segunda-feira, 2 de março de 2026

DIT, OMC, BLOCOS ECONÔMICOS E CONFLITOS COMERCIAIS

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1. O Conceito de Divisão Internacional do Trabalho e a Gênese da Desigualdade

A compreensão da geoeconomia contemporânea exige, antes de tudo, o domínio do conceito de Divisão Internacional do Trabalho (DIT). Sob uma perspectiva pedagógica, podemos sintetizar este fenômeno como a espinha dorsal da globalização produtiva:

Divisão Internacional do Trabalho (DIT): Refere-se à especialização das funções produtivas em escala planetária. Trata-se da distribuição geográfica de etapas da produção, onde cada nação assume um papel específico na cadeia de valor global, orientada pela lógica corporativa de maximização de lucros e compressão de custos operacionais.

O deslocamento de plantas industriais para o "Sul Global" não é um processo aleatório, mas sim uma busca estratégica por vantagens locacionais. Os países emergentes, marcados por uma industrialização tardia e recorrente vulnerabilidade externa, oferecem atrativos decisivos:

  • Abundância de mão de obra de baixo custo: Redução drástica da folha de pagamento e encargos.
  • Isenções fiscais e subsídios estatais: Renúncia de receita pelos governos locais para atrair o capital transnacional.
  • Fragilidade das legislações ambientais e trabalhistas: Menor custo de conformidade para as corporações.

O "So What?": É imperativo compreender que essa especialização não é politicamente neutra. Ela constitui o mecanismo primário de reprodução da assimetria econômica. Ao concentrar as etapas de alto valor agregado (tecnologia e design) no Norte e as etapas de execução e extração no Sul, a DIT aprofunda o abismo entre as nações, perpetuando uma dependência que remonta ao período colonial.

 

2. A Evolução Cronológica: Da DIT Tradicional à Nova DIT

A DIT é um organismo vivo, metamorfoseando-se conforme as revoluções técnico-científicas reconfiguram os fluxos globais. O quadro abaixo sintetiza essa transição histórica:

Tabela Comparativa: Evolução dos Fluxos na DIT

Fase

Perfil dos Países Desenvolvidos / Metrópoles

Perfil dos Países Emergentes / Colônias

Principais Mercadorias / Capitais

DIT Tradicional (Séc. XVI-XVIII)

Metrópoles: Centros de acumulação primitiva e produção manufatureira.

Colônias: Territórios de exploração primária e dependência política total.

Fluxo: Colônias fornecem matérias-primas e metais; Metrópoles exportam manufaturados.

Nova DIT (Pós-II Guerra e Globalização)

Países Desenvolvidos: Detentores de tecnologia de ponta, sedes de transnacionais e centros financeiros.

Países Emergentes: Industrialização tardia, exportadores de commodities e manufaturados de baixa tecnologia.

Fluxo: Desenvolvidos exportam tecnologia e capitais; Emergentes exportam lucros, juros, produtos primários e industrializados simples.

A transição para a Nova DIT trouxe uma complexidade inédita: nações como o Brasil deixaram de ser meros enclaves agrários para exportar aço e tecidos. No entanto, a dependência técnica e o endividamento externo garantem que a essência da desigualdade permaneça inalterada.

 

3. Instituições do Comércio Global: Do GATT à OMC

Para arbitrar as tensões dessa DIT cada vez mais complexa, o sistema multilateral evoluiu do caráter provisório do GATT (1947) para a institucionalização da OMC em 1995. A OMC atua como o fiel da balança, regulamentando acordos sobre propriedade intelectual e resolvendo litígios comerciais.

Um marco fundamental para o Brasil foi o Protocolo de Nairóbi (2015). Este tratado determinou o fim dos subsídios agrícolas praticados por potências como França e Alemanha, que geravam preços artificialmente baixos e sufocavam a competitividade dos produtores brasileiros.

O "So What?": Assistimos hoje a um preocupante "esvaziamento" da OMC. O multilateralismo, que oferece proteção aos países em desenvolvimento através da regra da unanimidade, tem sido preterido pelo bilateralismo agressivo. Ao priorizar acordos diretos, potências como os EUA (estratégia iniciada por Trump e preservada por Biden) neutralizam o poder de barganha coletiva das nações emergentes.

 

4. O Dilema do Estado: Neoliberalismo vs. Protecionismo

Os Estados Nacionais enfrentam uma tensão dialética constante na gestão de suas fronteiras econômicas. O governo deve equilibrar três pressões fundamentais que desafiam a gestão pública:

  • [ ] A Imperativa de Fluxo (Neoliberalismo): Pressão de instituições financeiras e transnacionais para a redução de barreiras alfandegárias e abertura total aos capitais.
  • [ ] A Defesa do Capital Nacional: Exigência de empresários locais por tarifas de importação que protejam a indústria doméstica de uma "desindustrialização" precoce.
  • [ ] A Preservação da Soberania e do Emprego: Pressão social contra a abertura comercial desregrada, que frequentemente resulta na perda de postos de trabalho para mercados de mão de obra ainda mais precarizada.

Nesse cenário, a formação de blocos econômicos surge como uma tentativa de soberania compartilhada, buscando força competitiva regional frente ao rolo compressor global.

 

5. Arquitetura dos Blocos Econômicos: Níveis de Integração

A integração regional não é uniforme; ela obedece a uma hierarquia de complexidade técnica e institucional:

  1. Zona de Livre Comércio: Foco na redução progressiva de tarifas internas. (Ex: USMCA, sucessor do NAFTA).
  2. União Aduaneira: Além do livre comércio, adota uma Tarifa Externa Comum (TEC). O Mercosul, institucionalizado pelo Tratado de Assunção (1991), é o exemplo clássico.
  3. Mercado Comum: Exige a livre circulação de pessoas, serviços e capitais, além da padronização de legislações. A CEE de 1957, sob o Tratado de Roma, estabeleceu as bases deste modelo.
  4. União Monetária: Estágio máximo, com moeda única e Banco Central centralizado. A União Europeia, definida pelo Tratado de Maastricht (1992), permanece como o único exemplo global.

 

6. Panorama Atual e Desafios Regionais (Estudos de Caso)

O mapa do poder global está sendo redesenhado por crises internas e novas coalizões:

  • União Europeia: Enfrenta a instabilidade do Brexit (2020) e as cicatrizes da crise dos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), que expuseram as fragilidades de uma união monetária sem união fiscal plena.
  • Mercosul vs. Aliança do Pacífico: O Mercosul sofre um processo de estagnação e "primarização" de suas pautas exportadoras. Em contraste, a Aliança do Pacífico (Chile, Peru, México e Colômbia) apresenta uma postura mais agressiva e voltada para a integração com as cadeias produtivas asiáticas.
  • A Ascensão Asiática e o Vácuo Americano: A saída dos EUA da Parceria Transpacífica (TPP) — que chegou a representar 40% do PIB mundial — abriu caminho para a hegemonia chinesa.

Destaque Geopolítico: O RCEP (2020) consolidou-se como o maior bloco de livre comércio do planeta, abrangendo 30% do PIB e da população mundial. Liderado pela China e excluindo propositalmente os EUA, o RCEP simboliza o deslocamento definitivo do eixo de gravidade econômico do Atlântico para o Pacífico.

 

7. Conclusão: A Raiz das Desigualdades

A evolução da DIT e a sofisticação dos blocos econômicos demonstram que, embora as formas tenham mudado, o padrão de dependência técnica e financeira permanece. A modernização dos países emergentes é, muitas vezes, uma "modernização conservadora" da dependência.

Insight Final: Na Nova DIT, o fato de um país exportar produtos industrializados não garante sua autonomia. O abismo econômico é perpetuado pela remessa de lucros das transnacionais para suas sedes e pela dependência de tecnologia de ponta (patentes e royalties). Sem soberania tecnológica, os blocos regionais do Sul correm o risco de se tornarem meras plataformas de exportação para as necessidades do eixo sino-americano.

 

EXERCÍCIOS DE VESTIBULAR:

 

1. (ENEM 2015) Até o fim de 2007, quase 2 milhões de pessoas perderam suas casas e outros 4 milhões corriam o risco de ser despejadas. Os valores das casas despencaram em quase todos os EUA e muitas famílias acabaram devendo mais por suas casas do que o próprio valor do imóvel. Isso desencadeou uma espiral de execuções hipotecárias que diminuiu ainda mais os valores das casas. Em Cleveland, foi como se um “Katrina financeiro” atingisse a cidade. Casas abandonadas, com tábuas em janelas e portas, dominaram a paisagem nos bairros pobres, principalmente negros. Na Califórnia, também se enfileiraram casas abandonadas.

HARVEY, D. O enigma do capital. São Paulo: Boitempo, 2011.

Inicialmente restrita, a crise descrita no texto atingiu proporções globais, devido ao(à) 

(A)  superprodução de bens de consumo.   

(B)  colapso industrial de países asiáticos.   

(C)  interdependência do sistema econômico.   

(D) isolamento político dos países desenvolvidos.   

(E)  austeridade fiscal dos países em desenvolvimento.   

 

2. (UERJ)   

Mudança no comercio de bens dos Estados Unidos: Importações por países

* UE15: conjunto das trocas com as 15 maiores economias da Europa Ocidental (pile.com)

O processo de globalização das últimas décadas vem redefinindo os fluxos de bens entre os países. 

A partir do gráfico, a mudança dos locais de origem dos bens pode ser explicada pela seguinte característica do processo de globalização:  

(A)  difusão espacial das fontes de matéria-prima    

(B)  integração nacional dos centros de tecnologia    

(C)  redistribuição territorial das atividades industriais    

(D) concentração regional dos mercados consumidores   

 

3. (UERJ) A estrutura desse sistema internacional de circulação alcançou tal grau de complexidade que ultrapassa a compreensão da maioria das pessoas. As fronteiras entre funções diferentes como as de bancos, corretoras, serviços financeiros, financiamento habitacional, crédito ao consumidor etc. tornaram-se cada vez mais porosas, ao mesmo tempo que novas transações futuras de mercadorias, de ações, de moedas ou de dívidas surgiram em toda parte, introduzindo o tempo futuro no tempo presente de maneiras estarrecedoras.

          DAVID HARVEY. Adaptado de "Condição pós-moderna". São Paulo: Edições Loyola, 1992.

O texto faz referência a características de um dos mais importantes aspectos do atual estágio do capitalismo.

Dois fatores que contribuem para o fenômeno destacado pelo autor do fragmento estão apontados em: 

(A)  aumento da especulação financeira - maior eficiência das redes de transportes

(B)  controle do Banco Mundial sobre o sistema financeiro - formação da União Monetária Mundial   

(C)  desregulamentação dos mercados financeiros - disseminação das tecnologias da informação   

(D) padronização dos horários de funcionamento dos centros financeiros - surgimento dos bancos globais   

 

4. (ENEM) México, Colômbia, Peru e Chile decidiram seguir um caminho mais curto para a integração regional. Os quatro países, em meados de 2012, criaram a Aliança do Pacífico e eliminaram, em 2013, as tarifas aduaneiras de 90% do total de produtos comercializados entre suas fronteiras.

OLIVEIRA, E. Aliança do Pacífico se fortalece e Mercosul fica à sua sombra. O Globo, 24 fev. 2013 (adaptado).

O acordo descrito no texto teve como objetivo econômico para os países-membros 

(A)  promover a livre circulação de trabalhadores.   

(B)  fomentar a competitividade no mercado externo.   

(C)  restringir investimentos de empresas multinacionais.   

(D) adotar medidas cambiais para subsidiar o setor agrícola.   

(E)  reduzir a fiscalização alfandegária para incentivar o consumo.  

 

5. (UERJ) Europa Ocidental: a construção da unidade

A criação da República Federal Alemã (1949) reativou o temor francês do ressurgimento do nacionalismo alemão. Foi nessa atmosfera confusa e carregada que, em maio de 1950, foi apresentado o plano do ministro do exterior, Robert Schuman, de integrar as siderurgias francesa e alemã. O Plano Schuman previa a instituição de uma autoridade comum, supranacional, com poderes para coordenar o reerguimento da produção de carvão e aço nos dois países. Outros países poderiam aderir à iniciativa. O Tratado da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço - CECA foi assinado em 1951.

Adaptado de MAGNOLI, Demétrio. O mundo contemporâneo. São Paulo: Atual, 2004.

A criação da CECA deu origem a um conjunto de iniciativas de integração no continente europeu, dentre elas, as raízes da própria União Europeia.

O conceito fundamental nesse processo de integração entre Estados-Nacionais é: 

(A)  espaço vital

(B)  fronteira flexível

(C)  território multipolar

(D) soberania compartilhada   

 

6. (FUVEST) 

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia está sendo discutido há cerca de 20 anos e prevê, entre outros elementos, a redução progressiva das tarifas de exportação entre os blocos. O Brasil, que é um grande exportador de produtos de origem agrícola para o mercado europeu, teria redução tarifária para a exportação de produtos como carnes, açúcar e etanol, dentre outros.

Para a ratificação do acordo, o parlamento europeu aprovou uma resolução que manifesta a importância do compromisso dos países do Mercosul com a implementação do Acordo de Paris. A relutância em ratificar o acordo entre Mercosul e União Europeia, por parte de alguns países da UE em 2020, deveu-se, entre outros fatores,

Note e adote:

OMC: Organização Mundial do comércio

PRONAF: Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar

SAFs: Sistemas Agroflorestais

UE: união Europeia

 

(A)  à desigual condição climática para produção de vinhos nos dois continentes.   

(B)  às políticas de incentivo à agricultura familiar na América Latina e especialmente ao PRONAF no Brasil.   

(C)  à difusão de SAFs, criados com o propósito de produção para consumo humano no Cone Sul.   

(D) às declarações que cogitaram a retirada do Brasil da OMC meses antes da aprovação da resolução.   

(E)  aos graves problemas ambientais no Brasil, tais como desmatamento e queimadas.

 

7. (ENEM)  

Dentro das atuais redes produtivas, o referido bloco apresenta composição estratégica por se tratar de um conjunto de países com 

(A)  elevado padrão social.   

(B)  sistema monetário integrado.   

(C)  alto desenvolvimento tecnológico.   

(D) identidades culturais semelhantes.    

(E)  vantagens locacionais complementares.   

 

8. (UERJ)

OS ARREPENDIDOS DO BREXIT

O britânico Will Dry, estudante de política e economia, tinha 18 anos quando votou pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) no plebiscito de 2016. Dry faz parte de um grupo de arrependidos, identificados pela hashtag “Bregret” (combinação de “Brexit” e regret, arrependimento). São eleitores que se dizem enganados pelas promessas da campanha em defesa da retirada britânica da UE, principalmente a ideia de que o Reino Unido poderia manter o status de inserção e influência no plano europeu e mundial sem ter de se submeter à burocracia de uma entidade supranacional. 

Adaptado de epoca.globo.com, 02/05/2018.

No âmbito das novas relações com o bloco europeu, parte da população britânica que votou a favor do Brexit não dimensionou adequadamente a seguinte consequência dessa decisão:  

(A)  ameaças à defesa do território    

(B)  restrições à circulação de riqueza    

(C)  limitações à autonomia do governo    

(D) riscos à continuidade da democracia

 

9. (ENEM)

  

Foto em preto e branco de grupo de pessoas lado a lado

Descrição gerada automaticamente

Uma scena franco-brazileira: “franco” – pelo local e os personagens, o local que é Paris e os personagens que são pessoas do povo da grande capital; “brazileira” pelo que ahi se está bebendo: café do Brazil. O Lettreiro diz a verdade apregoando que esse é o melhor de todos os cafés. (Essa página foi desenhada especialmente para A Ilustração Brazileira pelo Sr. Tofani, desenhista do Je Sais Tout.)

A Ilustração Brazileira, n. 2, 15 jun. 1909 (adaptado).

A página do periódico do início do século XX documenta um importante elemento da cultura francesa, que é revelador do papel do Brasil na economia mundial, indicado no seguinte aspecto: 

(A)         Prestador de serviços gerais. 

(B)         Exportador de bens industriais. 

(C)         Importador de padrões estéticos. 

(D)        Fornecedor de produtos agrícolas.

(E)         Formador de padrões de consumo.

 

10. (ENEM) A reestruturação global da indústria, condicionada pelas estratégias de gestão global da cadeia de valor dos grandes grupos transnacionais, promoveu um forte deslocamento do processo produtivo, até mesmo de plantas industriais inteiras, e redirecionou os fluxos de produção e de investimento. Entretanto, o aumento da participação dos países em desenvolvimento no produto global deu-se de forma bastante assimétrica quando se compara o dinamismo dos países do leste asiático com o dos demais países, sobretudo os latino-americanos, no período 1980-2000.

SARTI, F.; HIRATUKA, C. Indústria mundial: mudanças e tendências recentes. Campinas: Unicamp, n. 186, dez. 2010.

A dinâmica de transformação da geografia das indústrias descrita expõe a complementaridade entre dispersão espacial e

(A)  autonomia tecnológica.

(B)  crises de abastecimento.    

(C)  descentralização política.    

(D) concentração econômica.    

(E)  compartilhamento de lucros.    

 

GABARITO:

1 C

2 C

3 C

4 B

5 D

6 E

7 E

8 B

9 D

10 D




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

POLÍTICA ECONÔMICA E GLOBALIZAÇÃO

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1. A Gênese do Pensamento Econômico: Do Liberalismo ao Monopólio

O Liberalismo Clássico consolidou-se no século XVIII, impulsionado pela Revolução Industrial e pela Escola de Manchester. Embora Adam Smith seja o pilar com "A Riqueza das Nações" (1776), a doutrina foi expandida por David Ricardo (teoria das vantagens comparativas), Thomas Malthus (limites do crescimento populacional) e Jean Baptiste Say (Lei de Say). Eles refutavam o protecionismo mercantilista, defendendo que o Estado deveria abster-se de regular a economia.

  • A Mão Invisível: Metáfora de Smith para a autorregulação do mercado. Através da livre concorrência, o interesse individual (lucro) resultaria no bem comum (melhores produtos e preços baixos), ajustando naturalmente a oferta e a procura.
  • Conceitos Fundamentais:
    • Homo Economicus: O sujeito que age racionalmente visando o benefício próprio, motor da eficiência sistêmica.
    • Utilidade Marginal: Valor atribuído à última unidade consumida de um bem; quanto mais abundante o bem, menor sua utilidade marginal.
    • Paradoxo do Valor: A água, essencial à vida (alto valor de uso), possui baixo valor de troca por sua abundância. O diamante, supérfluo (baixo valor de uso), possui alto valor de troca devido à sua raridade.

A evolução do sistema capitalista, contudo, buscou contornar a livre concorrência para acelerar a acumulação através de associações de capitais:

Forma de Associação

Objetivo e Funcionamento

Cartel

Acordo (formal ou informal) entre empresas do mesmo setor para fixar preços e dividir mercados, eliminando a concorrência.

Truste

Fusão de empresas (vertical ou horizontal) que perdem autonomia para formar uma grande companhia que domina o setor.

Holding

Empresa que controla um conglomerado através da posse majoritária de ações de diversas subsidiárias.

Dumping

Venda de produtos abaixo do preço de custo para eliminar concorrentes e conquistar monopólio, comum no comércio exterior.

Transição: A fé na autorregulação absoluta colapsou em 1929. A incapacidade do mercado em corrigir disparidades entre produção e consumo revelou que a "mão invisível" poderia levar o sistema ao abismo.

 

2. A Queda do Estado Liberal e a Era Keynesiana

A Crise de 1929 foi uma Crise de Superprodução. O modelo Fordista revolucionou a produtividade com a linha de montagem e padronização, mas a manutenção de salários baixos impediu que a massa trabalhadora consumisse o que produzia. O estoque lotado sem mercado consumidor gerou a quebra da bolsa e a Grande Depressão.

A solução veio de John Maynard Keynes, cujas ideias fundamentaram o New Deal de Roosevelt:

  • Intervencionismo Estatal: O Estado atua como motor econômico em momentos de recessão, investindo em grandes obras públicas para gerar emprego e renda.
  • Estado de Bem-Estar Social (Welfare State): Vigente nos "Anos Dourados" (1950-60), focou no pleno emprego, aumento real de salários e segurança social.
  • O Caso Detroit: Detroit tornou-se o símbolo do auge fordista, chegando a 2 milhões de habitantes. Contudo, sua rigidez produtiva e dependência de um único setor selaram seu destino futuro.

Transição: Na década de 1970, a rigidez do Fordismo, a pressão sindical e os choques do petróleo geraram estagflação. A crise do Estado Keynesiano abriu espaço para o desmonte do modelo protetivo e o nascimento da flexibilização.

 

3. A Ascensão do Neoliberalismo e o Estado Mínimo

O Neoliberalismo, defendido por Milton Friedman e Friedrich Hayek, propõe o Estado Mínimo — uma reestruturação onde o Estado abandona o papel de provedor social para se tornar um garantidor da fluidez do mercado global.

O Receituário Neoliberal (Medidas Centrais):

  1. Privatizações: Venda de estatais para reduzir o tamanho do aparelho público.
  2. Austeridade Fiscal: Equilíbrio rígido das contas (cortes em saúde e educação) para garantir o pagamento de juros.
  3. Abertura Comercial: Eliminação de barreiras para a entrada de mercadorias estrangeiras.
  4. Fim do Protecionismo: Retirada de subsídios a produtores nacionais.
  5. Juros e Câmbio Flutuantes: Autonomia do Banco Central e livre circulação de capitais especulativos.
  6. Proteção de Patentes: Garantia jurídica para que transnacionais controlem tecnologias e medicamentos, cobrando preços monopolistas.

A aplicação dessas medidas em países da União Europeia (os PIIGS: Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) via Troika resultou em severa precarização social. A austeridade imposta alimentou sentimentos de exclusão, servindo de base para o crescimento da xenofobia e de movimentos de extrema direita.

Transição: A desregulamentação neoliberal foi o combustível necessário para que as tecnologias da Terceira Revolução Industrial integrassem o planeta em uma rede de fluxos instantâneos.

 

4. A Engrenagem da Globalização: Redes, Fluxos e Agentes

A globalização opera no Meio Técnico-Científico-Informacional. Segundo Eric Hobsbawm, o processo depende mais da eliminação de obstáculos técnicos (infraestrutura) do que meramente econômicos.

  • Infraestrutura e Tecnologia: O avanço nos transportes e nas comunicações (fibra ótica, satélites) permitiu a sociedade em rede descrita por Manuel Castells.
  • Empresas Transnacionais: São os agentes hegemônicos. Em 2011, o faturamento de muitas já superava o PIB de diversas nações. Elas formam clusters de poder, como a megafusão Bayer-Monsanto, que junto a poucas outras controla 60% do mercado global de sementes e saca o lucro através de patentes.
  • Organização em Rede: O "carro global" ilustra a fragmentação: financiado no Japão, projetado na Itália, montado no México e com componentes eletrônicos da Coreia. A marca oculta uma teia transnacional sem pátria definida.

Transição: Essa fluidez, contudo, é seletiva. Enquanto o capital viaja na velocidade da luz, o corpo humano encontra barreiras instransponíveis.

 

5. O Grande Paradoxo: Fluxos Fluídos vs. Fronteiras Rígidas

Milton Santos alertava para a "globalização como fábula" vs. "globalização como perversidade". O paradoxo central, destacado por Zygmunt Bauman e Rogério Haesbaert, é a coexistência da derrubada de barreiras comerciais com a ereção de muros contra pessoas.

  • Seletividade dos Fluxos: Como na canção "Disneylândia", mercadorias e capitais cruzam fronteiras que são fechadas para refugiados e imigrantes pobres. O dinheiro tem livre trânsito; o trabalhador pobre é barrado por mecanismos segregadores.
  • Hibridismo vs. Homogeneização:
    • McDonaldismo: A tentativa de homogeneização cultural através de padrões de consumo globais.
    • Resistência e Adaptação: As identidades nacionais reagem através do hibridismo (como o Funk brasileiro, derivado do Miami Bass) ou da adaptação local de marcas globais (McRice na Ásia, McLobster no Canadá, McLaks na Noruega).
  • Nacionalismo Ético-Nacionalista: A reação à globalização muitas vezes descamba para conflitos de identidade e discursos de exclusão ("America First").

Transição: Essa integração cultural superficial mascara uma divisão produtiva cada vez mais profunda e desigual.

 

6. Desterritorialização e a Nova Divisão Internacional do Trabalho (DIT)

A DIT (Divisão Internacional do Trabalho) contemporânea é marcada pela dispersão espacial da produção e pela concentração extrema de lucros e tecnologia nos centros hegemônicos.

  • Assimetria Comercial: O Brasil ilustra a dependência de países de industrialização tardia. Nossa relação com a China é profundamente assimétrica: 75% a 80% das exportações brasileiras são commodities (soja, ferro, petróleo), enquanto 95% das importações chinesas são produtos industrializados de alto valor agregado.
  • O Paradoxo do Consumo: A charge do "País 1 vs País 2" revela a lógica da desterritorialização. No País 1 (EUA/Reino Unido), o calçado é caro e falta emprego industrial; no País 2 (Indonésia/Grécia), há muitos empregos precários, mas o trabalhador que costura o sapato de luxo está descalço, pois não pode consumir o que produz.
  • A Crise de Detroit: O colapso da cidade (que perdeu mais de 1 milhão de habitantes) é o retrato da acumulação flexível: indústrias migraram para países com mão de obra barata e legislação ambiental frouxa.
  • Externalidades e Lixo Eletrônico: O mundo industrializado exporta seus resíduos para nações pobres. Em Gana, jovens se intoxicam queimando lixo eletrônico importado para extrair cobre, terceirizando o impacto ambiental do consumo global.
  • Síntese de Risco: Países dependentes de produtos primários (América Latina) enfrentam a instabilidade de preços das commodities. A superação dessa assimetria exige, necessariamente, o fortalecimento da pesquisa científica nacional para romper a dependência tecnológica.

 

EXERCÍCIOS DE VESTIBULAR:

1. (FATEC) Adam Smith, teórico do liberalismo econômico, cuja obra, "Riqueza das Nações", constitui o baluarte, a cartilha do capitalismo liberal, considerava

(A)   a política protecionista e manufatureira como elemento básico para desenvolver a riqueza da nação.   

(B)   necessária a abolição das aduanas internas, das regulamentações e das corporações então existentes nos países.   

(C)   a propriedade privada como a raiz das infelicidades humanas, daí toda a economia ter de ser controlada pelo Estado.   

(D)  a terra como fonte de toda a riqueza, enquanto a indústria e o comércio apenas transformavam ou faziam circular a riqueza natural.   

(E)   o trabalho como fonte de toda a riqueza, dizendo que, com a concorrência, a divisão do trabalho e o livre comércio, a harmonia e a justiça social seriam alcançadas.   


2. (FUVEST) “Em uma onda sem precedentes de medo, confusão e pânico, hoje quase 13 milhões de ações mudaram de mãos na Bolsa de Valores de Nova York. Corretores atordoados atravessaram um mar de papel segurando ordens de investidores assustados para ‘vender a qualquer preço’.”

“Wall Street cai”. The Guardian (Londres), 24/10/1929, p.1.

“O mercado esteve ontem numa situação de verdadeiro pânico. Em São Paulo pedem-se a moratória e a emissão de papel-moeda. O presidente da República receberá hoje uma comissão do comércio de Santos.”

“A crise do café”. Correio da Manhã (Rio de Janeiro), 29/10/1929, p.1.

Os excertos, extraídos de matérias jornalísticas publicadas à época, relatam reações ante a Crise de 1929. Essa crise

(A)   atingiu as atividades agrícolas, incentivou a mecanização do processo produtivo e a absorção dos trabalhadores pelo setor industrial.   

(B)   afetou as bases do liberalismo econômico, obrigando a intervenção do Estado por meio de regulações e investimentos.   

(C)   impulsionou a indústria do entretenimento, responsável por forjar comportamentos que se opunham ao pessimismo.   

(D)  favoreceu a substituição do dólar pela libra esterlina enquanto moeda empregada no comércio internacional.   

(E)   contribuiu para o desenvolvimento industrial com a substituição de importações e a ampliação do crédito para investimentos.   

 

3. (FMJ) O que precisamos, agora, não é apertar fortemente os coletes, mas adotar um humor de expansão, de atividades – fazer coisas, comprar coisas, produzir. [...] O mesmo é verdadeiro, e até mais, em relação ao trabalho da autoridade local. Este é o tempo de as municipalidades serem empenhadas e ativas em todos os tipos de melhoramentos importantes. [...] podemos, de qualquer forma, fazer algo por nós mesmos, e que esse algo deve assumir a forma de atividade, de realizações, de gastos, de lançamento de grandes empreendimentos.

KEYNES, John M. Ensaios econômicos, 1976.

O excerto foi tirado de uma palestra radiofônica feita pelo economista britânico John Maynard Keynes, em janeiro de 1931.

Sua posição sobre a economia era

(A)   estatista e propunha o controle governamental dos investimentos bancários na produção de mercadorias.   

(B)   crítica à globalização dos capitais e sugeria a formação de um mercado comum entre as economias europeias.   

(C)   anticapitalista e defendia a divisão dos lucros das corporações industriais com os operários.   

(D)  contrária ao liberalismo econômico e visava encaminhar soluções para a crise econômica.   

(E)   monetarista e considerava a inflação dos preços das mercadorias como a causa principal da depreciação dos salários.   

 

4. (ENEM) O New Deal visa restabelecer o equilíbrio entre o custo de produção e o preço, entre a cidade e o campo, entre os preços agrícolas e os preços industriais, reativar o mercado interno – o único que é importante –, pelo controle de preços e da produção, pela revalorização dos salários e do poder aquisitivo das massas, isto é, dos lavradores e operários, e pela regulamentação das condições de emprego.

CROUZET, M. ‘Os Estados perante a crise’. In: História geral das civilizações. São Paulo: Difel, 1966. (adaptado). 

Tendo como referência os condicionantes históricos do entre guerras, as medidas governamentais descritas objetivavam 

(A)   flexibilizar as regras do mercado financeiro.

(B)   fortalecer o sistema de tributação regressiva.

(C)   introduzir os dispositivos de contenção creditícia.

(D)  racionalizar os custos da automação industrial mediante negociação sindical.

(E)   recompor os mecanismos de acumulação econômica por meio da intervenção estatal.

 

5. (UNESP) O processo de mundialização do sistema capitalista sempre esteve apoiado na difusão de políticas econômicas e na constituição de determinadas lógicas geopolíticas e geoeconômicas de organização do espaço mundial.

Constituem-se em política econômica e em lógica capitalista de ordenamento do espaço mundial no período atual:

(A) o keynesianismo e o colonialismo.

(B) o desenvolvimentismo e o neocolonialismo.

(C) o neoliberalismo e a globalização.

(D) o mercantilismo e a descolonização.

(E) o liberalismo e o imperialismo.

 

6. (UNESP) O advento de chefes de Estado-empresa marca uma transição sistêmica entre o  enfraquecimento do Estado-nação e o fortalecimento da corporação apoiada em sua racionalidade técnico-econômica e gerencial. Essa transferência leva, por um lado, ao esvaziamento do Estado, reduzido à administração e à gestão, e, de outro, à politização da empresa, que expande sua esfera de poder muito além de sua atividade tradicional de produção. A corporação tende a se tornar o novo poder político-cultural.

(Pierre Musso. “Na era do Estado-empresa”. http://diplomatique.org.br, 30.04.2019. Adaptado.)

Coerentes com o neoliberalismo, as propostas do Estado-empresa convergem para

(A) a apropriação das forças produtivas pelo Estado e a defesa da igualdade social.

(B) o pluralismo democrático e a redistribuição de renda por programas de assistência social.

(C) a regulamentação da força de trabalho e a defesa da produção flexível.

(D) o protecionismo econômico e a implantação de políticas fiscais contra a inflação.

(E) a adoção de privatizações e a mínima intervenção do Estado na economia.

 

7. (PUCCAMP) O mundo da globalização é um mundo onde metade da riqueza mundial é produzida sobre 1% das terras emersas. Uma das bases do processo de globalização é a doutrina econômica do neoliberalismo que apresenta, entre outras propostas,

(A) a implementação de políticas protecionistas para manter as empresas privadas nacionais e as estatais.

(B) o fechamento das fronteiras nacionais para garantir elevados saldos da balança comercial.

(C) o incentivo à presença do Estado em setores estratégicos da economia, como a indústria naval e aeronáutica.

(D) a implantação de limites à privatização e à fusão de empresas, comuns no final do século XX.

(E) a desregulamentação do mercado de trabalho que permite reduzir os custos das empresas.

 

8. (UERJ) Brasília - O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) do Ministério da Justiça condenou, ontem, as empresas Roche, Basf e Aventis. Segundo o Cade, essas empresas teriam restringido a oferta e elevado os preços no Brasil das vitaminas A, B2, B5, C e E, na segunda metade dos anos 90. Elas também teriam impedido a entrada de vitaminas chinesas, a preços mais baratos, no Brasil. As empresas já haviam sido condenadas por práticas semelhantes na Europa e EUA.

Juliano Basile. Adaptado de Valor Econômico, 12/04/2007

Desde o final do século XIX, tornou-se um aspecto marcante do modo de produção capitalista a formação de grandes empresas capazes de controlar a maior parte ou mesmo todo o mercado de um ou mais produtos.

A notícia acima expressa a seguinte prática presente nessa realidade centenária, associada à seguinte característica do atual momento econômico:

(A) holding - fusão de companhias do mesmo setor.

(B) cartel - controle do mercado em escala planetária.

(C) oligopólio - padronização mundial das leis de concorrência.

(D) dumping - protecionismo para produtos de países emergentes.

 

9. (ENEM) Concorrer e competir não são a mesma coisa. A concorrência pode até ser saudável sempre que a batalha entre agentes, para melhor empreender uma tarefa e obter melhores resultados finais, exige o respeito a certas regras de convivência preestabelecidas ou não. Já a competitividade se funda na invenção de novas armas de luta, num exercício em que a única regra é a conquista da melhor posição. A competitividade é uma espécie de guerra em que tudo vale e, desse modo, sua prática provoca um afrouxamento dos valores morais e um convite ao exercício da violência.

SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único a consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2006.

De acordo com a diferenciação feita pelo autor, que prática econômica é considerada moralmente condenável?  

(A) Adoção do dumping comercial.   

(B) Fusão da função administrativa.    

(C) Criação de holding empresarial.    

(D) Limitação do mercado monopolista.   

(E) Modernização da produção industrial.

 


10. (PUC–PR) Associe as colunas:

1 – Cartel   2 – Truste   3 – Monopólio   4 – Oligopólio   5 - Holding

 

(    ) Domínio do mercado por uma única empresa.

(    ) Domínio do mercado por poucas empresas.

(    ) Fusão de várias empresas para dominar o mercado.

(    ) Organização que controla várias empresas mediante o controle majoritário das ações.

(    ) Acordo ou associação de várias empresas independentes para controlar o mercado.


Assinale a sequência correta:

(A) 2 - 1 - 3 - 4 - 5  

(B) 4 - 2 - 5 - 1 - 3  

(C) 3 - 4 - 2 - 5 - 1  

(D) 5 - 4 - 2 - 3 - 1  

(E) 1 - 2 - 4 - 3 – 5


GABARITO:

1 E

2 B

3 D

4 E

5 C

6 E

7 E

8 B

9 A

10 C