domingo, 22 de março de 2009

DINÂMICA GERAL DA ATMOSFERA

Um dos temas mais complexos que permeiam os diversos campos de interesse da geografia é a Dinâmica geral da atmosfera e a sua interferência nos climas em todo o mundo. Nesse texto, pretendo apenas esclarecer alguns princípios muito básicos dessa dinâmica rica em fenômenos de compreensão difícil e explicação complexa.

Por princípios fisico-químicos, as moléculas de ar, quando aquecidas, tornam-se mais leves e descrevem trajetórias ascendentes (subida). Nos locais onde isso acontece na superfície terrestre, a pressão atmosférica torna-se baixa já que ela é o peso que as moléculas exercem sobre os corpos e esse peso diminui quando as moléculas estão aquecidas. Ao contrário, as moléculas frias, ficam mais pesadas e descrevem trajetórias descendentes, aumentando a pressão atmosférica nessas regiões.

Observe o esquema abaixo:

Com a subida das moléculas aquecidas nas áreas de baixa pressão, as moléculas mais frias das áreas de alta pressão deslocam-se para preencher o espaço criado pela subida do ar nas áreas de baixa pressão. É esse mecanismo que determina a dinâmica geral dos ventos, que sopram, portanto, das áreas de alta pressão para as áreas de baixa pressão. Os pólos apresentam pressões altíssimas devido às suas baixas temperaturas. Já as pressões mais baixas localizam-se na região mais aquecida do planeta, nas proximidades da linha do Equador.

O esquema abaixo explica a diferença de temperatura entre os Pólos e o Equador. Observe:

Nele estão representados dois feixes de luz de tamanho idêntico iluminando pontos diferentes do planeta. Por serem idênticos, a quantidade de energia enviada por cada feixe também é idêntica. No entanto, por conta da superfície arredondada da Terra, o feixe que atinge a região equatorial ilumina uma área bem menor do que aquele que ilumina a região próxima ao pólo. Assim, no Equador temos mais energia por área do que nos Pólos. Portanto, o Equador fica mais quente. E é ali que as altas temperaturas fazem as moléculas subirem iniciando uma dinâmica de ventos que está representada no esquema abaixo:

As moléculas que sobem na região equatorial abrem um espaço - um "vazio de moléculas" - na atmosfera. Então as moléculas das regiões de 30 graus de latitude norte e sul se deslocam para preencher esse espaço, gerando os ventos que conhecemos pelo nome de Ventos Alísios. Ao atingir a alta troposfera, a aproximadamente 16km de altitude, as moléculas que subiram no Equador dividem-se deslocando-se uma parte para o norte e outra parte para o sul, gerando os ventos que conhecemos pelo nome de Ventos Contra-Alísios. Ao atingir as regiões de 30 graus norte e sul, as moléculas descrevem trajetórias descendentes aumentando a pressão atmosférica nesses pontos. A chegada dos ventos contra-alísios nas zonas de 30 graus norte e sul determina a formação de uma célula de convecção de ventos: a Célula Tropical ou Célula de Hadley.

As moléculas que descem em 30 graus dividem-se ao tocar a superfície terrestre. Uma parte retorna para o Equador, na forma de ventos alísios. O choque dos ventos alísios nas proximidades do Equador forma a ZCIT (Zona de Convergência Inter-Tropical), uma zona de baixa pressão onde os ventos ascendentes carregam a umidade para a altitude possibilitando a condensação e a ocorrência de chuvas. A Zona de Convergência Inter-Tropical é marcada pelas intensas precipitações.

A outra parte dos ventos que descem em 30 graus norte e sul segue para a região de 60 graus de latitude. Nessas zonas de 60 graus, as moléculas vindas de 30 graus chocam-se contra as moléculas vindas das altas pressões dos Pólos. Esse encontro forma a Frente Polar. O choque desses ventos faz com que as moléculas subam - pois não podem ocupar o mesmo lugar no espaço - gerando ventos ascendentes, o que reduz a pressão atmosférica nas regiões de 60 graus norte e sul. Por isso, apesar da temperatura nessas áreas ser menor do que nas zonas de 30 graus, a pressão atmosférica é mais baixa.

A subida dos ventos na frente polar ocorre, como no Equador, até o "teto" da troposfera, a 16km de altitude. Nesse ponto os ventos se dividem novamente. Uma parte retorna para os Pólos onde desce, aumentando mais a pressão do local. E a outra parte retorna para as áreas de 30 graus, onde descreve trajetória de descida, somando-se aos ventos contra-alísios que vem do Equador e também chegam naquele ponto, contribuindo para as altas pressões dessa região. Dessa maneira estabelecem-se outras duas células de convecção de ventos: a Célula de Média Latitude, entre 30 e 60 graus de latitude Norte e Sul; e a Célula Polar, entre 60 e 90 graus de latitude norte e sul.

A compreensão desse modelo geral de circulação atmosférica é fundamental para entender as características dos climas. Ele explica, por exemplo, porque o Clima Equatorial, influenciado pela ZCIT, é mais úmido (ventos ascendentes) e porque a maioria dos Climas Desérticos aparece em regiões próximas a 30 graus norte e sul (ventos descendentes). Os ventos descendentes limitam a subida do vapor d'água para a alta troposfera. Desse modo não ocorre a condensação do vapor, o que dificulta a ocorrência de chuvas.

No entanto, o posicionamento desse sistema de ventos não é estático. Ele se move de acordo com as estações do ano. Quando o hemisfério norte está no verão, a ZCIT avança em direção ao norte abrindo espaço para o avanço da frente polar no hemisfério sul, que está no inverno. Nas situações de primavera/outono, a ZCIT costuma posicionar-se sobre o Equador e as frentes polares nas zonas de 60 graus. Quando o verão chega para o hemisfério sul, a ZCIT desloca-se para o sul abrindo espaço para o avanço da frente polar no hemisfério norte. É o que se vê no esquema a seguir:

É possível notar pelo próprio esquema que o deslocamento do sistema de ventos é maior para o norte do que para o sul. Isso se explica pelo fato de que o hemisfério norte possui mais superfícies continentais do que oceânicas. Como, por uma diferença de calor específico, os continentes se aquecem mais rápido do que os oceanos, o aquecimento do norte ao longo do verão atrai a ZCTI de forma mais intensa. Abandonando o seu posicionamento equatorial, a ZCIT migra para até a latitude de 10 graus norte, e todo o sistema se move nessa proporção. O verão seco do Clima Mediterrâneo (a 40 graus norte) se explica pelo deslocamento dos ventos descendentes sobre o Saara, a 30 graus norte, para o sul da Europa, a 40 graus norte.

No hemisfério sul a situação se inverte. Temos mais oceanos (massas líquidas) do que continentes. O aquecimento lento dos oceanos no verão exerce menor poder de atração do centro de baixa pressão da ZCIT. Então ela abandona sua posição equatorial e migra apenas para até a latitude de 4 graus sul, e todo o sistema se move nessa proporção.

Para concluir, cabe ressaltar que apesar da clara importância da dinâmica geral da atmosfera para a definição das características dos climas, diversos outros elementos e fatores tem capacidade de produzir efeitos relevantes sobre os diversos tipos climáticos da Terra, e nós analisaremos alguns deles aqui em outras oportunidades.

video


Assista esse vídeo com imagens interesantes sobre os climas no mundo.

REFERÊNCIAS:

AYOADE, J. O. Introdução à climatologia para os trópicos. São Paulo: Bertrand Brasil, 1983.

MAGNOLI, Demétrio. ARAÚJO, Regina. Projeto de ensino de geografia. São Paulo: Moderna, 2005.


IMAGENS:

MAGNOLI, Demétrio. ARAÚJO, Regina. Projeto de ensino de geografia. São Paulo: Moderna, 2005.

domingo, 15 de março de 2009

CLASSIFICAÇÕES DE RELEVO DO BRASIL

Uma das primeiras classificações feitas no Brasil sobre o relevo do país começou a ser produzida nos anos 1940 pelo geógrafo e geomorfólogo brasileiro Aroldo de Azevedo. Professor da USP, Aroldo publicou seu trabalho em 1949. A classificação baseava-se no critério da altimetria que dividia o Brasil em planícies, áreas de até 200 metros de altitude, e planaltos, áreas superiores a 200 metros de altitude.

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Aroldo baseou seu trabalho nas informações produzidas sobre o território até então e em trabalhos de campo onde partiu para a observação direta do relevo. Ele dividiu o Brasil em quatro planaltos e quatro planícies. Os planaltos são:

Planalto das Guianas
Planalto Atlântico
Planalto Central
Planalto Meridional


As planícies são:

Planície Amazônica
Planície do Pantanal
Planície Costeira
Planície do Pampa ou Gaúcha


Veja o mapa com a classificação de relevo de Aroldo de Azevedo:


No final dos anos 1950 surgiu uma nova classificação de relevo para o Brasil, elaborada pelo geógrafo e geomorfólogo Aziz Nacib Ab'Sáber. Também professor da USP, Ab'Sáber elaborou uma classificação mais complexa do que a de seu antecessor. Introduziu a abordagem morfoclimática, que considera os efeitos do clima sobre o relevo. Identificam-se sete planaltos e três planícies na classificação de Aziz. Os planaltos são:

Planalto das Guianas
Planalto Central
Planalto Meridional
Planalto Nordestino
Planalto do Maranhão-Piauí
Planalto Uruguaio Sul-Riograndense
Serras e Planaltos do Leste e Sudeste


As planícies são:

Planície Amazônica
Planície do Pantanal
Planície Costeira


Veja o mapa com a classificação de relevo de Aziz Ab'Sáber:

Em 1989 foi divulgada a nova classificação de relevos do Brasil elaborada pelo professor Jurandyr Ross, do Laboratório de Geomorfologia do Departamento de Geografia da USP. Ele usou no seu trabalho os dados produzidos pelo Projeto Radam Brasil.

Esse projeto, que restringia-se ao mapeamento por radar da Amazônia, foi ampliado para todo o Brasil em 1975. No levantamento dos dados foi utilizado o avião Caravelle que sobrevoou o país a uma altitude média de 12 km e a uma velocidade média de 690 Km/h. O professor Jurandyr Ross fez parte da equipe do Radam Brasil.

A nova classificação, com 28 unidades de relevo, considerou, além das características morfoestruturais (estruturas geológicas) e morfoclimáticas, as características morfoesculturais do relevo, ou seja, a ação dos agentes externos. E introduz o conceito de depressão, inexistente nas classificações anteriores.

As depressões são formas de relevo que apresentam altitudes mais baixas do que as existentes ao redor, já que elas circundam planaltos. Nas áreas de contato entre os planaltos e as depressões, costumam surgir escarpas quase verticais, demosntrando o efeito da erosão diferencial. Os sedimentos erodidos constituem a estrutura aplanada das depressões enquanto as rochas resistentes à erosão constituem os planaltos. No Brasil, existem 11 depressões e elas são divididas nos três grupos a seguir:

Depressão Periférica: estabelecidas nas regiões de contato entre estruturas sedimentares e cristalinas.

Depressão Interplanáltica: estabelecidas em áreas mais baixas em relação aos planaltos que as circundam.

Depressão Marginal: margeiam as bordas de bacias sedimentares, esculpidas em estruturas cristalinas.

Os planaltos, segundo a classificação de Jurandyr Ross, correspondem às estruturas que cobrem a maior parte do território e são consideradas formas residuais, ou seja, constituídas por rochas que resistiram ao trabalho de erosão. No Brasil existem 11 planaltos divididos nos quatro grupos a seguir:

Planaltos em Bacias Sedimentares: constituídos por rochas sedimentares e circundados por depressões periféricas ou marginais.

Planaltos dos Cinturões Orogênicos: originados pela erosão sobre os antigos dobramentos sofridos na Era Pré-Cambriana pelo território brasileiro.

Planaltos em Núcleos Cristalinos Arqueados: estruturas que, embora isoladas e distantes umas das outras, possuem a mesma forma, ligeiramente arredondada.

Planaltos em intrusões e coberturas residuais da plataforma (escudos): formações antigas da era Pré-Cambriana que possuem grande parte de sua extensão recoberta por terrenos sedimentares.

Nas planícies, onde predomina o trabalho de acumulação de sedimentos, as constituições das rochas se diferenciam dos planaltos e das depressões por serem formadas por sedimentação recente, com origem no Quaternário. No Brasil existem 6 planícies divididas em dois grupos:

Planícies Costeiras: encontradas no litoral como as Planícies e Tabuleiros Litorâneos.

Planícies Continentais: situadas no interior do país, são consideradas planícies as terras situadas junto aos rios.

Esses três conjuntos (depressões, planaltos e planícies) compõem a classificação mais recente adotada no Brasil. Veja o mapa da classificação de relevo de Jurandyr Ross:

Conclui-se, então, que as classificações de relevo do Brasil evoluiram nos últimos 60 anos, não só pelo uso de novas tecnologias bem como pela incorporação de novos conceitos e metodologias de trabalho. Vamos lá, leitor! Compare os mapas observando-os com atenção. Note como as planícies diminuem a cada clasificação. Observe cada mudança e exercite seu olhar geográfico. Pode ser bastante divertido.
REFERÊNCIAS:

ARAÚJO, Regina. MAGNOLI, Demétrio. Projeto de ensino de geografia. Geografia do Brasil. - 2. ed. - São Paulo: Moderna, 2005.
ROSS, Jurandyr L. S. Geografia do Brasil. - 4. ed. 1 reimpr. - São Paulo: EDUSP, 2003.

quarta-feira, 11 de março de 2009

FIORDES NA ISLÂNDIA E NA NORUEGA

A bela imagem que se vê abaixo apresenta diversos fiordes. Eles são formações de relevo contituidas por pequenos golfos estreitos e profundos cercados por montanhas altas, construídos pelo trabalho de erosão glacial. Esse trabalho deriva da "ação de imensas placas de gelo chamadas geleiras, ou glaciares, que se movimentam em rumo ao mar como se fossem grandes rios congelados". [1]

Esta imagem fez parte de uma exposição promovida pela NASA em 2002, quando comemoravam-se os 30 anos de lançamento do satélite Landsat. A exposição reuniu algumas das mais belas fotografias obtidas pelo satélite nesses trinta anos.




Já essa fotografia acima apresenta um fiorde na cidade de Oslo, na Noruega.

Referências:

[1] www.wikipédia.pt

sábado, 7 de março de 2009

INTEMPERISMO

Chamamos de agentes exógenos ou externos os elementos da natureza que realizam o trabalho de transformar as estruturas físicas e químicas das rochas e transportar, seja a curtas, médias ou longas distâncias, os fragmentos dessas rochas que eles são capazes de desgastar. Entre os principais agente exógenos ou externos temos as chuvas, os ventos, os rios, os mares e o gelo. Eles são capazes de causar tanto o intemperismo quanto a erosão.

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Mas qual é a diferença entre intemperismo e erosão?

Intemperismo correponde ao processo de alteração, ou seja, de transformação das estruturas físicas (através da desagregação), ou químicas (através da decomposição) das rochas da superfície terrestre. Já a erosão corresponde ao transporte dos fragmentos de rochas desgastadas, ou seja, o deslocamento de materiais intemperizados. Nesse texto dedicaremos algumas palavras para descrever os principais tipos de intemperismo, suas principais formas de ocorrência e seus agentes causadores.

Como ocorre o intemperismo?
O intemperismo ocorre essencialmente de duas formas, podendo a alteração das rochas ser de caráter físico ou químico. O intemperismo físico corresponde à alteração da estrutura física das rochas feita a partir de uma desagregação mecânica. Por exemplo: quando uma única rocha é dividida em duas partes, ela sofreu uma alteração física e não química pois as duas partes não tiveram sua composição química alterada pela simples quebra da rocha. Para que haja intemperismo químico é necessário que ocorra uma alteração da estrutura química da rocha. O intemperismo físico é típico de climas secos, sejam eles quentes ou frios. Já o intemperismo químico, cuja atuação é mais profunda e importante do que a do intemperismo físico, tem sua ocorrência em áreas úmidas e quentes.

Intemperismo Físico

Vejamos, então, os principais agentes que podem causar o intemperismo físico.

a) Variação de temperatura

A variação diária de temperatura (insolação) e a variação anual (estações do ano) atuam sobre as rochas provocando dilatação (pelo aquecimento ao longo do dia ou do verão) e contração (ao longo das noites ou do inverno). Essa dinâmica de dilatação e contração provoca a termoclastia, ou seja, a fragmentação ou desagregação das rochas pela variação de temperatura. Esse fenômeno é mais comum em climas secos (como os dos desertos) onde ocorre grande variação de temperatura diária e anual. Em alguns pontos do deserto do Saara, as temperaturas superam os 50 graus célcius durante o dia e caem drasticamente para níveis perto de zero grau à noite. O reflexo está na paisagem arenosa, fruto da fragmentação excessiva das rochas do local. Cabe destacar, ainda, que o comportamento dos diferentes minerais, que compõem uma mesma rocha e possuem coeficientes de dilatação distintos, é diferente provocando o "deslocamento relativo entre os cristais, rompendo a coesão inicial entre os grãos". [1]

b) Alívio de pressões
Frequentemente alguns blocos rochosos de grande dimensão que estão posicionados em partes profundas da crosta (chamados de batólitos) e que encontram sobre si um grande volume de rochas que atingem a superfície (chamadas de rochas encaixantes) sofrem um processo de soerguimento. Nesse processo o material da rocha encaixante é erodido e seu peso imenso é retirado, pela erosão, de cima do batólito causando um grande alívio de pressão. Esse alívio faz surgir um conjunto de fendas mais ou menos paralelas à superfície na estrutura da rocha soerguida. Essa alteração (fendilhamento) é de caráter essencialmente físico sendo mais um exemplo de intemperismo. Outras rochas, que não são batólitos, também sofrem intemperismo por alívio de pressão, como ocorre com os gnaisses e os arenitos.

c) Crescimento de cristais
A existência de poros ou fendas nas rochas possibilita o acúmulo de água e de sais (cloretos, sulfatos, carbonatos...). Em regiões frias, o congelamento da água acumulada nas fendas das rochas aumenta seu volume em aproximadamente 9% exercendo forte pressão para o alargamento dessas fendas podendo causar aumento das fraturas e fragmentar as rochas (crioclastia). O acúmulo de cristais nessas fendas também provoca essa abertura. Os cristais podem expandir-se pelo aumento da temperatura.


d) Hidratação de minerais.
"A cristalização de sais dissolvidos nas águas de infiltração tem o mesmo efeito [que o crescimento de cristais*]. Com o passar do tempo, o crescimento desses minerais também causa expansão das fraturas e fragmentação das rochas". [1] Ou seja, ressalta-se aqui o papel da absorção de umidade pelos minerais como agente físico causador de fraturas e, principalmente, esfoliações das rochas.

e) Processos físico-biológicos

A ação mecânica das raízes dos vegetais e de outros organismos também pode provocar a fratura ou a fragmentação das rochas. Quando, por exemplo, as raízes de uma árvore crescem na fenda de uma rocha, elas forçam a sua abertura gerando a desagregação dos blocos separados pela fenda.

Intemperismo Químico

Vejamos, agora, os principais agentes capazes de gerar o intemperismo químico.

a) Oxidação
Sua ocorrência é típica de "ambientes oxidantes" [2], ou seja, os mais úmidos. É mais comum nos íons Fe++ e no Fe+++. Sua evidência mais clara manifesta-se na coloração avermelhada e amarelada das rochas e dos solos gerados pela intemperização dessas rochas.

b) Redução

É o processo inverso à oxidação. O íon Fe++ mantém-se na forma estável. Ocorre preferencialmente em "ambientes redutores" [2], que também são bastante úmidos, saturados de água. O processo resulta em rochas e solos de coloração azualda, cinzenta ou esverdeada.

c) Hidratação

Esse processo ocorre a partir da entrada de moléculas de água na estrutura mineral, modificando-a e dando origem a um mineral diferente. Ocorre também em ambientes mais úmidos.

d) Hidrólise

Sendo as rochas constituídas basicamente por silicatos, quando elas entram em contato com a água, os silicatos sofrem hidrólise e dessa reação resulta uma solução alcalina. Em um feldspato potássico, por exemplo, o hidrogênio (H+) substitui por hidrólise o potássio (K+).
e) Atividade dos ácidos
Os ácidos facilitam a ocorrência do processo de hidrólise (em função do teor H+). Os principais ácidos ativos são o ácido carbônico, o ácido sulfúrico, os ácidos húmicos, etc.

f) Dissolução

A dissolução ocorre quando a água provoca a solubilização completa de um mineral. Esse processo é mais comum em terrenos formados por rochas calcárias, que são mais suscetíveis à dissolução completa.

g) Processos químico-biológicos
Derivam principalmente da liberação de substâncias e do aumento na acidez da água de infiltração, que resultam da ação de microorganismos, plantas e tecidos animais e vegetais. O solo é um ambiente rico em CO2 em função da oxidação da matéria orgânica e da respiração das plantas pelas raízes. Esse CO2 em contato com a água das chuvas diminui o pH dessas águas dando maior poder de ataque às rochas alterando-lhes a estrutura.


AGRADECIMENTOS:

Meus sinceros agradecimentos a professora Anice Esteves Afonso, do departamento de Geografia da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, amiga e mentora, pelo carinho e pela revisão dos conceitos desse pequeno texto sobre um tema que ela, como professora de geomorfologia, domina tão melhor do que eu.

Obrigado.

REFERÊNCIAS:

[1] TOLEDO, Maria Cristina M. et al. Decifrando a Terra. Ed. Oficina de Textos. São Paulo. 2002. pp.: 140-148.

[2] http://geomarco.com/

* Nota do Autor

segunda-feira, 2 de março de 2009

CONSENSO DE WASHINGTON: BASES E DESDOBRAMENTOS NO MUNDO SUBDESENVOLVIDO

Em 1990, o Fundo Monetário Internacional (FMI) passou a recomendar oficialmente a adoção de um conjunto formado por dez medidas econômicas voltadas para promover o ajustamento econômico de países subdesenvolvidos que passavam por dificuldades. Esse conjunto de medidas, formulado por economistas de instituições situadas em Washington (EUA) como o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, foi fundamentado em um texto do economista John Williamson, do International Institute for Economy, e por ele denominado de Consenso de Washington.


Segundo o CID-Harvard University, quando cunhou a expressão, Willamson assinalou que o Consenso de Washington deveria representar "o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas que estavam sendo cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989". Ou seja, a "receita" para a retomada do crescimento depois das crises dos anos 1970 e 1980.

As dez recomendações do Consenso de Washington eram as seguintes:

Abertura Comercial - com a redução de tarifas alfandegárias liberalizando o comércio internacional.

Privatização de Estatais - reduzindo o papel dos Estados como empresários nas economias nacionais.

Redução dos Gastos Públicos - que, entre outras possibilidades, viabilizariam maior superávit primário, ou seja, uma maior economia para pagamento de dívidas externas.

Disciplina Fiscal - estabelecendo um rígido controle sobre os gastos públicos para favorecer o controle inflácionário, evitar o aumento do déficit público e, preferencialmente, sustentar uma política fiscal expansionista.

Reforma Tributária - reduzindo e otimizando a cobrança de impostos sobre a produção e a circulação de mercadorias e serviços.

Desregulamentação - baseada no afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas a fim de favorecer a livre iniciativa.

Estímulo aos Investimentos Estrangeiros Diretos - reduzindo ou eliminando restrições para o investimento de capitais na instalação de filiais de determinadas empresas fora de seus países-sede.

Juros de Mercado - permitindo a adaptação às conjunturas momentâneas a partir de taxas flutuantes.

Câmbio de Mercado - viabilizando a realização de ajustes nos balanços de pagamentos e associando seu comportamento às intervenções das autoridades monetárias, ou seja, dos bancos centrais.

Direito à Propriedade Intelectual - protegendo principalmente o que se refere a patentes, marcas, desenho industrial, indicação geográfica e cultivares.

À revelia do próprio Williamson, a expressão Consenso de Washington passou a ser usada para justificar a adoção de políticas neoliberais defendidas principalmente pelos economistas da Escola de Chicago.

A experiência neoliberal surge em 1970, no Chile de Augusto Pinochet, com os Chicago Boys, economistas formados na Universidade de Chicago e influenciados pelas idéias de Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de economia em 1976. Os chilenos anteciparam em quase dez anos a adoção do neoliberalismo por Tatcher - Tatcherismo inglês - e por Reagan - Reaganismo norteamericano.

O Neoliberalismo é uma doutrina econômica que preconiza a restrição à intervenção estatal na economia e o fundamentalismo de livre-mercado que, segundo George Soros, criador dessa expressão, "coloca o capital financeiro ao volante" da economia. Retoma a clássica metáfora liberal de Adam Smith de que a "mão invisível" conduziria o capitalismo ao equilíbrio econômico. Bastaria, para isso, o controle inflacionário e do déficit público, segundo os neoliberais da Escola de Chicago.

Nesse contexto, o Neoliberalismo se opõe diretamente ao Keynesianismo vigente até então, que preconizava a atuação direta do Estado na economia e que essa atuação deveria preocupar-se com a geração do estado de bem-estar social. Ou seja, o Neoliberalismo faz ressurgir a defesa da minarquia - teoria política onde estão entre as funções do Estado apenas a promoção da segurança, da justiça e do poder de polícia, além da criação de legislação necessária para assegurar o cumprimento destas funções. E representa uma retomada do Laissez-faire (do francês, deixai fazer), chavão do liberalismo smithiano defendendo a redução do protecionismo nas trocas internacionais.

O Consenso de Washington acabou por traduzir os preceitos neoliberais num contexto de crise das economias de planejamento central do mundo socialista e da queda do muro de Berlim. A implantação sem questionamentos do receituário "infalível" do FMI para o desenvolvimento econômico do mundo subdesenvolvido trouxe consequências diversas, em muitos casos, bastante negativas, reveladas pela crise asiática de 1997, pela crise da Rússia em 1998 e pela "quebra" da Argentina em 2002.

As crises, com diversas características específicas, possuem pelo menos uma razão em comum: o Consenso de Washington acreditava que a liberalização dos mercados determinaria um fluxo de capital dos países mais ricos para os mais pobres, no entanto foi exatamente o contrário que aconteceu. Em vez de ocorrerem melhorias na distribuição de renda pelo mundo, a situação piorou, de acordo com dados estatísticos da ONU publicados no livro "Flat Wolrd, Big Gaps" (Um mundo plano, grandes disparidades - tradução livre).

Vários princípios do Consenso de Washington, que sustentam a ideologia neoliberal, podem se considerados "globalizantes" por estimularem a integração econômica internacional, principalmente através da abertura de mercados, das privatizações e do estímulo aos investimentos externos diretos. Entende-se, portanto, que o processo recente de globalização da economia mundial, de certa maneira, contribuiu para agravar as desigualdades sociais e econômicas que erguem um fosso entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido.

Nesse contexto, despontaram diversas manifestações antiglobalização em todo o mundo. O grande marco desse movimento foi o encontro de manifestantes em Seattle (EUA), no dia 30 de novembro de 1999, em protesto contra a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) naquela cidade. Ali uniram-se partidários de diversas ideologias: anarquistas, marxistas, ecologistas, católicos progressistas, pacifistas, sindicalistas, antimilitaristas, movimentos camponeses, organizações não-governamentais generalistas e de direitos humanos, entre outros grupos. Todos protestando contra os rumos atuais do processo de globalização. Por essa razão fale-se em "o movimento dos movimentos". Mais tarde surge o termo "Altermundialismo" cunhado por Ignácio Ramonet, editor do jornal francês Le Monde Diplomatique.


Nessa linha de contestação, surgiram no mundo periférico os Fóruns Sociais Mundiais, cujo primeiro aconteceu no Brasil, em Porto Alegre, no ano de 2001. Eles ocorrem nos mesmos dias em que ocorrem em Davos, na Suíça, os Fóruns Econômicos Mundiais, onde predominam as idéias defendidas pelas grandes corporações transnacionais que se beneficiam do processo de globalização e se esforçam pelo seu avanço.

As cartas estão na mesa e descortina-se um mundo de possibilidades para o futuro diante da realidade concreta do aprofundamento das desigualdades entre ricos e pobres. O que parece claro é que o Consenso de Washington não é mais um consenso. Talvez, como na hipótese de Dani Rodrik, professor de política econômica da Universidade de Harvard, o Consenso de Washington tenha tornado-se a Confusão de Washington.