o macedônio e o albanês (falado no Kosovo). As três religiões correspondem ao catolicismo romano, o catolicismo ortodoxo e o islamismo. O sérvios escrevem o servo-croata com o alfabeto cirílico enquanto os croatas usam os carcteres latinos.

Para sustentar a unidade nesse barril de pólvora, repleto de nacionalismos, Tito usou forte repressão policial contra os movimentos de contestação, e de um sistema político de autogestão que conferia grandes liberdades de decisão sobre as formas de produção aos trabalhadores. Uma inspiração anárquica que afastou o país de influências diretas da União Soviética.

Aliás, Tito, juntamente com Nasser (Egito) e Nehru (Índia), foi um dos maiores líderes e o primeiro secretário geral de um grupo de países que ficou conhecido como movimento dos não-alinhados, tendo organizado em Belgrado a primeira reunião de cúpula, em 1961. Buscava-se reduzir a vulnerabilidade em relação às superpotências da guerra fria. Existente até hoje, o grupo já foi comandado por diversos chefes de Estado como Nasser, Castro, Mandela, Mugabe e, atualmente, é comandado por Raul Castro. O último encontro de cúpula ocorreu em 2006, em Cuba.

Com carisma, habilidade política e repressão, Tito conseguiu conter os ímpetos nacionalistas durante o seu governo. Após sua morte, em 4 de maio de 1980, a presidência do país passou a ser colegiada, com rodízio na ocupação do cargo. No entanto, iniciou-se o complexo processo de desmembramento das repúblicas que compunham a Iugoslávia em função das tensões crescentes dentro do território.

Em 1991, Croácia, Eslovênia e Macedônia declaram independência. Sérvia e Montenegro uniram-se para formar uma nova Iugoslávia com o nome oficial de República Federal da Iugoslávia. Em 1992 seria a vez da Bósnia declarar sua independência. Então iniciam-se os conflitos armados.

Os sérvios presentes na Croácia e na Bósnia reivindicaram a incorporação do território por eles ocupado à nova Iugoslávia. Na Croácia, chegaram a fundar a República Sérvia da Krajina, que desapareceu em 1995. Na Bósnia, os sérvios opuseram-se aos croatas e muçulmanos em uma guerra civil sangrenta marcada pela prática de limpeza étinica dos dois lados. Os sérvios (católicos) matavam muçulmanos na Bósnia enquanto os croatas matavam minorias sérvias na Croácia.

Eslovênia e Macedônia, com pequenas minorias sérvias, não vivenciaram conflitos importantes no processo de separação. A situação da Bósnia foi resolvida com o Acordo de Dayton (1995) que transformou o país em uma confederação formada por uma república muçulmano-croata e uma república sérvia, separando territorialmente esses grupos.

Em maio 2006, os montenegrinos foram às urnas e 55,5% deles optaram, em um plebiscito, pela separação em relação à Sérvia. Com essa separação ficou concluído o processo de fragmentação das seis repúblicas que formaram a antiga Iugoslávia. No entanto ainda não está concluída a separação das províncias autônomas da Sérvia.

Na Vojvodina, a minoria de origem húngara exerce pressões contra o governo da Sérvia pela independência, no entanto a escala dessa reivindicação nacionalista pouco se aproxima da situação que se desenrolou no Kosovo.

Sendo a maioria da população do Kosovo de origem albanesa, a formação de uma Grande Albânia inspirou o movimento separatista na região. Em 1989, quando os kosovares celebravam os 600 anos da batalha do Kosovo, o então presidente da Iugoslávia, Slobodan Milošević, retirou a autonomia política da província, proibindo o ensino do albanês nas escolas, entre outras limitações.

Em 1991, os kosovares declaram uma independência que não foi reconhecida nem pelas Nações Unidas, portanto a Sérvia manteve suas tropas na região. Em 1996, o Exército de Libertação do Kosovo iniciou uma luta armada em oposição ao poder de Milošević e a Sérvia respondeu com massacres e deportações. Em 1998, a ONU proibiu a venda de armas para a Iugoslávia em função dos altíssimos níveis de violência atingidos no conflito.

Em 1999, a OTAN bombardeou a Sérvia, encerrando o conflito que já durava praticamente três anos. No início daquele ano entrava em vigor o Euro, moeda comunitária da União Européia. Uma moeda recente e frágil diante de instabilidades políticas. A Grécia e a Itália, países próximos ao Kosovo, adotaram a nova moeda. Essa proximidade do conflito com a zona do Euro motivou ainda mais a ação da OTAN, que tem diversos países europeus em seu quadro de membros.

Em fevereiro de 2008, os kosovares declararam sua independência, que não foi reconhecida pela Sérvia nem pela Rússia, principal aliada dos sérvios, mas foi reconhecida imediatamente pelos Estados Unidos e outros países. A declaração de independência coloca o novo país sob a supervisão internacional, proíbe-o de juntar-se com outro país e garante a proteção para as minorias étnicas. O processo ainda não possui o reconhecimento das Nações Unidas.
[Clique no mapa para ver as mudanças territorias em detalhes]

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O HORÁRIO DE VERÃO

Polêmico e controverso, o horário de verão tem sido implantado regularmente pelo governo brasileiro nos últimos anos dividindo opiniões na sociedade, pois há aqueles que são favoráveis e aqueles que são contrários à mudança de horário que começa, em geral, no mês de outubro e termina em fevereiro do ano seguinte.

O horário não é implantado em todo o país. Apenas dez estados e o Distrito Federal alteram os ponteiros de seus relógios adiantando-os em uma hora. Os dez estados são: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná (Região Sul); São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo (Região Sudeste) e Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (Região Centro-Oeste).

Os estados das regiões Norte e Nordeste não adotam o horário de verão pois neles não há mudança significativa no tempo de iluminação solar durante os dias dessa estação. Já nos estados mais distantes da linha do equador esse tempo de iluminação varia significativamente, com o Sol nascendo mais cedo e pondo-se mais tarde. Essa diferença no tempo de iluminação é provocada pela inclinação do eixo da terra associada aos movimentos de translação e rotação. Observe o esquema:


Note que em função da inclinação do eixo da terra o hemisfério sul está mais voltado para a direção de origem dos raios solares do que o hemisfério norte. Isso gera um tempo maior de exposição aos raios solares no hemisfério sul fazendo o sol nascer mais cedo e pôr-se mais tarde.

Perceba também que o pólo sul é iluminado quase constantemente e que, portanto, quanto mais distante da linha do equador maior é a diferença no tempo de iluminação. É por isso que os estados brasileiros mais próximos ao paralelo 0º não percebem variações significativas no tempo de iluminação e não adotam o horário de verão.

O Brasil é o único país equatorial que adota o horário de verão. No entanto isso só ocorre em função da grande extensão latitudinal (norte-sul) do país pois nenhum estado muito próximo ou cortado pela linha do equador adota o horário especial. Observe o mapa que mostra os países que adotam, já adotaram ou nunca adotaram o horário de verão.

Como se vê, em quase todo o mundo não-equatorial o horário de verão é ou já foi adotado. Isso ocorre porque ele possibilita uma economia de energia significativa nesse período do ano pois com o adiantamento de uma hora o dia escurece mais tarde retardando o acender das luzes.

Nos últimos anos o Brasil tem economizado de 5% a 6% de energia no período do horário especial. Parece pouco. No entanto trata-se de uma economia que se manifesta nas regiões de maior concentração populacional (Sudeste, Sul e Centro-Oeste) com mais de 120 milhões de habitantes, o que aumenta a importância dessa economia.

Porém, a mudança de horário altera o modo de vida da população que, primeiramente, precisa se adaptar ao novo horário. Uns conseguem uma adaptação mais rápida mas para outros o processo é lento. Há quem saia muito cedo de casa e a escuridão provocada no início do dia incomoda. Mas há quem goste da sensação de chegar em casa com o céu claro ou aproveitar a praia e o pôr do sol até mais tarde. Há várias outras razões para gostar ou não da mudança.

E você, leitor? Gosta ou não do horário de verão?

Abraços!


P.S.: Em 2011, o estado da Bahia também adotou o horário de verão.

sábado, 11 de outubro de 2008

O CONCEITO DE LUGAR

O conceito de lugar ganhou nova dimensão, que foge ao senso comum, quando visualizado pelas mais recentes correntes do pensamento geográfico: a geografia humanística e a geografia marxista, que viabilizaram um redimensionamento não só do conceito de lugar bem como de diversos outros conceitos fundamentais da geografia.

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Em sua nova visão, o lugar ganha em abrangência de significado deixando de ser compreendido apenas como um espaço produzido, ao longo de um determinado tempo, pela natureza e pelo homem, para ser visto como uma construção única, singular, carregada de simbolismo e que agrega idéias e sentidos produzidos por aqueles que o habitam.

Muito além de um espaço físico, de uma paisagem repleta de elementos e de referências peculiares passíveis de descrições objetivas e racionalizadas, o lugar, na visão humanística, constitui-se como uma paisagem cultural, campo da materialização das experiências vividas que ligam o homem ao mundo e às pessoas, e que despertam os sentimentos de identidade e de pertencimento no indivíduo. É, portanto, fruto da construção de um elo afetivo entre o sujeito e o ambiente em que vive.


Inicialmente, o lugar foi definido por Aristóteles como o espaço que circunda o corpo. Descartes, buscando elaborar o conceito aristotélico, afirma que a determinação do lugar deve obedecer à relação da posição do corpo com a posição dos outros corpos. A dialética marxista identifica na apropriação capitalista do espaço um processo de personalização dos lugares que, simultaneamente, reconstroem suas singularidades e expressam o fenômeno global em curso nos últimos séculos.

Apesar das singularidades dos diversos lugares, crescem, especialmente em função da expansão das redes de comunicação e de transportes que vivenciam franca aceleração no mundo contemporâneo, as interações entre os lugares, embora hierarquizadas de acordo com suas infra-estruturas logísticas conectoras.

Portanto, o conceito de lugar amplia-se profundamente diante das novas visões desenvolvidas por aqueles que se debruçaram sobre ele mediante as perspectivas marxistas e humanísticas da geografia recente. Expressando singularidade e globalidade, e materializando a construção de identidades individuais e coletivas, o lugar passa a representar muito mais do que um espaço que circunda o corpo.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A LEI SECA

Em 19 de junho de 2008 entrou em vigor a Lei 11.705 que ficou conhecida como "lei seca". Ela considera autor de uma infração administrativa o motorista que dirigir sob a influência de álcool, considerando como tal, qualquer concentração de álcool por litro de sangue (artigos 165, c/c o 276), sujeitando-o a uma multa de R$ 955 e suspensão da habilitação para dirigir por um ano; e crime, com pena de seis meses a três anos, se essa quantidade encontrada for igual ou superior a 0,6 (6 decigramas por litro de sangue) ou 0,3 mg/l de ar expelido.


Fonte: http://migre.me/5AEVt

Na prática, há muito tempo é proibido dirigir alcoolizado. A mudança real que a Lei seca impõe é a punição mais rigorosa para os motoristas flagrados cometendo essa infração e o aumento da fiscalização. E é acompanhada de outras medidas como a proibição da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias feredais, exceto nas áreas urbanas, e a um tratamento mais rigoroso às lesões culposas de trânsito. O objetivo da aprovação da lei é minimizar os acidentes de trãnsito que, segundo as estatísticas da Polícia Rodoviária Federal e do Denatran, tem como uma das principais vilãs a combinação entre álcool e direção. São mais de 50 mil mortos em acidentes por ano no país.

No entanto os limites impostos e o rigor da punição geraram polêmica. Alguns juristas acreditam que a interpretação de que o novo crime de embriaguez ao volante, constitui crime de perigo abstrato, é inconstitucional por ser desarrazoável, assim como, a infração administrativa (multa e suspensão) aplicada para quem dirigir e tiver consumido qualquer quantidade de álcool. A sociedade se sente desestimulada a cumprir a lei devido ao seu rigor considerado extremo, já que em alguns casos, um simples doce com licor pode produzir o nível de álcool proibido aos motoristas.

Há, portanto, um desafio a ser encarado pelo governo e pela sociedade. Mas é importante destacar que, independentemente de medidas severas ou não, é preciso conscientização da população contra os excessos que podem causar as tragédias que, infelizmente, nos acostumamos a presenciar diariamente no Brasil.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

PROVA DA UERJ/2009 - 1º EXAME - COMENTÁRIOS

Quem esperava a chegada da família real portuguesa como tema da prova de ciências humanas deste primeiro exame de qualificação da UERJ-2009, decepcionou-se. No entanto, quem apostou no ano de 1968 e suas relações com a ditadura militar no Brasil, certamente sorriu ao encontrar este tema logo na primeira questão da prova.

Mais equilibrado na distribuição dos conteúdos do que os anteriores, este primeiro exame continuou trazendo mais questões de geografia do que de história, no entanto a interdisciplinaridade foi bem mais clara. Além disso, a prova foi marcada pela presença de questões que cobraram conhecimentos de atualidades.

Questão 44 – Gabarito: A

Em 1968, cresceu o movimento de resistência civil nas grandes cidades brasileiras contra a repressão da ditadura militar então comandada pelo general da “linha dura” Artur da Costa e Silva. Manifestações estudantis e greves como as de Contagem (MG) e Osasco (SP) são exemplos de mobilizações populares que simbolizam os choques com as forças da repressão da época, e que tiveram como auge a passeata dos cem mil, no Rio de Janeiro, onde intelectuais e artistas uniram-se ao povo contra a violência da ditadura. A resposta do governo a esses movimentos veio através do Ato Institucional 5, de 13 de dezembro de 1968, que fechou o Congresso Nacional, cassou direitos políticos, instituiu a censura e a execução de inquéritos militares sigilosos que ajudariam a mascarar a prática da tortura, entre outros fatores.

Questão 45 – Gabarito: D

A questão trás um texto que aborda a situação de pessoas que fazem um movimento migratório de ida e volta com duração de seis meses, que caracteriza-se como transumância, que é um movimento sazonal associado, geralmente, ao calendário agrícola. Nos períodos entre as safras, a população busca outras fontes de trabalho e renda deslocando-se para áreas agrícolas em produção ou para centros urbanos. Não é um movimento uniforme e não é, exatamente, compulsório pois estes, em geral, são aqueles impostos por guerras ou perseguições. Também não é um movimento pendular que caracteriza-se por ser diário ou de curta duração. O uso, no texto, da expressão “seis meses lá, seis meses cá” deixa claro o caráter sazonal do movimento.

Questão 46 – Gabarito: B

O combate à entrada dos trabalhadores ilegais é uma das principais causas do aumento das restrições para a imigração de pessoas dos países periféricos para os países centrais. A recente crise diplomática entre Brasil e Espanha é um dos símbolos deste processo e foi gerada pela proibição da entrada de alguns brasileiros naquele país. O candidato que esteve atento a esta questão, que ganhou amplo espaço na mídia, não teve dificuldade de encontrar a resposta certa.

Questão 47 – Gabarito: A

Para responder essa questão bastavam algumas noções básicas de cartografia como o conhecimento dos pontos cardeais e a idéia de que um mapa é uma representação plana da Terra, que é arredondada. O texto da questão sugere que os mapas sempre produzem distorções, o que serviria como um alerta para que o aluno não medisse as distâncias a partir do modo aparentemente mais fácil. Partindo de A em direção a B, o avião deveria seguir para Leste, passando pelo anti-greenwich. De B para C, deveria seguir para Norte e de C para D, novamente cruzar o anti-greenwich, mas dessa vez seguindo em direção ao Oeste. As rotas seriam, portanto: Leste – Norte – Oeste.

Questão 48. Gabarito B.

Exigindo bastante interpretação e poucos conhecimentos históricos, esta questão, que abordou a evolução da definição das zonas de jurisdição marítimas brasileiras, destacava no texto que o Brasil delimitou seu mar territorial – espaço oceânico em que as embarcações internacionais só navegam com autorização – de maneiras diferentes, de acordo com as épocas em questão. Nos anos 1970, época dos militares no poder, o Brasil definiu como mar territorial a faixa oceânica de 200 milhas marítimas além do seu litoral. Já nos anos 1980/90, o mar territorial regrediu para apenas 12 milhas, sendo que as 188 restantes passaram a formar a chamada Zona Econômica Exclusiva, onde apenas o país costeiro pode realizar atividades econômicas, no entanto a navegação é liberada. Nos anos 1970, o caráter unilateral e nacionalista das decisões da ditadura combina com a definição como posse territorial dessa grande faixa oceânica. Já nos anos 1980/90, a participação do país no acordo internacional da ONU, que teve o Brasil como sede e redefiniu as zonas de jurisdição marítimas, demonstra a disposição do país para integrar-se aos sistemas multilaterais de decisão na esfera mundial.

Questão 49. Gabarito: C

A maior parte dos Estados Nacionais Europeus dos dias atuais formou-se a partir da centralização do poder político antes fragmentado em condados, ducados, principados e domínios eclesiásticos, comandada por aristocratas locais, com leis e exércitos próprios, e uma vida autônoma orientada por elementos que definem identidades nacionais como a língua e os hábitos culturais afins. Dessa centralização surgem os Estados Territoriais, tendo no Absolutismo sua moldura jurídica e política, que tornava o monarca a fonte de toda a soberania. A Revolução Francesa marca o nascimento do Estado Nacional contemporâneo em que o poder emana do povo, e a doutrina dos três poderes de Montesquieu constituiu sua moldura jurídica e política adotada por muitos países até os dias atuais. A Bélgica surgiu da unificação dos povos da Valônia e de Flandres, que possuem línguas e hábitos diferentes. Os antagonismos internos são reforçados principalmente pelos valões que ressentem-se do predomínio econômico da região de Flandres. No entanto, como o texto da questão destaca, a participação do país na União Européia cria a sensação de pertencimento a uma comunidade multicultural e multilíngüe, o que ajuda a reduzir as tensões internas. Além disso, a substituição da estrutura de Estado Unitário – que não permite autonomias regionais – pela estrutura federativa de poder, garantiu mais autonomia política às regiões, o que também contribuiu para diminuir as disputas internas.

Questão 50. Gabarito: B

O texto da questão deixa claro que trata-se da associação do capital da indústria farmacêutica a fim de evitar a concorrência externa no mercado brasileiro. Mencionando estratégias como o controle de preços, o texto aponta para a formação de Cartéis como prática comercial condenável que permite às grandes corporações transnacionais da atualidade o controle dos mercados em escala planetária.

Questão 51. Gabarito: B

A resolução desta questão depende, basicamente, da atenção do candidato aos acontecimentos que marcaram as eleições recentes no Quênia. Mencionando que o continente africano é um espaço de múltiplos conflitos desde o século XIX, e que viveu “alguns ensaios de democracia”, o texto deixou um indício que apontava para a presença de disputas eleitorais, como as que culminaram em atos violentos no início de 2008 no território queniano.

Questão 52. Gabarito: B

Ampliando o painel das questões que exigiram o acompanhamento dos problemas atuais, esta questão pede que o aluno aponte as principais causas para a intensa renovação da frota automobilística das metrópoles brasileiras, que tem provocado graves congestionamentos nessas cidades. A maior oferta de crédito pode ser observada diariamente nos anúncios de veículos das automobilísticas, antes vendidos em no máximo 48 prestações e, atualmente, vendidos em 60 ou 72 prestações, chegando em alguns casos, a até 84 prestações, fenômeno impulsionado pela redução das taxas de juros. O aumento no nível de emprego e a expansão da renda das camadas médias eleva o poder de compra da população, que diante do crédito mais fácil e das prestações “à perder de vista” conseguem financiar seus automóveis particulares de passeio.

Questão 53. Gabarito: A

A América Latina vive um momento de crítica ao neoliberalismo que manifesta-se através da emergência de lideranças populares ao poder político. Como uma das principais bases do neoliberalismo nos países periféricos é a política de privatizações, o atual movimento político regional busca caminhar na direção contrária, fato que tem como um de seus símbolos a estatização dos recursos naturais feita recentemente pelo governo de Evo Morales, em primeiro de maio de 2006.

Questão 54. Gabarito: A

A reforma bancária estabelecida pelo então Ministro da Fazenda, Rui Barbosa, ficou conhecida como política do Encilhamento. Ela destinava-se a fornecer maior linha de crédito para a expansão das atividades econômicas e permitiu o financiamento das produções e da compra de ações de empresas antigas ou novas. As garantias dos empréstimos vinham do governo federal, fato que estimulou a atividade especulativa e a criação de diversas empresas desconsiderando as demandas do mercado interno. Como conseqüência, os cofres públicos foram esvaziados, a inflação cresceu e empresas e bancos faliram. Ou seja, o encilhamento provocou uma crise econômica generalizada.

Questão 55. Gabarito: D

A tentativa de resolver essa questão simplesmente através da análise do gráfico pode levar o candidato ao erro. O aluno deve buscar o raciocínio lógico para compreender que com o tempo ocorre aumento no volume total de lixo produzido associado ao crescimento do consumo de bens industrializados, o que explica as modificações na composição do lixo. Cabe ao aluno deter a percepção histórica da evolução gradual dos trabalhos de coleta seletiva e de reciclagem na sociedade atual.

Questão 56. Gabarito D

Para o aluno responder essa questão bastava a noção de que o governo de JK foi marcado pela idéia de desenvolvimentismo, expressa em seu lema: “desenvolver o Brasil 50 anos em 5”, e compreender que os governos militares, especialmente os de Costa e Silva, Geisel e Médici foram marcados pelo autoritarismo da ditadura em sua versão “linha dura”.

Questão 57. Gabarito D

Uma rede urbana mais complexa é aquela que abarca cidades com níveis de urbanização e desenvolvimento diferentes. Tal complexidade é maior na região Sudeste, não se restringindo, todavia, aos estados que possuem metrópoles nacionais. É no Sudeste onde a agricultura possui o mais intenso processo de capitalização marcado pela mecanização e pela modernização tecnológica.

Questão 58. Gabarito C

Com a criação da OPEP, em 1960, começam a surgir as primeiras dificuldades para as empresas que controlavam a cadeia do petróleo no planeta. Em razão disso começam as primeiras iniciativas em busca da obtenção de energias alternativas. Com as crises do petróleo dos anos 1970, a produção de energia nuclear cresce como alternativa ao encarecimento do petróleo, e viabilizada, em parte, pelo conhecimento obtido em função da corrida armamentista de caráter nuclear polarizada pelos Estados unidos e pela União Soviética, no período da guerra fria.

Questão 59. Gabarito B

Multiplicam-se hoje as atividades não-rurais nos espaços tradicionalmente agrícolas. Esse processo termina por conceber uma urbanização do espaço rural dentro da perspectiva em que tais espaços, com funções tipicamente rurais, passam a assumir novas funcionalidades tipicamente urbanas, como espaços de comércio ou centros comerciais, espaços turísticos voltados para o desfrute dos ambientes naturais entre outros fatores.

Questão 60. Gabarito A

A charge complementada pelo texto do professor Milton Santos aponta para o fenômeno globalizador revelando uma de suas contradições. Segundo Santos, a globalização propaga a fábula de que o mundo inteiro está integrado pelos novos mecanismos de comunicação. De fato os fluxos financeiros internacionais são cada vez mais integrados e globalizados, no entanto essa realidade não abarca toda a população mundial. Apenas a pequena parcela da população que possui acesso aos elementos do meio tecnocientífico-informacional está realmente integrada à essa grande rede, fato que revela a existência de um processo de polarização social dentro do fenômeno globalizador, e essa seria a sua face perversa, o revés da fábula. Para eliminar essa contradição, Milton propõe uma globalização mais humana, pautada no princípio de solidariedade entre os povos.

domingo, 31 de agosto de 2008

TERCIARIZAÇÃO E INFORMALIDADE

O mundo contemporâneo, inserido num contexto de difusão dos componentes do meio tecnocientífico-informacional, é palco de transformações criadoras de uma relação simbiôntica entre tecnologia, produção e trabalho. A distribuição setorial da população economicamente ativa nos países centrais e semiperiféricos manifesta-se, em meio a outros efeitos, como reflexo dessa simbiose entre os elementos aludidos.

Os incrementos tecnológicos da economia moderna caracterizam novas formas de produção onde se implementam máquinas e robôs no processo produtivo, tanto no setor primário, que cuida da produção de matérias-primas, quanto no setor secundário, que cuida da produção industrial. A mecanização das lavouras e criadouros responde pela liberação de um enorme contingente ocupado no setor primário. Substituída por tratores, máquinas de ordenha entre outros equipamentos, a mão-de-obra perde seus postos de trabalho sendo obrigada a buscar ocupação na indústria ou no setor terciário, que cuida do comércio e dos serviços em geral.

No entanto, o setor secundário também vivencia um processo de liberação de mão-de-obra associado à automação das atividades produtivas, com a introdução de robôs de alta precisão nas linhas de montagem. A indústria, que empregava um grande volume de trabalhadores portadores de baixa qualificação, agora demanda poucos operários e exige maior qualificação para a manipulação dessas máquinas complexas. Aos trabalhadores que perdem seus postos de trabalho, no campo e na indústria, resta o setor terciário como alternativa de sobrevivência. E é nesse contexto que se manifesta o processo de terciarização da economia.

As economias consideradas periféricas não participam ainda desse processo pois a maioria de sua população economicamente ativa (PEA) está ocupada no setor primário. Falo aqui de países como as “Repúblicas das Bananas”, na América Central, e países africanos em geral, exceto a África do Sul. Todavia as economias semiperiféricas e centrais estão totalmente inseridas nesse processo de terciarização, pois já experimentaram ou continuam a experimentar o processo de transferência setorial da PEA.

Estados Unidos, Canadá, Austrália, Grã-Bretanha, França, Bélgica e economias semelhantes formam um conjunto de países centrais onde o setor terciário já emprega mais de 70% da PEA. Alemanha e Japão, que ainda guardam mais empregos na indústria, já possuem mais de 60% da PEA no terciário. Estes espaços configuram “Economias pós-industriais”. E mesmo com essa alta concentração o nível de desemprego não é muito alto, embora haja desempregados, elemento essencial para a sobrevivência do capitalismo.

Isso se justifica pelo fato de a população possuir maior poder aquisitivo, o que alimenta a multiplicação dos serviços nesses países. As bolsas de valores, engenharia genética, laboratórios de pesquisas, empregam muitas pessoas. Serviços extremamente supérfluos geram renda para muita gente. Explico. Uma das novas manias do Central Park, em Nova Iorque, é a prática de Yoga para cães. Alguém ganha dinheiro dando aulas de Yoga para Cães! Investigando o assunto descobri que psicólogos (?) fazem terapia em animais... Esses são serviços que não encontram espaço nos mercados dos países semiperiféricos.

Brasil, Argentina, México, África do Sul e outras economias similares formam um conjunto de países onde mais de 50% da mão-de-obra está ocupada no setor terciário. No entanto, o poder aquisitivo bem mais restrito nesses países, gera uma demanda menor por serviços fazendo com que haja menor oferta de empregos neste setor, que se apresenta, portanto, hipertrofiado. Com o setor terciário formal inchado, resta a opção da informalidade para a produção da subsistência da população.

Em 1979, o geógrafo brasileiro Milton Santos, tido por muitos como “Filósofo da Geografia” pela profundidade das suas idéias, lança o livro “O Espaço Dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos”. Esta obra, rapidamente, se tornou um clássico da geografia mundial. Nela, Milton apresenta uma análise onde a engrenagem da economia urbana dos países subdesenvolvidos caracteriza-se por ser dotada de um circuito superior, de caráter formal, e um circuito inferior, de caráter informal, que reflete esse quadro de hipertrofia do terciário. É notável a expansão do setor terciário informal, esse circuito inferior da economia urbana, nos países semiperiféricos.

O Brasil serve como exemplo clássico desse processo. As grandes metrópoles, superlotadas, concentram um enorme contingente de mão-de-obra disponível e o excesso engrossa as fileiras de ambulantes e biscateiros de todos os tipos. Cada um faz o que sabe ou o que pode fazer. Quem tem conhecimentos de mecânica, conserta carros. Quem tem habilidades com manutenção, trabalha em obras, mexe com hidráulica, eletricidade, gás... Quem não sabe fazer esses serviços, vende o que aparecer pela frente. Água, cerveja, biscoito, pipoca, chocolates, balas. Vi, certa vez, um sujeito vender Novalgina no trem, em meio a dezenas de produtos. Multiplicam-se os camelôs nas ruas e nos meios de transporte. Manifestações artísticas nos sinais, desde os meninos equilibrando limões até os mais elaborados manuseios de malabares em chamas, também entram como modo informal de obtenção de renda.

Minha reflexão final é inspirada em Milton, que em sua obra “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, entre outras abordagens, escancara “o mundo como é: a globalização como perversidade”. “(...) O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos progressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a corrupção. A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização“.

Um abraço solidário!

Referências: Santos, Milton; Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro. Record. 2001.

sábado, 30 de agosto de 2008

OS BURROS SEM RABO

Os burros sem rabo, como são chamados no Rio de Janeiro, são pessoas que sobrevivem da coleta de lixo urbano reciclável (papel, papelão, latas de alumínio, garrafas PET etc.). Eles transportam esse lixo em carrinhos de mão feitos, em geral, de estruturas de ferro ou madeira, armadas sobre rodas. Embora a função seja importante, pois eles fazem a coleta seletiva que a população não faz, reduzindo o volume de lixo nas ruas, os burros sem rabo são seres socialmente invisíveis.


Fonte: http://www.flickr.com/photos/alexnj/999425932/

Pesquisas recentes comprovam que existe uma "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se não a pessoa mas a função social que ela ocupa. Um psicólogo da USP fingiu ser gari por oito anos dentro da universidade e não foi notado pelos próprios colegas de departamento enquanto vestia o uniforme de gari. Quando vestia suas roupas comuns ele era visto pelas pessoas. Os garis são seres socialmente invisíveis assim como os burros sem rabo.

O cineasta Sérgio Bloch lançou, em 1997, um documentário com o título "Burro sem rabo", abordando exatamente a questão do trabalho dessas pessoas nas ruas do Rio de Janeiro. Com seus carrinhos de mão eles transportam lixo para depósitos que recebem esses materiais e revendem para reciclagem. O desemprego é uma das razões que colocam o Brasil na lista dos campeões de reciclagem. Esses trabalhadores informais, por falta de opção, se inserem nesse meio e contribuem para esse processo.

Mas nem sempre são só adultos que participam dessa rede de transportadores informais de lixo reciclável. Com alguma frequência são encontradas crianças trabalhando nesse ramo. "Bilu e João" curta-metragem diretora brasileira-estadunidense Kátia Lund, que integra o projeto "All the invisible children" - "Crianças invisíveis", mostra a realidade de duas crianças que saem pelas ruas de São Paulo juntando latas e papelão para vender e, com o dinheiro, comprar tijolos para a reforma da casa onde moram, em uma favela da periferia da cidade. Bilu e João são burros sem rabo, crianças invisíveis que refletem a desigualdade social do país.

Veja neste link o filme de Kátia Lund.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

BUSH, CHAVEZ, BRASIL E BIOCOMBUSTÍVEIS

O Brasil recebeu no dia 07 de março de 2007 a visita do presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush. O encontro dele com o presidente Lula, ocorrido na cidade de São Paulo, teve foco na questão energética, principalmente no que se refere à produção brasileira de etanol, à tecnologia, também brasileira, de produção desse combustível e nos contratos a serem firmados com o objetivo de garantir a exportação desse etanol para o mercado norte-americano.

Veja alguns detalhes do acordo fechado entre Brasil e Estados Unidos:

O Brasil produzirá bilhões de litros de etanol nos próximos anos. Do total, 20% serão voltados exclusivamente para o mercado interno e os 80% restantes poderão ser exportados para qualquer lugar do mundo. Mas Bush veio ao Brasil garantir que 60% do percentual exportável serão vendidos para o mercado americano. Ou seja, 48% de toda a produção nacional de etanol irão direto para os reservatórios nos Estados Unidos.

Com as alterações que devem ser processadas nos padrões de abastecimento dos veículos norte-americanos, ou seja, a adição de etanol na gasolina, algo que já ocorre no Brasil, certamente o mercado americano precisará da produção brasileira. Afinal, sua assustadora frota, com quase 240 milhões de veículos, é aproximadamente 12 vezes maior que a brasileira, com 21 milhões.

Com este acordo, os americanos garantem uma reserva de mercado e uma forte capacidade de controle sobre a produção e, automaticamente, sobre seus preços. Esse foi o principal objetivo desta visita. Sobre a questão das tarifas impostas para entrada do produto na alfândega americana, George W. Bush foi taxativo ao dizer que as barreiras não cairiam nos próximos anos de seu governo.

Este protecionismo americano, embora prejudique a indústria brasileira da cana-de-açúcar ao restringir seu acesso ao mercado estadunidense, evita o aumento dos preços dos derivados da cana vendidos no Brasil, pois se os americanos abrissem o mercado, seu consumo geraria uma demanda muito alta, que a produção brasileira não seria capaz de suprir. A consequência seria a pressão sobre os preços do etanol para o Brasil, gerando inflação e elevação do custo de vida no país, especialmente nas áreas metropolitanas onde é maior a presença de veículos.

O presidente venezuelano Hugo Chavez, que é radicalmente contra a produção de energia através de alimentos, aponta os biocombusíveis como uma das principais causas da fome no planeta. Principalmente por conta do modelo americano que produz o etanol a partir do milho e não da cana-de-açúcar, como faz o Brasil. O uso de gêneros agrícolas como fonte de energia reduz a disponibilidade dos produtos para o consumo alimentar, agravando a situação da fome no planeta, principalmente para os mais pobres, que perdem o acesso aos produtos quando eles ficam mais caros.

É claro que a fome é um dos piores problemas que assolam a humanidade. Contudo ela tem sua raiz mais profunda na desigualdade da distribuição dos alimentos. A atual capacidade de produção global de alimentos poderia produzir o suficiente para matar a fome de muitas pessoas. No entanto as altas margens de lucros dos empresários do agronegócio e as dificuldades comerciais geradas pelo protecionismo excessivo e pelos altos subsídios dados aos produtores dos países centrais, impõem a concentração do capital nesses países. E essa desigualdade da distribuição de capital se reflete no acesso aos alimentos, que é precário nos países mais pobres.

Os biocombustíveis possuem vantagens importantes como a redução da dependência mundial em relação ao petróleo ao permitir a produção energética através da cana-de-açúcar, para o etanol, e através da mamona e do dendê, para a produção do Biodiesel. Talvez esteja nesse ponto o receio de Chavez quanto aos biocombustíveis já que a Venezuela tem o petróleo como principal fonte de riqueza. É possível extrair benefícios econômicos e sociais de um programa como o do Biodiesel, indo além da redução da poluição.

Esse programa pode estimular a desconcentração fundiária favorecendo o desenvolvimento das pequenas propriedades de caráter familiar. No Brasil, é baseado em estruturas de cooperativas de trabalho que podem gerar milhares de empregos no campo, contendo as migrações rural-urbanas. Além disso, o programa permite o foco nas regiões mais pobres como o Nordeste brasileiro, onde a mamona e o dendê se desenvolvem com alguma facilidade.

Nesse sentido, um programa de produção de energia através de alimentos pode ser positivo e coerente com os anseios da humanidade se implantado de modo que colabore com a redução de tensões sociais no campo e na cidade, com o controle dos impactos ambientais e com o desenvolvimento econômico e social das regiões mais pobres do planeta, permitindo maior acesso a renda e viabilizando a ampliação da segurança alimentar nessas regiões.

domingo, 11 de maio de 2008

ASSOCIAÇÕES DE CAPITAL

Esta postagem é pra divulgar um vídeo muito bom que trata do tema associações de capital. As definições de Cartel, Truste Horizontal e Vertical, Holding e Dumping estão expostas de maneira bem clara e didática. A trilha sonora é pesada. A música é Killing in the name of e é da banda Rage Against The Machine. São quatro minutinhos. Vale a pena conferir.

video

Abraços!

domingo, 20 de abril de 2008

O NACIONALISMO DOS QUEBECOIS

Como resultado da Guerra dos Sete Anos, os franceses perderam vastas extensões de terras na América do Norte para os ingleses que passaram a colonizar a região. Não bastassem os conflitos que envolveram esses dois países na Europa, a rivalidade deixou marcas, percebidas até os dias atuais, fora do continente de origem, especialmente no Canadá.

Mesmo depois da derrota naqueles idos do século XVIII, mais de seis mil franceses permaneceram em solo canadense submetendo-se ao domínio inglês. Concentrados na atual província de Quebec, eles resistiram à dominação cultural e religiosa, mantendo o uso da língua francesa e preservando o catolicismo, em oposição ao uso da língua inglesa e ao protestantismo anglicano disseminados naquele território.

Em 1960 os seis mil franceses já tinham se transformado em mais de seis milhões correspondendo a aproximadamente 80% da população de Quebec. Em 1977, o idioma francês foi adotado como oficial nas escolas, na atividade comercial e na administração local, na época sob o comando do separatista Partido Quebequense. Em 1980 foi proposta uma associação soberana para Quebec com unidade monetária e aduaneira, descartando a idéia de uma separação unilateral, no entanto o plebiscito realizado naquele ano rejeitou tal proposta por 59,5 contra 40,5% dos votos.

Em 1994, o governador eleito Jacques Parizeau, membro do Partido Quebequense, assumiu o compromisso de converter Quebec num Estado soberano. Por solicitação do partido um novo plebiscito foi realizado no dia 30 de outubro de 1995, no entanto a separação foi rechaçada por 50,5 contra 49,5% dos votos. Mesmo com essa expressiva votação a favor da separação a ameaça de secessão quebequense retrocedeu em 1996 diante da transferência de poderes feita pelo governo central às províncias com intuito de minimizar as tensões separatistas no país.

Contudo, é comum o fortalecimento desses movimentos separatistas quando o país se encontra em contexto de crise econômica. As crises atingem de forma mais negativa os quebecois e não há nada que impeça a evolução desse processo separatista já que a questão não está plenamente resolvida. A qualquer momento um novo plebiscito pode ser proposto e o resultado pode ser diferente.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

RORAIMA: NOVA FRONTEIRA AGRÍCOLA

Em meados do ano passado comecei uma aula sobre a Amazônia de maneira um tanto inusitada. Cheguei pontualmente às sete horas da manhã de uma terça-feira em Niterói, juntamente com o amigo Simas, e entrei em sala sem sequer dar um bom dia. Turma já razoavelmente cheia, eu senti uma vontade enorme de dizer as primeiras palavras recitando o seguinte poema de Mário de Andrade:

.......................

Descobrimento.

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friume por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido,
Com o livro palerma olhando pra mim

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
[Muito longe de mim]
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro, de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou. Está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu...

.......................

Anunciando de maneira poética que o espaço que seria nosso objeto de estudo naquele dia era dotado de distanciamento profundo em relação à nossa realidade, apesar de se tratar de Brasil. Era isso que eu estava fazendo.

No final da aula fui procurado por uma aluna que disse ser do estado de Roraima e que estava no Rio para estudar. Ela veio me dizer que sentiu repetidas vezes esse distanciamento na pele. O Brasil que vemos na mídia é o Brasil do Centro-Sul e do litoral do Nordeste, no máximo. Se dependesse do Manoel Carlos, só conheceríamos o Leblon. O povo de Roraima não se vê como parte desse Brasil retratado nos meios de comunicação. A aluna me disse que, quando falava para as pessoas que viria para o Rio, ouvia várias vezes a seguinte questão:

“Ih! Você vai pro Brasil?”.

Eu pergunto: o que é isso? Como é possível? Mas será que eles estão errados?

Isso, ao meu ver, é o retrato da nossa ignorância em relação a essa região que há alguns anos não era sequer considerada um estado e sim apenas um território federal. Confundido com Rondônia de maneira execrável e comum, Roraima é um lugar que não recebe a mínima atenção da suprema maioria dos brasileiros. E é por repúdio a essa falta estúpida de senso de brasilidade que hoje estamos aqui pra falar de Roraima.

Além disso, registro também, as saudades de um grande amigo de infância, suburbano como eu, nascido num miolo entre Vila da Penha, Vista alegre e Irajá, cujo sonho de tornar-se piloto de caça da Força Aérea Brasileira, eu vi tornar-se realidade. Hoje, o tenente-aviador Ferry, meu amigo Daniel Simões, está em Roraima a trabalho, voando os céus de Boa Vista, Amajari, Bonfim, Caracaraí, Iracema, Normandia, Rorainópolis e Uiramutã, onde fica o Monte Caburaí, ponto extremo ao norte do Brasil. Tudo isso depois de casar-se com a querida amiga Marina.

Falaremos de Roraima no tocante ao avanço da fronteira agrícola no estado. Mas, antes, vamos a uma breve introdução ao processo de expansão da fronteira agrícola em âmbito nacional.

A capitalização das relações de produção no campo brasileiro é um processo iniciado no fim da década de 1950, estabelecendo-se mais claramente no período entre as décadas de 1960 e 1970. Entende-se por capitalização das relações de produção no campo a chegada de recursos técnicos que contribuem para a elevação da produtividade das atividades rurais. Todo tipo de insumos (fertilizantes, pesticidas, sementes especiais, máquinas) passa a ser utilizado no campo capitalizado do Brasil.

Esse processo, no entanto, apesar dos benefícios gerados pelo aumento da produtividade, foi bastante nocivo a uma grossa parcela de pequenos e médios proprietários rurais. Na maior parte dos casos os produtores foram à falência por endividamento com o sistema de crédito bancário.

Com a chegada da modernidade, os agricultores buscaram adquirir os insumos para implantar nas suas produções, objetivando melhorar a qualidade e aumentar a quantidade dos seus produtos. Contudo, a compra das novidades, em geral, se processa através de crédito bancário, já que a maioria dos produtores não tem dinheiro suficiente pra bancar sozinhos a compra desses insumos, que eram importados. Nesse contexto, eles passam a produzir com um risco muito maior, pois, de maneira geral, a garantia de pagamento do empréstimo era feita com a hipoteca da terra. Se o agricultor não pagasse a dívida, perdia sua propriedade. Em muitos casos, foi exatamente isso o que acabou acontecendo, gerando mais concentração fundiária do que já havia no Brasil.

A política agrícola nacional, nesse período entre as décadas de 1960 e 1970, também estimulou a concentração de terras, principalmente na região Sul do país. Lá, a produção era voltada para o mercado interno (celeiro do Brasil), o que ia de encontro com a política do “Exportar é o que importa”. O governo queria que aquelas terras produzissem para mercado externo. Então, forçou o endividamento dos produtores que acabaram falindo em, parte dos casos. Suas terras, depois de controladas por empresas agrícolas, passaram a produzir para mercado externo, como desejava o governo.

Esses agricultores foram conduzidos ao interior do Brasil, acelerando o processo de expansão da fronteira agrícola. Apesar do latossolo ácido que caracteriza o Cerrado, e que precisa de correção pela calagem, os preços da terra eram tão baixos que atraíram vários produtores que foram tentar a vida no interior do país. É bastante comum encontrar em estados como Mato Grosso, Goiás e Rondônia, pessoas que descendem de colonos imigrantes que haviam se instalado na região Sul. Sobrenomes como Vebber, Nucci, Scheidt, Pizzonia, entre outros presentes na região, comprovam essa ascendência européia.

E assim, nos últimos 30 anos, as lavouras de soja, milho, algodão e girassol, entre outras, se expandiram, dominando a paisagem amarelada do Cerrado. E essa expansão continua, avançando perigosamente sobre a orla do domínio amazônico, acelerando o processo de desmatamento.

Porém esse crescimento vem atingindo recentemente outros espaços menos comentados como o estado de Roraima. Com apenas 15 municípios, uma capital com aproximadamente 250 mil habitantes e com terras muito baratas, aumenta a cada dia o número de pessoas que buscam seu eldorado nesse trecho de Brasil que está entre 0º e 5º de latitude no hemisfério norte. Para que se tenha uma idéia de preço, em Roraima, na periferia de Boa Vista, o valor das terras em 2002 era de aproximadamente R$ 50 por hectare, enquanto em Rio Verde/GO o valor chegava a R$ 12.000. A acelerada valorização de Roraima fez com que os preços no final de 2005 atingissem a casa de R$ 1.000 por hectare, o que, no entanto, ainda é uma pechincha perto de Rio Verde.

Apesar da latitude equatorial, a paisagem é o Lavrado, forma regional de denominação do Cerrado. Uma espécie de capim ralo chamado ‘furabucho’, que predomina na paisagem, permite que o plantio seja feito de maneira direta e exige menos gastos para a correção do solo. Além disso, a produtividade da terra é elevada. Produtores da região estão obtendo safras com produtividade por área acima da média nacional. A maior proximidade com o hemisfério norte aumenta a competitividade dessas terras, podendo, o escoamento da produção, ser feito tanto por rodovia até os portos da Venezuela e da Guiana, como por hidrovia através do terminal de Itacoatiara, que fica a 36 km de Manaus.

Sem dúvida são profundas as metamorfoses espaciais que se passam no estado de Roraima. Efetivamente, o território caracteriza-se, hoje, como uma fronteira agrícola em vigoroso processo de expansão.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

DIFUSÃO DO ISLÃ

Foi numa gruta do Monte Hira que Maomé recebeu a mensagem essencial do Arcanjo Gabriel, no momento definido pela tradição islâmica como a Noite da Revelação ou Noite do Destino: “Só há um Deus, que é Alá, e Maomé é o seu profeta”. Daí em diante o profeta passou a pregar entre seus familiares, que pertenciam ao clã hashemita, um dos clãs pobres que integravam a tribo dos coraixitas que governava a cidade de Meca, onde ele nasceu. Como foi casado com a viúva de um rico comerciante, acredita-se que ele tenha assumido os negócios e assim entrado em contato com judeus e cristãos, conhecendo-lhes as crenças.

O profeta passou a pregar, também, para os mais humildes, conquistando novos adeptos. Para evitar a eternidade no inferno, os seguidores de Maomé passaram a cumprir os fundamentos da nova fé, orando pelo menos cinco vezes ao dia e buscando ser benevolentes, visando a conquista de um lugar no paraíso pelo julgamento de Alá, depois do fim do mundo.

Os seguidores da religião são chamados de Muslim, palavra árabe que significa “aquele que se submete, o crente”, e a própria religião chama-se Islã, palavra árabe que significa “submeter-se”. A reza agachada é uma forma de negar a arrogância, o egoísmo e o orgulho, além de servir para vivificar no espírito o sentimento de submissão absoluta a Deus. A religiosidade da Arábia era marcada pelo politeísmo e o culto aos astros e às pedras sagradas. No templo da Caaba, em Meca, incrustada em uma das paredes, fica a pedra sagrada mais importante, motivo de orações e romarias antes mesmo do advento do islamismo.



A Caaba, em Meca. Ao redor da Pedra Sagrada surge a mesquita.


Em pouco tempo as pregações começam a atingir os comerciantes e a nobreza. Os sacerdotes dos cultos dominantes, com o apoio dos mercadores abastados estimulam a perseguição aos seguidores do profeta. Maomé foge de Meca para Yatrib, em 622 d.C., sendo esse o marco inicial da difusão do islamismo. Como o profeta ampliou sua autoridade a partir de Yatrib, a cidade passou a ser chamada de Medina, que significa “a cidade do profeta”. Como dissemos aqui num texto sobre o festejo de ano novo ( leia aqui ), o próprio calendário islâmico tem sua origem marcada nesse evento. Segue citação do texto, que inclui informações sobre o ano novo judaico, islâmico, chinês e hindú, escrito em janeiro deste ano:

“O calendário Islâmico tem sua contagem iniciada a partir da hégira (fuga) de Maomé, de Meca para a Medina, ocorrida no dia 16 de julho de 622 do calendário gregoriano. O reveillon muçulmano acontecerá no próximo dia 20 de janeiro (do nosso 2007), quando eles, que já são quase 1,3 bilhão, e crescendo, festejarão a chegada do dia 1º de Muharram (primeiro mês islâmico) do ano de 1428”.

De 622 até 632, ano da morte do profeta, o islamismo é espalhado por toda a Península Arábica, tendo Maomé como chefe religioso, político e militar da comunidade muçulmana. Sua doutrina defendia a Jihad (Guerra Santa) afirmando que o combate que expande a fé visa a glorificação de Alá. E a promessa do paraíso aos que morrem combatendo pela fé vem desde essa época, fatos que explicam tamanha velocidade no processo de expansão.

Os quatro primeiros califas – sucessores do profeta – construíram um império vastíssimo, com unidade política centrada no islã. Entre 632 e 656 os califas encontraram um cenário perfeito para a expansão territorial do islã. O império Bizantino, o império Persa e o Estado Visigodo estavam enfraquecidos. Os exércitos árabes foram enviados para Palestina, Síria, Armênia, Mesopotâmia, Pérsia, Egito e Tripolitânia (norte da África). A expansão desse império não beneficiava somente as classes mercantil e urbana da aristocracia, mas a todos os que se convertessem ao islamismo. Conseqüentemente, todas essas regiões, incluindo a Palestina e a cidade de Jerusalém, foram conquistadas e islamizadas.

As disputas pela sucessão dos califados geraram a fragmentação do islamismo em seitas como os xiitas e os sunitas. Os xiitas são, originalmente, os membros do partido Xiat Ali – partido de Ali - defensores de um califa que seja obrigatoriamente descendente direto de Maomé. Os sunitas acreditam que o califa pode ser alguém que possua um profundo conhecimento sobre os preceitos do islamismo e que pratique o que está escrito nas Sunas. As sunas são livros que transcrevem o padrão de comportamento do profeta e dos quatro primeiros califas. Atualmente os sunitas representam 90% do mundo islâmico.

Em 661, os sunitas assumem o poder com Moaviá, que faz da sucessão um processo hereditário, inaugurando a dinastia dos Omíadas, e transfere a capital do império de Medina para Damasco. Essa dinastia expande o islamismo dominando todo o norte da África, do Egito até o atual Marrocos, a Pérsia, atingido até a região de Cabul no atual Afeganistão, o oeste da Península Indiana, no atual Paquistão e a Península Ibérica, antigo reino dos Visigodos, especialmente a área da atual Espanha.


Abrangência do Império Árabe (expansão omíada).

Em 750, a dinastia abássida assume o poder e transfere a sede do califado de Damasco para Bagdá. A língua persa passa a ser a segunda língua do império árabe. No entanto inúmeras dinastias independentes tomam o poder em áreas específicas e em muitas regiões o poder civil dos sultões e dos emires torna-se mais importante do que o poder religioso dos califas, o que denota o enfraquecimento e a fragmentação do império. Sultões são chefes militares muçulmanos e emires são responsáveis pela administração e segurança das cidades islâmicas. Em 1258 o império islâmico foi, então, fragmentado nos califados de Bagdá, Cairo e Córdoba.

Embora o império estivesse enfraquecido, a difusão da religião não foi interrompida, atingindo aos turcos da Ásia central e estes, no século XI, dominaram a Península da Anatólia, na Ásia Menor, onde seria fundada, no século XIV a dinastia otomana, que dominou vastas áreas do Império Bizantino e se expandiu em direção aos Bálcãs. Durante a expansão dos turcos islamizados, a cidade de Jerusalém foi alvo de diversas cruzadas cristãs que tinham o objetivo de assumir o controle da cidade sagrada, tirando-a das mãos dos muçulmanos. O controle da cidade alternou-se várias vezes entre cristãos e muçulmanos no período que vai de 1099 e 1291, ficando com os turcos muçulmanos a partir deste ano.

Em 1453, a antiga Bizâncio, fundada pelos gregos, e então Constantinopla, sede do império Bizantino, foi dominada pelos turcos otomanos que passaram a chamar a cidade de Islambol (Istambul), que significa “difusão do Islã”. Na Europa, os Espanhóis conquistam Granada em 1492 e expulsam definitivamente os árabes de seu último reduto no continente.

Daí em diante, a difusão do Islã segue em direção ao Oriente, na fronteira entre China, Índia e Paquistão; na Ásia Central, ao redor do mar Cáspio; e também no continente africano, no sentido Norte-Sul, atingindo o Sudão, no vale do Nilo, todo o Magreb, o Sahel (orla semi-árida do Saara), o Golfo da Guiné, em países como a Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Benin, o Chifre da África, com parte da Somália, Eritréia e Etiópia, além de outras áreas ao sul como a faixa litorânea de Moçambique. Com base nesse processo de difusão do Islã, sabemos que a Palestina foi uma das primeiras áreas islamizadas no planeta, constituindo, também, um espaço que possui vínculos históricos e religiosos com os muçulmanos. Isso, somado aos vínculos do judaísmo com a mesma terra, corresponde ao fator básico que imprime as disputas claramente manifestadas na região atualmente.

domingo, 30 de março de 2008

VÍNCULOS DO JUDAÍSMO COM A PALESTINA

É do Velho Testamento que surgem as principais fontes de conhecimentos sobre as origens do judaísmo. Abraão, saindo das proximidades do rio Eufrates há mais de quatro mil anos, no atual território do Iraque, teria sido designado por Deus para conduzir seu povo a uma estreita faixa de terra entre o Mar Mediterrâneo e o deserto da Arábia, a Canaã ou a Terra Prometida, segundo os textos bíblicos. Tendo se estabelecido, então, nessas terras conhecidas como Palestina, as tribos hebraicas – também chamadas de israelitas por serem descendentes de Israel, neto de Abraão - passam alguns séculos vivendo na região que crêem ser uma promessa divina. No entanto, não se sabe exatamente por qual razão – os estudos de climas antigos indicam que uma grande seca teria tornado a região inabitável por um certo período – as tribos migraram, por volta de 1750 a.C., para o Egito, onde foram escravizadas pelo regime dos faraós.

O mesmo Velho Testamento conta que os hebreus fogem do Egito, depois de quatro séculos de opressão, liderados por Moisés que, conduzido por Deus, teria libertado seu povo atravessando o deserto durante cerca de quarenta anos, transpondo inclusive o Mar Vermelho, que abriu-se para a passagem dos hebreus e fechou-se para a travessia do exército faraônico. E assim, no episódio conhecido como Êxodo, os hebreus retornaram à sua Terra Prometida, tendo Moisés recebido de Deus, durante o retorno israelita, as duas tábuas contendo os dez mandamentos da lei divina, próximo ao Monte Sinai.

De volta à sua terra os hebreus construíram no século XI a.C um suntuoso templo na cidade de Jerusalém com o objetivo de que ele abrigasse a Arca da Aliança, cujo conteúdo sagrado seria formado exatamente pelas tábuas recebidas de Deus por Moisés. Nesta época foi formado o reino de Israel, promovendo uma unificação política das doze tribos hebraicas. Israel teve como reis Saul, Davi e Salomão sendo o último o responsável pela construção do templo de Jerusalém e pelo apogeu do reino que durou aproximadamente 120 anos, pois com a morte de Salomão no ano de 935 a.C., ocorre o Cisma onde duas tribos do sul fragmentaram-se do reino de Israel formando o reino de Judá, com capital em Jerusalém. O reino de Israel, formado pelas outras dez tribos do norte, constituiu capital em Samaria.

Ficou estabelecida, desse modo, a situação política da região, até que em 721 a.C., os dois reinos foram dominados pelos assírios, liderados por Sargão II. A dominação assíria é envolvida em muita crueldade para com os derrotados de todas as áreas. No império que nasce em 1300 a.C. e se expande indo até 612 a.C., era comum a prática de mutilações e de torturas aos povos subjugados, táticas usadas no domínio sobre os povos desta e de outras localidades como Egito, Síria, Armênia e Fenícia.

Em 612 a.C. os assírios foram derrotados pelos caldeus, povo de origem semita (1), o que conduziu à fundação do Segundo Império Neobabilônico, que teve como soberanos Nabopolassar e Nabucodonosor, tendo sido o último responsável pela conquista de Jerusalém e pela destruição do templo da arca da aliança, nessa cidade. Os hebreus foram escravizados e levados de seus reinos para a Mesopotâmia, fato que produziu o episódio conhecido na história hebraica como o “Cativeiro da Babilônia”.

A breve hegemonia babilônica termina em 539 a.C. quando o império é conquistado pelos persas, comandados pelo imperador Ciro. Defensor de uma política pautada no respeito às diferenças religiosas e culturais dos povos conquistados, Ciro liberta os judeus do cativeiro e permite que eles retornem à sua terra e reconstruam seu templo em Jerusalém. No entanto o sistema religioso persa influenciou o judaísmo e este, por sua vez, influenciou o cristianismo e o islamismo. Zoroastro(2) reorganiza a religião persa, antes de caráter totêmico(3), preservando um dualismo divino pré-existente representado pela luta incessante entre o bem (Ahura-Mazda) e o mal (Arimã). O Masdeísmo(4), fruto do trabalho de Zoroastro, contém conceitos como o Juízo Final, livre-arbítrio e aborda a vinda de um Messias concebido por uma virgem, a ressurreição dos mortos e a recompensa com vida eterna no paraíso, aos homens bons.

Duzentos anos depois, Alexandre da Macedônia expulsa os persas da região, criando o maior império formado até então, que seria superado apenas pelos romanos, anos depois. E foram os romanos que dominaram os hebreus no ano 63 a.C. Eles reprimiram duramente as revoltas organizadas por grupos nacionalistas judaicos, destruindo novamente o templo de Jerusalém, em 70 d.C., e determinando a Diáspora Judaica, em 135 d.C. Do templo sobrou apenas o Muro das Lamentações, existente até os dias atuais.

Na diáspora, termo que significa dispersão, os judeus se espalharam pelas diversas províncias romanas na Europa e na Ásia, e passaram a viver em pequenas comunidades onde buscaram conservar seus costumes, sua língua e principalmente sua religião. Os princípios religiosos contidos nos cinco primeiros livros da bíblia, denominados Torá ou Pentateuco, reúnem as obrigações essenciais da vida judaica. Entre os séculos III e VI d.C. surge o Talmud, um livro com o objetivo de reunir os ensinamentos religiosos antes passados de pai para filho, abandonando uma tradição oral em prol de uma tradição escrita. O termo 'Talmud' vem do hebraico e significa estudo.

A 'Sinagoga' – termo que vem do grego e significa congregação ou assembléia - é o espaço de reunião da comunidade para as práticas rituais do culto judaico.No entanto, nem sempre, mesmo depois da diáspora, esse culto foi livre. Depois de mais de dois mil anos de vínculo histórico com a região da Palestina, e de serem dominados por diversos povos como os assírios, os babilônios os persas e os macedônios, os judeus são obrigados pelo império romano a espalhar-se por vastas regiões, onde tentarão conservar suas tradições por mais de dezoito séculos, quase sempre sob perseguição ou em caráter clandestino.

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(1) Semita - Indivíduo dos semitas, família etnográfica e lingüística, originária da Ásia ocidental, e que compreende os hebreus, os assírios, os aramaicos, os fenícios, os árabes.

(2) Zoroastro – Também conhecido como Zaratustra, criador da casta dos magos e reformador do masdeísmo, do qual conservou a concepção dualística do universo.

(3) Totêmico – Relativo ao totem que em diversos povos e sociedades é representado por um animal, vegetal ou qualquer entidade ou objeto em relação ao qual um grupo ou subgrupo social (p. ex., uma tribo ou um clã) se coloca numa relação simbólica especial, que envolve crenças e práticas específicas, variáveis conforme a sociedade ou cultura considerada.

(4) Masdeísmo - Religião antiga dos iranianos (persas e medos), caracterizada pela divinização das forças naturais e pela admissão de dois princípios em luta, aúra-masda e arimã.

sábado, 29 de março de 2008

OTAN NO KOSOVO: RELAÇÕES COM O EURO

É fato notório que a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – foi criada em 1949 com o objetivo de defender os paises do bloco capitalista contra um possível ataque soviético no contexto da guerra fria. No entanto esse organismo não promoveu nenhuma ação militar durante aquele período histórico. Seu primeiro ataque foi contra o Iraque que tinha invadido o Kuweit, detonando a guerra do golfo. E nessa ação os americanos atingem ao menos dois objetivos importantes para a geopolítica da Nova Ordem Mundial então inaugurada. Vejamos.

Um dos objetivos alcançados foi a legitimação da guerra anti-imperialista, desde que o imperialismo em questão não seja o norte-americano. A invasão iraquiana ao país vizinho e riquíssimo em petróleo foi considerada uma atitude imperialista que deveria ser combatida. Outro objetivo alcançado foi a afirmação da necessidade de continuidade da existência da OTAN como uma força multilateral de coalizão capaz de intervir militarmente em situações que envolvam conflitos estratégicos como a guerra do golfo e a belicosa fragmentação da antiga Iugoslávia. Neste último caso foram duas as intervenções da OTAN.

A primeira, em 1995, quando o processo de independência da Bósnia-Herzegovina já envolvia práticas de limpeza étnica do exército sérvio contra os muçulmanos que vivem na região. Como resultado da ação foi assinado o Acordo de Dayton, nos Estados Unidos, que transformou a antiga república da Bósnia numa Confederação que inclui duas repúblicas: a República Muçulmano-Croata e a República Sérvia, esta última ocupada por população, em sua maioria, de origem sérvia.

Em 1999 foi a vez da OTAN atuar no Kosovo. Os Kosovares, que tem origem albanesa, contestaram o poder sérvio sobre a região e desse movimento surgiu o Exército Kosovar de Libertação Nacional. Este grupo, apoiado pela maioria da população, entrou em conflito contra a Sérvia em 1996, pouco depois da pacificação da Bósnia. Durante os três anos do conflito as mesma práticas de limpeza étnica - migrações forçadas, assassinato de mulheres e de crianças – permearam as ações do exército sérvio sob a tutela de Slobodan Milošević.


Os Estados Balcânicos

Mas a ação da OTAN só chega em março de 1999 quando a capital da Sérvia foi bombardeada. E a presença da OTAN se justifica pela entrada em vigor do Euro – moeda única da União Européia – fato que ocorreu em 1º de janeiro de 1999. Nesse primeiro momento a moeda ainda não circulava nas ruas mas já possuía cotação e era comercializada em mercados de capitais e de câmbio. Dos quinze membros do bloco à época, doze adotaram a nova moeda, dentre eles a Grécia. Por conta da proximidade grega com a região do conflito, a OTAN atua com o objetivo de evitar um possível transbordamento do conflito para o território grego, o que certamente afetaria a cotação do Euro.



O Polêmico bombardeio à TV em Belgrado

Não foi, portanto, por uma questão humanitária, para combater a limpeza étnica que a OTAN atuou no Kosovo. Recentemente a região - que foi administrada pela ONU, mesmo pertencendo à Servia como uma província autônoma - declarou sua independência, que foi apoiada pelos americanos e criticada pelos russos. Assim como o Kosovo, a Vojvodina, espaço com população de origem húngara, também constitui um foco de tensões, embora mais brandas, na região dos Bálcãs, atualmente.

quinta-feira, 27 de março de 2008

CICLONES, FURACÕES, TUFÕES...

Certo dia de 2005, estava eu, em plena atividade profissional, quando dois alunos, um rapaz e uma mocinha, aproveitando o intervalo entre as aulas, aproximaram-se de mim. Estavam com um ar... uma expressão esquisita, séria... Pareciam dois mafiosos planejando friamente a minha morte.

Tremi. Eles chegaram bem perto. E, falando sem sorrisos e com profunda expectativa na face, o rapaz tomou a iniciativa de falar. Tocando levemente no meu braço, ele olhou fundo nos meus olhos e perguntou, ou melhor, disse:

"Professor, nós precisamos – e esse 'precisamos' denotava uma necessidade infinita – saber como se formam os furacões. O senhor pode explicar?"

Confesso que fiquei aliviado. Mas a tensão que passei não me permitiu reunir naquele momento os argumentos necessários para explicar toda a questão que envolve estas catástrofes atmosféricas, os ciclones, furacões e tufões. E eu gosto das explicações completinhas, minuciosas.A pergunta deles foi movida pelo fenômeno do Katrina, que destruiu a cidade de Nova Orelans.

No ano passado, li essa reportagem sobre um ciclone (Mônica – quase sempre eles têm nome de mulher) que atingiu a Austrália, muito mais forte que o Katrina, porém provocou uma destruição muito menor. Quase não foi noticiado.

"Superciclone castiga a Austrália".

Um ciclone tropical com ventos de 350 quilômetros por hora arrasou ontem (24/04/2006) a costa nordeste da Austrália. Mônica só não causou grandes prejuízos porque a região é pouco povoada. No entanto, causou surpresa entre especialistas devido à sua força extrema. O ciclone Mônica pode ser a mais violenta tempestade tropical registrada em qualquer oceano.O Olho do furacão – considerado um dos mais perfeitos já observados por satélite – tocou o solo numa região coberta por pântanos e florestas, o que evitou conseqüências mais graves. Segundo meteorologistas do site StormTrack, pode ser a mais intensa tempestade tropical de que se tem registro, caso sejam confirmados os dados obtidos por satélite. Com uma pressão de 868,5 milibares, Mônica chegou a ser mais forte do que qualquer furacão do Atlântico ou tufão do Pacífico. Até agora a pressão mais baixa já registrada (quanto menor a pressão, maior a força da tempestade) era a medida no olho do tufão Tip, com 870 milibares.

Acessado em 25/04/2006.

Daí, senhores e senhoras, venho trazer aqui as respostas para algumas perguntas comuns quando se trata deste assunto. Podemos achar que é tudo igual – ciclone, furacão, tufões, mas não são. Eis as questões:

O que são Ciclones?

Ciclones são grandes massas de ar e vapor d’água que giram ao redor de uma área de baixa pressão atmosférica e sobre o oceano. Ciclones tropicais atuam em áreas de latitudes mais baixas, isto é, nos trópicos. Ciclones extratropicais atuam em latitudes mais altas.

Qual a diferença entre Ciclones, Furacões e Tufões?

Furacões e Tufões são Ciclones! Sendo que estes se locomovem numa velocidade superior a 100 quilômetros por hora. A diferença entre Furacões e Tufões é geográfica. Os ciclones que nascem no Oceano Atlântico são chamados de Furacões e os ciclones que nascem no Índico ou no Pacífico são chamados de Tufões.

Como se formam os Ciclones?

O surgimento mais comum de um ciclone é associado à presença de grande volume de ar seco que se desloca sobre o oceano tropical. Os exemplos clássicos são os furacões que atingem o Golfo do México, as ilhas da América Central e a costa dos Estados Unidos, como o Katrina.


O ar seco proveniente do Deserto do Saara é transportado pelos ventos alísios e durante o trajeto o ar seco absorve grande quantidade de água do mar que se evapora. O ar quente é mais leve e sobe junto com o vapor d’água. Quando se condensa (se liquefaz), o vapor libera calor e aquece o ar novamente, que sobe e torna os ventos quentes instáveis. Se a diferença entre a temperatura da superfície do oceano (quente) e das altas camadas atmosféricas (fria) for muito grande, a massa de ar ganha volume cada vez maior e adquire a forma de vórtice atmosférico, conhecida como furacão.

O “olho” do ciclone fica na região central do fenômeno, possui poucos ventos, é quente, seco e de baixíssima pressão atmosférica (Lembrete: ventos sopram de alta pressão para baixa pressão). É no olho que a água evapora e aumenta o tamanho do ciclone, podendo o olho medir de oito quilômetros até duzentos quilômetros, o que torna fácil identifica-lo em imagens de satélites.

Qual é a escala utilizada para classificar os ciclones?

É a escala Saffir-Simpson, que varia de F1 a F5.

F1 – Ventos entre 118 e 152 Km/h.
F2 – Ventos entre 153 e 178 Km/h.
F3 – Ventos de até 209 Km/h.
F4 – Ventos de até 250 Km/h.
F5 – Ventos superiores a 250 Km/h.

É isso aí, queridos. Um abraço solidário!

quarta-feira, 26 de março de 2008

ECOMALTHUSIANISMO E OUTRAS TEORIAS DEMOGRÁFICAS

O Ministro da Igreja Anglicana Thomas Robert Malthus publicou na Inglaterra o Ensaio sobre o princípio de população, no ano de 1798, e esta obra tornou-se uma referência para o estudo da demografia no século XIX. Em sua essência o texto tinha como preceito o fato de que a produção de alimentos crescia em Progressão Aritimética (PA) e a população mundial crescia em Progressão Geométrica (PG). Sabe-se que o crescimento em PG é muito mais rápido que o em PA, portanto, para Malthus, tal tendência demográfica seria responsável pela situação de fome de parte da população. No entanto tais preceitos são absolutamente falsos e a teoria do ministro, portanto, também o é.

Crendo na exatidão de seus preceitos, o religioso apresentou o problema à sociedade em sua obra e nela também propôs soluções. Dentre elas destacam-se várias formas de controle da natalidade como a abstinência sexual, o casamento tardio (pressupõe-se o sexo liberado apenas após o matrimônio) e o celibato. Nota-se que todas as propostas são permeadas de alguma forma por um caráter religioso que Malthus impôs ao seu discurso pretensamente científico. Cabe considerar que além dos crescimentos da produção de alimentos e populacional não ocorrerem em PA e PG respectivamente, a teoria malthusiana não vislumbrou as transformações intensas que o processo de produção agrícola sofreu e que elevaram sua produtividade. Hoje o mundo produz alimentos suficientes para alimentar quase o dobro da população mundial, e a fome persiste. Onde está o erro?

Na distribuição desigual, é claro.

Já no século XX surge o Neomalthusianismo com intuito de justificar a desigualdade da Divisão Internacional do Trabalho (DIT). Na DIT Clássica os países centrais exportavam produtos industrializados para os países periféricos e recebiam matérias-primas destes. A enorme diferença no valor das produções desses dois grupos de países manteve as riquezas concentradas nos países industrializados e altamente desenvolvidos. A relação comercial dos países periféricos é desvantajosa pois eles compram produtos caros e vendem produtos baratos e essa situação limita as possibilidades de desenvolvimento desses países. Para mascarar esse processo é que surge a Teoria Neomalthusiana.

Ela afirma que os países periféricos são pobres pois sua população é muito grande e consome seus escassos recursos. É fácil acreditar nessa idéia quando se compara o Reino Unido ou a Alemanha com a China ou com a Índia. Os países europeus altamente desenvolvidos possuem populações muito menores do que a destes países asiáticos, que apresentam quadros sociais péssimos com altos níveis de pobreza. Mas se compararmos Brasil e Estados Unidos, vemos que o nível de desenvolvimento norte-americano é maior e sua população também. Ou seja, o problema não está no tamanho da população brasileira e sim na desigualdade, no abismo econômico que separa esses dois países.

É semelhante ao que se diz das famílias pobres com muitos filhos. Se uma família tem renda média de um salário mínimo e é formada por dez filhos, a família é pobre. E se uma família com a mesma renda tiver apenas um filho? Será pobre também, pois um salário mínimo é pouco para a sobrevivência de uma pessoa, quanto mais de uma família com pai, mãe e um filho. O problema é ter muitos filhos? Não. O problema é a família não ter acesso a renda. É claro que as condições de vida tendem a piorar com mais pessoas, mas, se for atingido um certo ponto de pobreza, não faz diferença se há um filho ou dez. Todos terão condições péssimas de sobrevivência. A única diferença é que temos mais pessoas sofrendo pela miséria.

O discurso neomalthusiano impõe aos países pobres a culpa pela própria pobreza e esconde os limites impostos pela DIT injusta ao desenvolvimento deles. E ainda propõe um forte controle de natalidade, o que estimulou, inclusive, o envio de equipes técnicas preparadas para ensinar o planejamento familiar e praticar cirurgias de esterilização feminina. Sabe-se que em alguns casos tais cirurgias eram feitas sem o consentimento das pessoas, das famílias. Algo imposto, violando as liberdades pessoais e o direito de escolha. É para criticar essa visão neomalthusiana e suas recomendações que surge a teoria reformista, cujo preceito principal é a idéia de que a DIT injusta é responsável pelo subdesenvolvimento.

No final dos anos sesenta, paralelamente à emergência da ecodiplomacia, que visa discutir entre os países as questões de caráter ambiental, surge o Ecomalthusianismo. Essa teoria foi defendida pelo Clube de Roma, formado por cientistas, economistas e funcionairos governamentais de alto escalão, e baseia-se na idéia de que o sistema global é formado por recusrsos finitos em acelerado processo de desgaste diante do crescimento populacional e das demandas produtivas do mundo contemporâneo. A lógica é que quanto maior é a população, maior o consumo dos recursos naturais.

Tendo em vista tal lógica, o Clube de Roma propôs o controle da natalidade nos países de maior crescimento populacional - leia-se países da América Latina, África e Ásia. Além disso propôs uma mudança estrutural da economia que deveria passar de uma economia de produção para uma economia de serviços. E é exatamente quando recomenda o controle da natalidade nos países pobres que a teoria perde sua lógica pois deve-se considerar as desigualdades no padrão de consumo entre os países centrais e os periféricos.

Tomemos por exemplo a questão da água, que é um recurso estratégico. A Organização Mundial de Saúde recomenda o consumo diário de 80 litros por pessoa/dia para ingestão, higiene pessoal e doméstica, e para o preparo de alimentos. No Quênia o consumo médio é de 5 litros por pessoa/dia, a mesma média de água utilizada diariamente pelos norte-americanos para lavar carros e regar jardins. Sabe-se que o crescimento vegetativo da população do Quênia é bem maior do que o dos Estados Unidos, mas será que foi esse crescimento que gerou tamanha diferença no consumo de água entre os dois países?

Não. A infra-estrutura implementada e o desperdício norte-americano é que elevam o consumo por pessoa/dia de sua população. Portanto não é necessário controlar a natalidade no Quênia pois não é lá que está o consumo excedente. Deve-se reduzir, todavia, o desperdício da sociedade norte-americana. Mais uma vez o problema não é demográfico.

Ou seja: Malthusianismo, Neomalthusianismo e Ecomalthusianismo são teorias demográficas que impõem as responsabilidades sobre a fome, o subdesenvolvimento e o desastre ambiental mundial, respectivamente, sobre as famílias e países pobres, e defendem que são estes que devem controlar suas taxas de natalidade. No entanto esquecem-se de avaliar a desigualdade existente na distribuição dos recursos alimentares, financeiros e no consumo dos recursos naturais, que é alto nos países centrais e limitado nos países periféricos. A questão resolve-se, portanto, ao se compreender que é a distribuição desigual dos recursos que gera tais diferenças entre os países.

segunda-feira, 24 de março de 2008

PEA AGRÍCOLA E INDUSTRIAL EUROPÉIA

A distribuição da População Economicamente Ativa (PEA) na Europa é heterogênea em todos os setores por conta da heterogeneidade do próprio continente em questão. Os gráficos que seguem foram elaborados com dados do ano de 1990 obtidos pela OIT e pelo Banco Mundial em pesquisas publicadas em 1997 e 1998 respectivamente.

Todos os países destacados em cada gráfico pertencem atualmente à União Européia, exceto a Noruega, e notam-se diferenças enormes quando se analisa o percentual da PEA empregada na agricultura. Nos extremos do gráfico temos o Reino Unido, com apenas 1,5% de sua PEA na agricultura e a Polônia, com 27% da PEA ocupada nesse setor. Observe o Gráfico:



Para o caso do Reino Unido, assim como para Bélgica, Noruega, França, Espanha, Portugal, Grécia e Chipre, o que explica um percentual inferior a 20% da PEA é o predomínio das atividades terciárias como o comércio, o turismo e a prestação de serviços em geral, embora todos, com exceção de Grécia e Chipre, possuam parques industriais relevantes.

Para o caso da Alemanha e da República Tcheca, o baixo percentual está associado ao peso da atividade industrial desses países que tem sua PEA com frações próximas a 40% ocupadas na Indústria. No caso alemão, fruto dos pesados investimentos privados de grandes corporações transnacionais com sede naquele país, e para a República Tcheca, por conta da herança produzida pela influência socialista e seu modelo de economia planificada orientada para os investimentos em indústrias de base.

É exatamente a mesma razão que explica os altos índices de PEA ocupada na Indústria nos países do Leste Europeu, já que estes sofreram influência socialista semelhante delineando suas economias para uma forte base industrial. Observe o gráfico:

Nota-se que países como Letônia, Estônia e Lituânia (ex-repúblicas soviéticas) possuem altos índices de população ocupada na indústria. O mesmo vale para a Eslovênia (Estado originado na fragmentação da antiga Iugoslávia), para República Tcheca, Romênia e Bulgária, todos com história de influência soviética no pós-guerra.

Sem dúvida tais dados refletem as diferenças nos níveis de desenvolvimento em que se encontram cada grupo de países. Dos Estados citados temos Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Noruega e Bélgica fazendo parte do grupo de países desenvolvidos altamente industrializados; Espanha, Portugal e Grécia como parte dos desenvolvidos de industrialização recente; Chipre, que em conjunto com Malta forma o grupo de desenvolvidos com fraca industrialização; e Polônia, República Tcheca, Estônia, Letônia, Lituânia, Eslovênia, Romênia e Bulgária, que fazem parte do grupo de países ex-socialistas com modelo de industrialização de base.